Debruçando-se sobre o balaústre da sacada, correndo seus olhos no horizonte da cidade de granito, suspirou.
- É irônico, eu já não sei mais quem diz a verdade ou quem mente. O que é falso e o que é real. É muito irônico. Eu que sempre brinquei com a verdade e com a confiança das pessoas. Eu que persuadi, iludi e tive o que quis. Eu que era sinônimo de eloqüência, estou num impasse desses, estou confuso. Estou perdendo em meu próprio jogo! - Disse jogando sua cabeça para trás.
- Não sei por que tu reclamas tanto. Era essa a sensação que você dava para os outros, a desconfiança, ninguém sabia se acreditava ou não em ti. Só está colhendo o que plantou. Afinal, veja só essa tua atitude, para ti tudo é um jogo não é? Pois, então, não podemos sempre vencer. Aliás, o importante não é ganhar. - Respondeu o segundo jovem com um ar de desaprovação.
E o primeiro, pondo-se a rir, exclamou - O importante não é vencer? Que filosofia mais triste a tua, porém, devo concordar, o importante não é triunfar. O importante é ganhar e, mais do que isso, poder gozar de tua vitória, poder ver o olhar vazio de quem derrotastes, saber que és o melhor. Isso que é importante. - Disse adentrando o cômodo e sentando-se no sofá.
Os dois amigos ficaram em silêncio e tudo que podia se ouvir era o som dos animais da selva de concreto fora da janela, o rugir dos carros e o canto das construções que pareciam inacabáveis. Então, o mais sensato dos dois, com um pouco de receio falou - Sabe, o engraçado é que eu sei que tu sempre dirás esse tipo de coisa, que pensarás essas loucuras e que continuarás sempre sendo tu. Entretanto, por alguma razão que vai além de minha compreensão, permaneço ao teu lado, embora recrimine toda e qualquer palavra que saia de tua boca e, principalmente, que passe por tua cabeça.
- Talvez, tu queiras me consertar, sabemos muito bem que tens de manter essa pose de moço direito, e consertar-me seria um grande feito, feito o qual deixar-te-ia bem falado em muitos lugares. Contudo, duvido que seria um motivo de tamanho egoísmo, a pior parte de tua pose é que ela é mais que uma mera pose. E, por isso, irrita-me tanto.
- Todos sabem que tu não tens mais conserto, e que tens repulsa da idéia de "ser uma boa pessoa". Acho que nossa amizade esticou-se tanto que o final dela já está fora de vista. - Sugeriu dando de ombros.
- Sabes, que conversa mais maçante acabamos por meter-nos, falar de nossa amizade, acho que realmente estou mudando! Com o tempo, até mesmo eu estou por adquirir uma crosta que vocês pessoas corretas nomearam paciência. E com ela, muitos outros males virão, estou precisando perder-me nessa vida para ver se me encontro novamente. - Disse levantando-se e agarrando seu chapéu que deixara jogado e sua bengala que encontrava-se recostada na parede. - Mais tarde vemo-nos, foi um desgosto ter esse diálogo contigo.
- Eu também gostei, até mais.
-Até mais! - Despediu-se fechando a porta atrás de si.
E no velho apartamento a esperança de que ele pode mudar e ser uma pessoa importante fez companhia ao caçula que foi descansar com um sorriso tímido em sua boca.
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