Vendo aquele conhecido rosto desconhecido, tudo voltou. Eu lembrei de quando visitara aqui com você, só estava te acompanhando, não era nada importante, eu não fui importante. Mas por menor que o tempo tenha sido, tudo é diferente para mim. Eu procuro sempre aproveitar, procuro me entregar e, no final, eu sempre sofrerei muito.
Vendo o conhecido rosto desconhecido, tudo voltou. Meus olhos fugiram daquela pessoa que certamente não me reconheceria, mas eu o reconheci, reconheci esse lugar, reconheci os meus sentimentos. Não, o rosto dele não mudou; o lugar continua igual; e meus sentimentos intactos.
Vendo aquele rosto que fez tudo voltar, eu conheci o desconhecido. Talvez nem mesmo eu soubesse o que eu sentia, mas pensando agora eu vejo o quanto fui cativado, vejo que poderia até ter amado. E eu não podia mais ficar naquele lugar, eu tinha de sair o quanto antes, fugir de mim, de você, de nós. Sorte a minha que o nós já se foi, você já está bem longe, mas quem poderá me salvar de mim mesmo?
Fugi, fugi sem olhar pra trás, mas olhando pra frente eu podia me ver, me ver refletido nas poças da chuva, nos carros, nas vitrinas. Eu não me dava trégua, até ver através de mim, eu reconheço essa vidraça. É um restaurante que eu já passara várias vezes, mas só entrei uma, com ela. A primeira e última, com ela. Sentei numa cadeira do lado de fora do restaurante. Eu precisava descansar, precisava me recompor. Não posso fazer mais nada. O que posso fazer? Aceitar. Só posso aceitar. Nem entender é uma opção válida mais.
"O senhor deseja algo?"
"Não, perdão, eu só estava um pouco cansado, já vou embora."
Levanto-me e parto de novo. Sigo, por lugares conhecidos, com rumos desconhecidos. Continuo em frente, caminho lentamente, não tenho pressa, ninguém me espera em lugar nenhum. E agora eu ainda caminho, cada vez mais devagar, não tenho mais vontade - ou forças - de continuar. Quando a noite chegar, eu não terei você. Quando a noite chegar, eu não poderei sorrir sabendo que você terá a mim.
Eu não quero mudar as coisas, o passado é imutável - ou será? -, o presente é triste, o futuro é incerto. Eu não quero entender as coisas, algumas coisas são incompreensíveis, outras preferimos não entender, o resto a gente supõe entender. Eu não quero mais nada. Eu só estou um pouco cansado. Já vou embora.