Era uma noite de Agosto com cara de Dezembro. A lua observava o mundo com uma juba de prata, e banhava de mercúrio as ruas. Uma brisa fresca aliviava o calor que se impregnava. Nas calçadas, jovens se aglomeravam, trazendo consigo música alta e sorrisos sem motivo. O calor aumentava, mas não um calor incômodo, e sim um calor humano, calor da música, da dança, da alegria, da sensualidade. Todos sorriam, todos flertavam, todos bebiam. A bebida em excesso, o combustível da já inflamada juventude, o néctar que fazia todos sorrirem mais, rirem mais, quererem mais.
Em meio a belos jovens - pois, a juventude em si já é bela - um par se destacava. Ela, com sua pele de porcelana, com seu cabelo cor-de-sol e uma graça de andorinha. Cercada por suas amigas, rodeada por admiradores. Sorria e disfarçava. Ria e dissimulava. Tinha ciência de que era desejada, por todos, homens e mulheres. Tinha ciência de que se destacava. Porém, fazia como ninguém o papel de inocente, de mera menina. Embora apenas seu sorriso fosse de menina. Suas curvas eram fartas e lânguidas. Despertando a libido dos homens. Mas também eram moderadas e belas. Criando a inveja nas mulheres. Seus olhos de diamantes penetravam a quem apontassem. Criava um ar de calma e de curiosidade. De paz e paixão. Mas ela não era a única na festa que colecionava olhares. O complemento do par, ele, também reunia desejos e suspiros. Era grande como um leão, belo como um pavão, e perigoso como um coiote. Todas o queriam, e ele, por sua vez, também queria todas. Seus olhos de falcão observavam toda e qualquer garota que passasse, e, quando uma o interessava, um sorriso traiçoeiro brotava em seus lábios, e ele só satisfazia-se ao tê-la em seus braços - ou em sua cama -. Todos os homens queriam ser ele. Todas as garotas queriam ser dele. Mas, essa noite, uma em especial chamaria a atenção dele, e a temporada de caça começaria.
Eles ainda não se notaram, eles ainda não se viram, estão simplesmente se curtindo, curtindo a festa. Porém isso está prestes a mudar. Pois ele começou a se mover, como se procurasse algo que não sabe o que é. Até que seus olhos se cruzam. Diamante e rubi, frente a frente. Ele gosta do que vê, ele a quer. Ela, do mesmo modo, interessa-se, mas finge corar e esconde-se entre suas amigas. Ele precisa fazer algo, precisa fazer sua jogada. Bebe um copo de desinibição, e o álcool corre por ele, como a energia correndo nos fios elétricos, dando a ele o impulso necessário para se aproximar. Ele mede seus passos, caminha como se fosse sobre o gelo. Sem pisar forte demais, para não acabar escaldado. Cada vez mais ele chega mais perto, mais perto. Até seus rostos estarem a um palmo de distância. Ele sorri para Ela como se tivesse encontrado um tesouro, Ela disfarça o seu sorriso por trás de suas mãos de pêssego. Alguns segundos suspensos pelo clima passam como se durassem o triplo do que duraram, olho a olho eles permanecem intactos, até que Ele corta todo o barulho do silêncio e diz "E aí, gata". É o que todos dizem "E aí, gata". Ela estava ciente do cronograma, até agora, Ele não tinha feito nada demais, nem nada de menos. Porém, Ele não precisava. Porque essa noite já era dos dois antes deles terem se cruzado. Ele diz mais alguma coisa sem importância, o que importa que Ele está se aproximando mais. Ela se afasta um pouco, como se tivesse medo. Embora também quisesse se aproximar e tocá-lo. Contudo, se o mundo é um palco, devemos desempenhar nossos papéis bem, e o dela é o da donzela. Ele continua a falar, mas diminui o ritmo, Ele encosta no braço dela. Ela encosta no braço dele. Eles se aproximam mais. Os lábios dela se dobram num sorriso de volúpia. O olhar dele penetra e faz o diamante rachar, Ela desvia os olhos e o observa de soslaio. Seus corpos atraem-se como imãs de pólos opostos. É pura física, é inevitável. Ele a agarra com a força necessária para fazer suas pernas tremerem, para despertar sua libido, mas com a delicadeza de quem colhe uma rosa. Ela se rende, ela fecha seus olhos. Ele também cerra os seus. Seus corpos se unem. Seus lábios se tocam. Ele sorri. Ela, por dentro. só ri. Ambos conseguiram o que queriam. Ninguém os invejava, pois eles formavam um casal magnífico, e a cena era esplêndida. Eles se perdiam entre suspiros e beijos. Entre toques e calafrios. A noite passava mais lentamente, a vida caminhava apressada. Seus corações corriam. Passado um quarto de hora repleto de toques, beijos e risos. Ele a leva para seu carro. Ela entra e o puxa pelo colarinho, os dois estão lá, ninguém mais os vê.
Ninguém os vê, ninguém, nem eu. Que observava tudo de longe. Que não fui convidado para a festa. Que vou-me embora, agora que os donos da festa já deram seu show. E os espectadores estão se distanciam.
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
terça-feira, 28 de setembro de 2010
22:22
22:22
Bom...
é meio difícil pedir isso, bom, não difícil, mas confuso.
O que eu queria, na verdade, é...
Assim, eu queria, se não for pedir muito, não sonhar com você essa noite.
Não porque eu não goste de sonhar contigo, muito pelo contrário, é só que - 22:23- peraí agora, que eu vou terminar. Muito pelo contrário, eu adoro sonhar contigo, eu fico feliz, minha noite se transforma, mas acordar e ver que eu não posso te ter, acordar e ver que você não está comigo, é péssimo, é um pesadelo diurno. É um pesadelo.
Então...
22:24
Então, se eu não posso te ter, prefiro não te amar, se eu não posso te ter, prefiro não sonhar.
Mas eu sei que meus sentimentos não são tão rasos assim, eu sei que continuarei sentido isso por ti, de uma forma ou de outra. E, se é assim que deve ser. Eu queria não sonhar com você, só hoje.
22:25
Bom...
é meio difícil pedir isso, bom, não difícil, mas confuso.
O que eu queria, na verdade, é...
Assim, eu queria, se não for pedir muito, não sonhar com você essa noite.
Não porque eu não goste de sonhar contigo, muito pelo contrário, é só que - 22:23- peraí agora, que eu vou terminar. Muito pelo contrário, eu adoro sonhar contigo, eu fico feliz, minha noite se transforma, mas acordar e ver que eu não posso te ter, acordar e ver que você não está comigo, é péssimo, é um pesadelo diurno. É um pesadelo.
Então...
22:24
Então, se eu não posso te ter, prefiro não te amar, se eu não posso te ter, prefiro não sonhar.
Mas eu sei que meus sentimentos não são tão rasos assim, eu sei que continuarei sentido isso por ti, de uma forma ou de outra. E, se é assim que deve ser. Eu queria não sonhar com você, só hoje.
22:25
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Hoje.
Ontem eu devia tê-la convidado para sair. Amanhã eu acho que estudarei. Ontem eu devia ter me exercitado. Amanhã eu acho que será um dia ruim. Ontem, se eu tivesse feito aquilo, eu poderia estar melhor agora. Amanhã será diferente. Ontem eu era mais feliz. Amanhã eu começo uma dieta. Ontem eu perdi uma grande oportunidade. Amanhã eu me mudarei, é melhor não me envolver com ninguém agora. Ontem as coisas eram mais fáceis. Amanhã eu espero que as coisas melhorem. Ontem eu devia ter feito as coisas de outro jeito. Amanhã eu farei tudo certo. Ontem foi um péssimo dia. E eu acho que amanhã também será. Se eu pudesse mudar o ontem. O amanhã é tão incerto. Ontem. Amanhã.
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
Pose.
"Ok, aqui vamos nós, isso é fácil, já fizemos isso antes, sem pressão. Uhm, deixe-me ver, sorria, acene, pergunte se está tudo bem com eles. Isso, muito bem, acho que fomos bem. Ok, agora ande com eles, 'per'aí, vai mais p'ra frente, não! Mais p'ra trás, isso, ande ao lado, exato, ao lado. Estão falando contigo, diga algo. Tudo bem, continue assim... bom, agora que chegamos aqui, puxe uma cadeira, e sente-se normal. Isso, preste atenção na conversa, tente falar algo interessante, mas não fale demais. Aham, tudo bem, espere, faça um comentário. Pronto, cuidado com tua postura, pode relaxar um pouco, isso. Fizeram uma piada, ria, mas não muito alto. Ok, tente dizer algo engraçado também, uhm, ok, poderia ter sido melhor, mas ok. Não fique muito retraído, olhe as pessoas, sorria sempre. Muito bem. Diga algo, use suas mãos, expresse-se. Legal, fale qualquer coisa óbvia. Certo, agora diga algo. Ria. Fale. Mexa-se. Escute. Argumente. Opine. Muito bem, estamos indo bem. Estão falando sobre algo que você conhece, faça um comentário superficial. Ok, ria, ria. Cuidado, você está muito disperso, finja que está interessado neles. Isso, estou gostando de ver. Continue assim, repita alguns passos. Sempre sorria. Olhe nos olhos. Não aja muito estranho, não chame a atenção, mas não fique tão quieto. Isso, legal. Continue assim. Acho que você aprendeu."
Não há nada mais simples do que agir naturalmente.
Não há nada mais simples do que agir naturalmente.
domingo, 19 de setembro de 2010
Diálogo.
Debruçando-se sobre o balaústre da sacada, correndo seus olhos no horizonte da cidade de granito, suspirou.
- É irônico, eu já não sei mais quem diz a verdade ou quem mente. O que é falso e o que é real. É muito irônico. Eu que sempre brinquei com a verdade e com a confiança das pessoas. Eu que persuadi, iludi e tive o que quis. Eu que era sinônimo de eloqüência, estou num impasse desses, estou confuso. Estou perdendo em meu próprio jogo! - Disse jogando sua cabeça para trás.
- Não sei por que tu reclamas tanto. Era essa a sensação que você dava para os outros, a desconfiança, ninguém sabia se acreditava ou não em ti. Só está colhendo o que plantou. Afinal, veja só essa tua atitude, para ti tudo é um jogo não é? Pois, então, não podemos sempre vencer. Aliás, o importante não é ganhar. - Respondeu o segundo jovem com um ar de desaprovação.
E o primeiro, pondo-se a rir, exclamou - O importante não é vencer? Que filosofia mais triste a tua, porém, devo concordar, o importante não é triunfar. O importante é ganhar e, mais do que isso, poder gozar de tua vitória, poder ver o olhar vazio de quem derrotastes, saber que és o melhor. Isso que é importante. - Disse adentrando o cômodo e sentando-se no sofá.
Os dois amigos ficaram em silêncio e tudo que podia se ouvir era o som dos animais da selva de concreto fora da janela, o rugir dos carros e o canto das construções que pareciam inacabáveis. Então, o mais sensato dos dois, com um pouco de receio falou - Sabe, o engraçado é que eu sei que tu sempre dirás esse tipo de coisa, que pensarás essas loucuras e que continuarás sempre sendo tu. Entretanto, por alguma razão que vai além de minha compreensão, permaneço ao teu lado, embora recrimine toda e qualquer palavra que saia de tua boca e, principalmente, que passe por tua cabeça.
- Talvez, tu queiras me consertar, sabemos muito bem que tens de manter essa pose de moço direito, e consertar-me seria um grande feito, feito o qual deixar-te-ia bem falado em muitos lugares. Contudo, duvido que seria um motivo de tamanho egoísmo, a pior parte de tua pose é que ela é mais que uma mera pose. E, por isso, irrita-me tanto.
- Todos sabem que tu não tens mais conserto, e que tens repulsa da idéia de "ser uma boa pessoa". Acho que nossa amizade esticou-se tanto que o final dela já está fora de vista. - Sugeriu dando de ombros.
- Sabes, que conversa mais maçante acabamos por meter-nos, falar de nossa amizade, acho que realmente estou mudando! Com o tempo, até mesmo eu estou por adquirir uma crosta que vocês pessoas corretas nomearam paciência. E com ela, muitos outros males virão, estou precisando perder-me nessa vida para ver se me encontro novamente. - Disse levantando-se e agarrando seu chapéu que deixara jogado e sua bengala que encontrava-se recostada na parede. - Mais tarde vemo-nos, foi um desgosto ter esse diálogo contigo.
- Eu também gostei, até mais.
-Até mais! - Despediu-se fechando a porta atrás de si.
E no velho apartamento a esperança de que ele pode mudar e ser uma pessoa importante fez companhia ao caçula que foi descansar com um sorriso tímido em sua boca.
- É irônico, eu já não sei mais quem diz a verdade ou quem mente. O que é falso e o que é real. É muito irônico. Eu que sempre brinquei com a verdade e com a confiança das pessoas. Eu que persuadi, iludi e tive o que quis. Eu que era sinônimo de eloqüência, estou num impasse desses, estou confuso. Estou perdendo em meu próprio jogo! - Disse jogando sua cabeça para trás.
- Não sei por que tu reclamas tanto. Era essa a sensação que você dava para os outros, a desconfiança, ninguém sabia se acreditava ou não em ti. Só está colhendo o que plantou. Afinal, veja só essa tua atitude, para ti tudo é um jogo não é? Pois, então, não podemos sempre vencer. Aliás, o importante não é ganhar. - Respondeu o segundo jovem com um ar de desaprovação.
E o primeiro, pondo-se a rir, exclamou - O importante não é vencer? Que filosofia mais triste a tua, porém, devo concordar, o importante não é triunfar. O importante é ganhar e, mais do que isso, poder gozar de tua vitória, poder ver o olhar vazio de quem derrotastes, saber que és o melhor. Isso que é importante. - Disse adentrando o cômodo e sentando-se no sofá.
Os dois amigos ficaram em silêncio e tudo que podia se ouvir era o som dos animais da selva de concreto fora da janela, o rugir dos carros e o canto das construções que pareciam inacabáveis. Então, o mais sensato dos dois, com um pouco de receio falou - Sabe, o engraçado é que eu sei que tu sempre dirás esse tipo de coisa, que pensarás essas loucuras e que continuarás sempre sendo tu. Entretanto, por alguma razão que vai além de minha compreensão, permaneço ao teu lado, embora recrimine toda e qualquer palavra que saia de tua boca e, principalmente, que passe por tua cabeça.
- Talvez, tu queiras me consertar, sabemos muito bem que tens de manter essa pose de moço direito, e consertar-me seria um grande feito, feito o qual deixar-te-ia bem falado em muitos lugares. Contudo, duvido que seria um motivo de tamanho egoísmo, a pior parte de tua pose é que ela é mais que uma mera pose. E, por isso, irrita-me tanto.
- Todos sabem que tu não tens mais conserto, e que tens repulsa da idéia de "ser uma boa pessoa". Acho que nossa amizade esticou-se tanto que o final dela já está fora de vista. - Sugeriu dando de ombros.
- Sabes, que conversa mais maçante acabamos por meter-nos, falar de nossa amizade, acho que realmente estou mudando! Com o tempo, até mesmo eu estou por adquirir uma crosta que vocês pessoas corretas nomearam paciência. E com ela, muitos outros males virão, estou precisando perder-me nessa vida para ver se me encontro novamente. - Disse levantando-se e agarrando seu chapéu que deixara jogado e sua bengala que encontrava-se recostada na parede. - Mais tarde vemo-nos, foi um desgosto ter esse diálogo contigo.
- Eu também gostei, até mais.
-Até mais! - Despediu-se fechando a porta atrás de si.
E no velho apartamento a esperança de que ele pode mudar e ser uma pessoa importante fez companhia ao caçula que foi descansar com um sorriso tímido em sua boca.
domingo, 12 de setembro de 2010
Desculpas.
Desculpe-me, se eu não sou uma boa pessoa.
Desculpe-me, se eu não sou sempre feliz.
Desculpe-me, se eu não sou inteligente.
Desculpe-me, se eu não sou bonito.
Desculpe-me, se eu não sou simpático.
Desculpe-me, se eu não sou tão divertido.
Desculpe-me, se eu não sou alguém de fé.
Desculpe-me, se eu não sou motivado.
Desculpe-me, se eu não sou confiante.
Desculpe-me, se eu não sou interessado.
Desculpe-me, se eu não sou alguém que ri do que riem.
Desculpe-me, se eu não sou alguém que gosta do que gostam.
Desculpe-me, se eu não sou interessante.
Desculpe-me, se eu não sou tudo que deveria ter sido.
Desculpe-me, se eu não sou como os outros.
Desculpe-me, se eu não sou.
Desculpe-me, se eu não sou sempre feliz.
Desculpe-me, se eu não sou inteligente.
Desculpe-me, se eu não sou bonito.
Desculpe-me, se eu não sou simpático.
Desculpe-me, se eu não sou tão divertido.
Desculpe-me, se eu não sou alguém de fé.
Desculpe-me, se eu não sou motivado.
Desculpe-me, se eu não sou confiante.
Desculpe-me, se eu não sou interessado.
Desculpe-me, se eu não sou alguém que ri do que riem.
Desculpe-me, se eu não sou alguém que gosta do que gostam.
Desculpe-me, se eu não sou interessante.
Desculpe-me, se eu não sou tudo que deveria ter sido.
Desculpe-me, se eu não sou como os outros.
Desculpe-me, se eu não sou.
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
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