domingo, 28 de agosto de 2011

Elevador.

Pressionei o botão e aguardei. Um velho grisalho postou-se ao meu lado, a aguardar o mesmo elevador que eu.
- Bons dias, disse.
- Bons dias, polido respondi.
T. Chegou o ascensor. Entramos, apertei o 5º andar, ele o 12º, provavelmente era da presidência, vestia-se bem e tinha classe, enquanto eu me vestia com a primeira coisa que encontrava e andava como se fosse um sacrífico trabalhar aquela hora - e era.
- Dia quente, não? Ele me perguntou.
- Realmente... quente demais para um dia de inverno. Respondi surpreso.
Então notei que ele disse aquilo sem perceber e sequer prestou atenção em minha resposta. Como se estivesse programado para falar algo quando encontrasse com alguém. Obrigado a ser simpático.

Na saída, o elevador estava cheio, entrei e apertei o T, mesmo sabendo que todos também iam para lá.
- Puxa, como o dia foi cansativo, disse um rapaz um pouco mais velho.
- Realmente, que bom que já estamos indo embora, respondeu uma garota quiçá mais nova que eu.
Eu não disse nada, não faria diferença. Todos diziam algo pré-fabricado. Ninguém se importava com aquela conversa no ascensor, só queriam chegar ao térreo, ao seu andar.
- Até.
- Até.
- Até.

Nos dias que se seguiram cada vez mais via a plasticidade de todos os sorriso de elevador. O como vai não se importava com como vinhamos. Como foi seu dia não dava a mínima para uma resposta positiva ou negativa. Bons dias, boas tardes e boas noites apenas para mim, pois eu realmente não ligo para você.
Você precisava responder, uma resposta óbvia e falsa. Uma resposta curta e seca. No elevador ninguém tem tempo para discursos, argumentos, filosofias ou ideias. Mas não é rápido o bastante para que possamos ficar quietos. Você precisa responder.

Hoje eu peguei a escada.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

A mesma rua.

Todo dia, há alguns meses, eu passava por essa rua.
Todo dia, há alguns meses, quando o ônibus virava essa esquina, eu lamentava e fazia de tudo para prolongar os segundos que escapavam pelos meus dedos.
Eu marcava aquele poste, que significava que dentro de 30 segundos eu teria de descer do ônibus e sofrer no meu trabalho.

Hoje eu estou passando pela mesma rua. E eu nunca havia notado essas árvores, a côr do céu se escondendo daquele prédio.
Hoje eu passo pela mesma rua, mas com um destino diferente, e que nome engraçado tem a rua que o ônibus entra na esquina.
Atrás daquele poste há uma sorveteria que parece interessante, do lado um brechó que me chamou atenção.

A mesma rua, outra pessoa.

domingo, 14 de agosto de 2011

[Colchetes

Eu espero não ser tão clichê
embora esteja escrevendo um poema de amor,
mas preciso te dizer, que tudo que eu sinto por você
[não cabe apenas no meu coração.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

eu não disse nada

não disse que era bom
não disse que era ruim
não disse que estava certo
não disse que estava errado
não disse que tinha a razão
não disse que seria legal
não disse que aprenderíamos algo
não disse que valeria a pena
não disse que te daria algo em troco
não disse nada.
[E, acima de tudo,
não disse que seria assim para sempre. Se eu mudei, eu não lembro de dizer que não mudaria.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Você me olhou bem nos olhos e não pôde ver que eu estava prestes a desabar
[será que você me conhece afinal?]

Parados frente-a-frente por alguns segundos e o mundo continuava no seu lugar, eu já não era transportado para o paraíso com você

Você sorri e eu me forço a fazer o mesmo, o sorriso mais falso que já dei, mas você mal repara
[será que você algum dia me conheceu?]

eu te dou um abraço forte e triste, estou me despedindo
[adeus]

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Eu não tenho cheiro...

Você não se recorda de mim ao ver aquele filme. Nem vê minha face ao fechar os olhos ouvindo aquela música.
Não tenho filme. Não tenho música.
Metade não lembra meu nome, outra metade lembra porque é igual ao deles.
você não sonha comigo, com o dia do nosso casamento, com o nome dos nossos filhos, com minhas manias, com meus defeitos, meu sorriso.
Eu não sou o amor da vida de ninguém.
Eu sou apenas o telespectador.
Assisto e opino.

A Tv ainda não tem cheiro.
Nem eu.

sábado, 6 de agosto de 2011

Eu não tenho cheiro.

Eu não tenho cheiro.
Meu cheiro não fica na sua roupa ao me abraçar. Minha voz não fica na sua cabeça ao nos despedirmos. Eu não tenho um estilo autêntico, que faça se lembrar de mim. Eu não tenho um gosto único, que seja intimamente meu.
Eu não tenho cara de quem ama isso, odeia aquilo. Eu sou morno. Minha mão não é fria, meu sorriso não é quente. Você passa por mim e nem percebe. Eu entro e saio da vida das pessoas sem causar nenhum dano, sem acrescentar nenhuma história.
Eu sou apenas um filme que ninguém se interessa.
Eu não tenho cheiro.