domingo, 27 de fevereiro de 2011

A flôr.

Existia uma flôr. Uma única flôr. Que vivia numa cúpula. Que a protegia do mundo exterior.
A flôr tinha uma delicadeza ímpar. Uma beleza inigualável. Uma pureza inabalável.
Todos que a admiravam ficavam bem. Ela trazia paz para quem passasse. Ela fazia sorrir o mais carrancudo. E com ela o mundo fazia mais sentido.
A flôr era bela e sobrevivia sómente com a luz vital do Sol. Ela vivia sozinha, ela e mais ela. Ela e menos o mundo.
Todos a adoravam. Todos a amavam. Todos a admiravam. Cada vez mais. Cada vez mais esperavam mais dela. E ela só era. Só era ela.
Sob o sol. Sob o luar. Sempre a brilhar.
Ontem ela era ela. Ela ontem.
Hoje ela é ela. Ela hoje.
Amanhã ela será ela. Ela amanhã.
E com o passar do tempo. Nada mudou. Todos a admiravam de fora da cúpula. E ela continuava sendo linda e inalcançável. Uma única flôr. Sozinha. Perfeitamente sozinha.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O barco.

Um marinheiro preparava para entrar no mar com seu pequeno bote quando seus amigos apareceram:
Ainda com esse velho barco? Ele ainda acabará sendo sua ruína. - Disse um deles.
É, cara, não leve a mal, mas... esse bote já era, já deu o tempo deles, o tempo de vocês. Compre um novo, existem tantos melhores por aí. - Acrescentou o outro.
Deixem de bobagem, ele ainda está em perfeitas condições, ele me é suficiente. Já cansei das grandes viagens, agora eu só quero pescar um pouco, navegar pelo calmo mar, nós dois não queremos complicações. - Respondeu o homem do mar.
Claro, claro, você não vai mais ao alto mar porque seu amiguinho não aguenta e você não quer arranjar um novo, mas tudo bem, depois não nos diga que não lhe avisamos. - Falou o primeiro indo embora.
Nós só queremos o seu bem, e esse barco acabará por acabar contigo... - Avisou o segundo enquanto partia com o outro.
Isso, vão embora! Vocês tem inveja porque não tem um barco como o meu! Um barco que aguentou selvagens tempestades, que navegou por muitos mares e ainda está inteiro! Vão embora. - Proferiu o marinheiro entrando no barco.
Amigos patifes. Não me apoiam, não nos apoiam, eu não preciso deles, não enquanto ter você. - Sussurrou para o barco, enquanto desatava o nó que prendia a embarcação ao píer.
E juntos foram ao mar.

O mar estava calmo. As águas refletiam o belo céu azul e os raios dourados do sol. As gaivotas voavam alto e dançavam para todos verem. Os peixes não se acudiam pela presença dos barcos de pesca e pulavam para fora do mar a fim de se exibir e aproveitarem a linda tarde.
O mar estava calmo. As ondas eram macias e embalavam a velha embarcação num ritmo doce e pacífico. As ondas macias se chocavam com as rochas e espalhavam sal e água por cima dos peixes e dos barcos, refrescando-os.
O marinheiro não estava calmo:
Tudo bem, o seu mastro está meio quebrado. A sua vela desgastada. O seu casco teve alguns buracos. E sua quilha parou de funcionar há algumas semanas. Mas ainda sim você está em bom estado. Você é meu parceiro, eles não tinham o direito de dizer isso! Eles deviam se oferecer para me ajudar a te consertar, ao invés de numerar seus defeitos e dizer para eu arranjar um novo barco! Pff, quem precisa de amigos assim? Só preciso de você, de você e do mar. - Praguejava sozinho o gajeiro, prestes a adormecer sobre o calmo mar.

A chuva forte e gelada acordou-o num susto. Ele se levantou e percebeu que adentrara em muito no mar e já não conseguia ver a costa de sua cidade. Tudo que conseguia ver eram as nuvens ferozes prestes a devorá-lo com suas línguas de trovão. Elas rugiam, elas cuspiam e o barco sacolejava. A chuva ia ficando cada vez mais forte, o vento era intenso e balançava o pequeno bote de um lado para o outro. O marujo tentava remar, tentava levantar vela, mas era tudo em vão, o barco não conseguiria sair inteiro dali, e ele também não se continuasse lá. Ele tinha de pular para tentar se salvar.
Um estalido pôde ser ouvido seguido por um forte estrondo. O mastro caíra. O marinheiro não sabia o que fazer. O mar ficava mais e mais enraivecido, as ondas tentavam virar o barco. E o barco já não tinha mais forças para se proteger. Mais um estalido, o casco se rachou, a água invadia a embarcação rapidamente. A água era fria, gélida. Ele não tinha como se proteger da torrente. O barco começava a se afogar. Inutilmente o marinheiro tentava tirar a água de dentro do bote. Os trovões rugiam mais e mais alto, a água vibrava e reverberava com a força dos raios. O pobre náutico não conseguia enxergar nada mais somente água. Mar, chuva, lágrimas.
Pouco a pouco o barco afundava, pouco a pouco, o barco desistia, pouco a pouco, mas ele continuava lá. Em meio a tanta chuva, em meio a tantos trovões, ondas, o marinheiro disse suas últimas palavras, para o barco. E pulou.

O céu voltou a se abrir, o sol a sorrir. As nuvens estavam macias e alegres. O mar estava azul e calmo. E um arco-íris podia ser avistado ao longe. Do barco só restaram alguns pedaços de madeira. Uma quilha sem funcionar, uma parte do mastro, lixo, memórias. Do marinheiro, só restou o resto do barco.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O guardador de nuvens.

Pudera eu ser um guardador de rebanhos.
E ter a vida bucólica que sempre quis.
Em meio a paz e a tranquilidade.
Mas não, não na grande cidade.
Aqui não existe paz, não existe natureza.
Aqui a minha selva é de pedra.
Os animais são os homens.
E a calma é uma ilusão.

Mas eu não posso ser um guardador de homens,
os homens não servem para isso,
não são espertos o suficiente.
E em meio a tantas ilusões,
contento-me a guardar as nuvens,
que são belas, alvas e fofas,
assim como os carneiros,
que um verdadeiro guardador preza e zela.