sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O escravo maia.

IX

-No topo dessa montanha que eu conheci a felicidade! Foi aqui que eu encontrei alguém que não me considerava diferente por ser cristã. Nesse lugar eu achei você para me proteger e me amar. Sem ti não sou mais nada, sou aquela garota indefesa. Tu que me fazia, não, faz forte. O meu sorriso era um disfarce para a dor, mas, desde aquele dia, eu já não me escondo e, se pareço feliz, é porque sou! Mas tu não sentes o mesmo, tu me trocastes, me traístes, acabastes com tudo!
-...eu te amo.
-Não! Não amas! Não mintas...
-Eu só fiz aquilo porque o príncipe... foi ideia dele, eu não podia recusar, ele mudou nossas vidas, devemos a ele... não poderia ser ingrato, não podia recusar. Eu te amo.
-Eu também te amo... mas... nunca mais faças isso.
-Nunca mais.
E ela abraçou o peito do rapaz. Assim deixaram de ser mais que um casal e tornaram-se um casal a mais.

A vida dos dois, então, passou a ser muito simples, monótona e trivial. O rapaz servia de modelo para o príncipe, como haviam combinado. Era inspiração para quadros e esculturas, sonetos e serenatas, esporadicamente saiam juntos para explorar o desconhecido reino ou caçar algum animal exótico que o jovem monarca desejava. A garota, na maioria das vezes, preferia ficar no castelo, as outras moradoras simpatizaram com ela e seu jeito semi-angelical. Sempre podíamos vê-la aprendendo como ser uma boa esposa e mão, embora ela não soubesse se o garoto pretendia casar ou ter filhos. Assim como o jovem escravo, a menina passava muito tempo com alguém importante do castelo, que ensinava-lhe muito da vida real: a velha de papel amassado. Ela sempre com a garota de olhos de céu - olhos que elogiava a todo momento. A anciã cuidava da menina como se fosse sua própria filha, embora todos soubessem que ela nunca teve um amado e sempre dedicou sua vida à família real. Ela era a tutora da mãe do príncipe e desde que ela morrera nunca mais foi feliz, até encontrar a doce menina.
Naturalmente o casal passava muito tempo junto, não falavam tanto quanto antes, mas isso devia ser uma consequência de estar há tanto tempo com alguém. A garota passou a sorri menos, não se sabe se foi uma dica de etiqueta que recebera, ou se deixara de ser feliz. Embora a segunda opção pareça incabível, tendo em mente que morava n'um belo palácio, tinha um perfeito amado que a amava de volta, era rica, todas a invejavam e tantas outras alegrias que sua nova vida proporcionou. O garoto também aquietara-se, já não falava que seria dono do mundo, que chegaria ao topo, sua ambição esfriou, imagina-se que já havia conquistado muito. E assim o tempo passou.

O tempo passou assim, sem grandes acontecimentos. O garoto saía com o príncipe sempre que necessário, acabou descobrindo que sua função não era exclusivamente a de inspiração, como fora prometido. Muitas vezes ele tinha de ir com o príncipe e alguns guardas reais para "ampliar o reino", subjugando vilarejos e povoados de pagãos e para "proteger a coroa", executando príncipes e duques inimigos. Mesmo não sendo o acordado, o garoto não reclamava do serviço, pois secretamente apreciava toda essa ação, todo o calor da batalha, o sangue correndo.
N'uma das caminhadas que ele e o jovem príncipe faziam simplesmente para apreciar a natureza, foram pegos n'uma emboscada. Um zumbido voou em direção do príncipe, mas o jovem bronzeado interveio.
-Ahh! - O garoto fora atingido por uma flecha que vinha de dentro das árvores. - Quem está aí?! - Interrogou o jovem enquanto puxava sua lança e preparava-se para a batalha.
Um borrão saltou da mata para atacar a dupla. O garoto, com um movimento maestril, interrompeu a investida e derrubou o atacante. No chão encontrava-se um jovem que aparentava ter a mesma idade do guarda-muso, entretanto essa e a origem eram as únicas semelhanças que poderiam ser identificadas. Ao contrário do jovem de pé, o caído era baixo e levemente roliço, tinha um olhar leviano mas uma expressão irada. Em seu peito nu podia ser vista uma tatuagem, um emblema da união do sol com a lua.
-Quem é você?! O que quer aqui? - O garoto exclamou estancando com sua capa a ferida que fora aberta pelo projétil. - Anda, responde.
-Será que não me reconhece? - Disse o rapaz que estava no chão, enquanto exibia uma cicatriz que carregava em seu braço direito. -Quando eu era mais novo, um leopardo me atacou e fez essa marca que você vê, felizmente o ferimento não foi mais grave, pois um bravo guerreiro me salvou. Você é diferente do seu pai... você é um traidor!
-Eu não sou meu pai! -Urrou o garoto enquanto fincava sua lança no braço esquerdo do rapaz caído. -Mas se insiste... - e seus olhos começavam a perder o juízo. - ...se insiste, farei como meu pai! - E rasgou o braço do rapaz simulando a cicatriz que ele tinha no outro braço. -Agora estamos quites! - E riu dementemente.
-O que é isso?! - Disse o príncipe. -Pare, por favor, já me salvastes, não é necessária tamanha violência. - E afastou o rapaz de sua vítima. -Vamos embora, por favor, não faças mais isso.
-Vamos... - o jovem-menino desabafou, voltando a si. -Vamos embora, não farei mais isso... perdoe-me.
E deixaram o garoto caído sobre seu sangue e vergonha, para nunca mais vê-lo.

Desde esse dia o rapaz ficou ainda mais quieto, sempre calado, apenas seguia as ordens do príncipe, ficava com a garota e fitava a lua antes de dormir. Até que, cerca de dois anos depois, teve a notícia que sua mãe estava muito doente e, se não tratasse sua enfermidade.
-Vamos, mamãe, você precisa curar sua doença, precisa melhorar, não seja cabeça-dura! - Ele dizia a ela.
-Por favor... é o melhor para ti, podem te ajudar no palácio, venhas conosco. - Concordava sua amada.
-Não, esse é o meu lugar, é aqui que eu quero passar o resto de minha vida, sejam anos ou dias, eu não sairei mais daqui. Já lhes disse um milhão de vezes, e um milhão de vezes digo mais, agora deixem de insistência. - Pediu com o resto das forças que tinha. Estava decidida e ninguém a faria mudar de ideia.
Alguns dias depois sua mãe faleceu. O garoto não derrubou uma lágrima sequer, no dia do funeral apenas disse "Ela pediu isso". E deixou o escudo de seu pai em sua cova.
-Não fique triste. Eu mal conheci minha mãe, só sei que ela foi uma mulher incrível e bela, sempre me disseram que ela tinha olhos de diamantes inigualáveis, sempre quis a conhecer... mas ela faleceu ao me dar a luz. Acho que o amor materno é isso, eu gostaria de ter a conhecido, porém sei que ela me amou mais do que tudo. Não fiques triste. - Revelou o príncipe ao garoto, sob a chuva fúnebre.

Um ano depois o casal concordou em ter um casamento cristão. Foi apenas uma pequena celebração, com alguns poucos convidados. O príncipe, a velha de papel, alguns amigos de caça do garoto, algumas amigas da garota. O rapaz vestia um traje formal, diferente do que estava acostumado, preto e sem adornos, pois preferia assim. A garota vestia um lindo vestido branco, com cristais em forma de flôr, que formavam uma alça de um lado; uma comprida saia trabalhada em seda e rendas vazadas por cima da saia; um véu branco com uma guirlanda de cristais. Ela estava estonteante, seu vestido era estonteante, seu sorriso era perfeito, eles formavam um casal tão ímpar e um par tão casado.
-Aceito- disse a garota.
-Aceito- disse o rapaz.
A garota jogou seu bouquet de jasmins, rosas vermelhas e brancas para o céu, eles estavam unidos, e o bouquet voava pelo céu da montanha feliz e festejante.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O escravo maia.

VIII

Ele. A lua. O sol. No topo da lúdica montanha.
O garoto lembrava que um dia seu pai explicara o significado da lua e do sol que estavam sempre presentes nos trajes e armas do exército do vilarejo. Por serem símbolos antagónicos representavam o equilíbrio que todo guerreiro devia ter. "A força do sol e a sabedoria da lua", dizia ele. Pois nem sempre a força é a solução correta, e nem sempre podemos resolver nossos problemas sem violência. Afinal o sol sempre se deita e a lua uma hora se apaga. É assim a nossa vida toda, sempre em ciclos. "Ninguém é sempre sol ou lua.". Era o que recordava.
Nada mais se via no topo da sonífera montanha. Somente o menino e a lua-sol entrelaçada como os brasões dos bravos soldados. Porém, de repente, o emblema começou a se desfazer, a lua e o sol se afastaram, repeliram-se. O jovem assistia ao espetáculo como um ávido espectador, não se movia e mal respirava, suas pálpebras estavam abertas como um botão de rosa que nasce no luar. Enquanto o sol e a lua lentamente caminhavam para um canto distinto do céu, levavam consigo a luz e a escuridão, respectivamente. O rapaz entendia que sua vida não seria mais a mesma, que ele já não fazia mais parte do seu povo, e que ele teria de fazer uma escolha: optar por um astro e um caminho; a noite ou o dia; a luz ou as trevas.
O garoto acordou do sonho como se caísse n'uma nuvem, com uma macia sacudida. Levantou-se da grande e confortável cama, esfregou os olhos delicadamente e abriu as violáceas cortinas que escondiam a janela que parecia um fantástico quadro das verdes planícies maias. O sol começava a se levantar no horizonte e tinha uma coroa alaranjada que fazia os pássaros cantarem alegremente. Contudo ele vinha só, pois a lua ficara dormindo para aparecer horas mais tarde. Tudo estava em seu devido lugar, exceto seu coração.
A porta se abriu atrás dele, o príncipe entrou com um sorriso malicioso e afável. O jovem sentou-se na cama desarrumada e observou o forte rapaz que permanecia observando a paisagem.
- Dormistes bem? - Perguntou com um tom interessado.
- Foi como dormir no amor. - Disse o escravo perdido na tela azul que encarava.
- Dormir no amor? Que poético! - Exclamou a rir. - Vejo que tua nova residência já está a te alterar. - Falou levantando-se e pondo-se lado-a-lado com o jovem-homem.
- O amor é quente e macio. Assim como essa cama. - Jogou ao príncipe.
- Muitas coisas são quentes e macias.
- Mas o amor também é confuso.
- Confuso, que queres dizer? - Indagou o príncipe observando atentamente o rapaz.
- Nada, deixa estar... - Disfarçou enquanto saia da frente da janela e ia se arrumar.
- Tudo bem, apronte-te, tenho uma surpresa para ti, lembra-te? Não, não. Não precisa usar essas vestes, podes ir com o que estás acostumado, ficarás mais à vontade. - Disse enquanto saia do quarto. - Encontre-me dentro de um quarto de hora em meu aposento.

- Por favor, não deixes ninguém me interromper. Estarei muito ocupado, não quero ser atrapalhado, entendestes? - Ordenou o príncipe seriamente.
- Tudo bem... tudo bem... fiques tranquilo, ninguém interromper-te-á - Afirmou a velha senhora que sempre trabalhara para a família real.
- Obrigado. - Disse curvando-se e beijando a enrugada mão da dama.

Na hora marcada o jovem maia foi ao aposento do princípe, a senhora que prometera que não deixaria ninguém entrar estava guardando o quarto. O jovem ainda não a conhecia, ela tinha uma aparência rude e frágil. Sua pele parecia feita de papel amassado e seus cabelos eram d'um prateado reluzente. Tinha uma estatura baixa e ficava curvada como se estivesse prestes a cair. Seus olhos eram frios e opacos, aparentavam já terem sido de forte azul, mas hoje tinham a côr e a vida de uma pedra.
- Olá... eu vim... eu, o princípe disse pra eu vir aqui. - Disse vacilante o rapaz.
- Sim, podes entrar, ele te espera. - Respondeu sem olhar o rapaz nos olhos.
- Ah, sim, obrigado... - E entrou no quarto.
Ao entrar no quarto, o jovem se deparou com uma cena inesperada.
- Surpresa! - Disse o príncipe. - E bem-vindo à tua nova vida. Espero que tu gostes. Podes aproveitar, retirar-me-ei, depois retorno. - E retirou-se pelos fundos.
- Eu... mas... o quê?! - O garoto não sabia o que fazer.
No quarto do princípe encontravam-se diversas garotas seminuas, de todos os tipos, com muitos formatos, altas, baixas, magras, cheias, com a pele bronzeada, com a pele de cera, cabelos rubros, negros, louros, com forma de ampulheta, de triângulo. Para cada gosto. Elas eram lindas, ele nunca vira tantas garotas lindas, parando para pensar, ele só conhecera uma cristã, a menina com quem se apaixonou e nunca quis outra. Porém, vendo essas outras mulheres, viu como ela não era tão bela, seu cabelo não brilhava como o delas, seu corpo não tinha essas curvas, seu sorriso não era tão reluzente. Elas se aproximaram, ele hesitou.
O rapaz as queria, mas tinha medo, tinha receio. O desejo foi mais forte, ele cedeu. Elas tiraram suas vestes cuidadosamente, e cobriram seu corpo de quentes beijos. Ele retribuiu, ele as beijava, as agarrava, elas brincavam com ele e entre elas. O prazer tomava conta dele, ele não conseguia se controlar, elas o mordiam. Seu corpo pedia mais, elas pediam mais. Porém, ele parou, ele sentia o prazer, sentia a emoção, mas não sentia algo, faltava alguma coisa. Dentro dele tinha uma parte vazia, que ele nunca sentira tão oca antes. O que ele sentia era a presença da ausência dela. Ele precisava dela, ele finalmente notou o quanto a amava, ironicamente enquanto a traía. As garotas não davam trégua, mesmo quando ele tinha parado, já estava desinteressado, eles a afogavam de paixão, de lascívia.

- Olá... - disse a garota. - Eu estou procurando o... o... o "muso" do príncipe. - Falou sem jeito, olhando para o chão. - Tu saberias onde ele está?
- Não sei. Não está por aqui. - Respondeu a velha, sem olhar para a garota.
- Tem certeza? Disseram-me que o viram vindo para cá... não o vistes? - Insistiu a menina.
- Eu já disse que - A senhora olhou para a garota e ficou ainda mais pálida, nada disse, mas escancarou sua boca, quase caiu, parou, olhou-a novamente. - Você... você está com o rapaz que o princípe trouxe? - Indagou ainda espantada a madura mulher.
- Sim... por quê? - Respondeu sem entender.
- Bom... se esse é o caso... - A senhora tinha retomado sua postura. - Ele está no quarto do príncipe, acho que podes entrar. - Finalizou com um sorriso misterioso e perigoso.
- Ah, tudo bem, obrigada. - Agradeceu e abriu a porta do aposento.
Ao abrir a porta, não pôde acreditar no que viu. Foi embora como uma flecha, deixou um rastro de delicada água salgada. O jovem foi atrás dela, sabia que errara, mas também notou que a amava e sempre amou, queria fazer o certo dessa vez.

O garoto não precisou procurá-la muito, no topo da arrependida e decepcionada montanha a encontrou.
- Eu escolhi você. - Disse enquanto a abraçava e deixava-a chorar em seus braços.

domingo, 5 de dezembro de 2010

O escravo maia.

VII

O garoto-homem permaneceu mudo como o topo da montanha, como se estivessem se distanciando e suas mãos soltassem uma da outra. Um sexto de hora se passou até que o príncipe cortasse suavemente o silêncio.
- Venhas conhecer tua nova casa. - disse colocando sua mão sobre o ombro do rapaz. - Aposto que adorarás. - completou com um sorriso afável.


Chegando ao castelo do príncipe, duas coisas vieram-lhe à mente: primeiro, sentiu-se extremamente familiarizado com o lugar, embora nunca tivesse saído de seu vilarejo; segundo, não sentia nenhuma falta de sua antiga casa, mesmo sem conhecer a nova. Continuaram a caminhar, até poderem avistar o palácio real.
- É lindo! - disse o jovem admirado e entusiasmado. Seus olhos brilhavam e corriam por toda parte, a fim de não deixar um detalhe sequer escapar.
- Sim, é fabuloso. E é nosso. - disse o jovem rei desmontando de seu alazão.
O palácio, na verdade era um templo maia que fora tomada pelos cristãos. Era uma grande pirâmide escalonada, coroada por uma plataforma, suas paredes eram enfeitadas por belas pinturas que representavam a civilização maia e seus ritos sagrados. Por só conhecer as pobres residências de seu vilarejo, o garoto ficou encantado com o tempo. O príncipe, por outro lado, sabia que ele era rústico e temporário, não lhe agradava a ocupação de um prédio desses, mas seu pai dizia que não importava a beleza, e sim que tivesse uma boa localização para quando precisassem atacar.
O rapaz aproximou-se da entrada e ficou estático, boquiaberto diante do que via. Mal respirava para não acabar com o encanto do momento. O princípe abriu o portão de aço e chamou o jovem.
-Entres comigo, é ainda mais belo por dentro. - disse fazendo um sinal para que o acompanhasse.
O garoto não conseguia se mover. Não queria se mover. Só ficou observando o castelo.
-Vamos... - repetiu docemente o rei.
Um pé somente ousou se mexer. O jovem-homem sentia que, ao adentrar, estaria violando algo sagrado, mas sabia que só o sagrado merece ser tocado. Decidido seguiu o príncipe. Até que parou outra vez. Não cria em que via. Era um outro mundo dentro do castelo, um magnífico universo. A entrada dava para o corredor principal, que era decorado em ambas as paredes com pinturas religiosas e estátuas. No teto encontravam-se belos lustres brilhantes. Do corredor chegava ao salão principal, um salão enorme, com uma linda pintura de teto e lindas cortinas côr de vinho nos vitrais.
O garoto só pudera ver até aí, mas queria ver tudo, queria tudo. Tudo duma vez. Ele ficou inflamado, um sorriso infantil brotou em sua face e, movido pela criança dentro de si, começou a correr. O príncipe arregalou seus verdes olhos com a surpresa, porém começou a sorrir, a rir. E contagiado pelo garoto, foi atrás dele. Os dois corriam juntos, lado a lado, como se fossem dois animais selvagens brincando. Uma pantera e um antílope, essa era a impressão que passavam, um par tão ímpar. Os ocupantes do castelo ficaram sem palavras. Uns criticavam, outros fingiam que nada viram, alguns poucos tentavam pará-los, mas quem interrompeu o surto do rapaz foi uma linda moça. Conhecida jovem. Sua dama, que apresentava-se sublime. Não estava rebuscada como as outras meninas que ele vira no castelo, estava simples, seu cabelo de chocolate estava preso numa trança, seus olhos diamantinos brilhavam mais do que nunca, e seu sorriso fazia o coração do rapaz sorrir.
- Você está linda! - ele disse segurando suas mãos.
- Obrigada. - Agradeceu corando como de costume. - eu cheguei antes... e me aprontei para ti.
- Sim, estás muito formosa. - disse o príncipe curvando-se para ela. E voltando-se ao rapaz falou - e ti? Faça jus à sua amada, venha comigo. Arrumar-te-ei. - E entrou no quarto ao lado.
- Ah, sim, já vou. - Disse o garoto sem jeito. - Minha vez de... aprontar-me. - falou enquanto entrava no quarto e sorria para a menina.


- Amanhã te darei um presente, durma bem hoje, que teremos um dia agitado amanhã. - Disse o príncipe antes de sair do quarto do rapaz.
- Presente? Mas por quê?... tudo bem, não perguntarei, obrigado. - Respondeu o jovem aprontando-se para dormir. - Essa cama é tão diferente, é como deitar numa nuvem. - finalizou deitado.
- É como deitar numa nuvem, com certeza, e você é como um anjo. - O príncipe lhe disse antes de sair do quarto.
Um quarto de hora depois o garoto adormeceu. E com o sono veio um sonho. Nesse sonho ele estava no topo da distante montanha, sozinho, só ele e a lua. E o sol.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O escravo maia.


VI

-Mas... - o garoto deu as costas ao príncipe e, do topo da vacilante e confusa montanha, postado como uma estátua de bronze que nunca descansa, disse ainda imóvel:
-Mas eu preciso... pensar. Eu estou confuso.
-Tudo bem, - disse o príncipe com um tom compreensivo - todos ficamos confusos, às vezes. É um bom sinal. É sinal de que estamos pensando n'algo que não tinhamos pensado. - seus sensuais lábios rosas dobraram-se n'um sorriso belo e perigoso, como uma rosa protegida pelos espinhos. - amanhã encontre-me aqui no entardecer, para me dizer o que decidistes. Mas não te preocupes, não sou como meu pai, se não quiseres, compreenderei. - finalizou com um sorriso aconchegante.
-Ce-certo. Até amanhã, então. - o rapaz disse sentindo um misto de alívio e de medo, ainda sem olhar para o príncipe.
-Até amanhã. - despediu-se o novo rei, cavalgando lentamente embora.
A garota apressou-se e perguntou ao rapaz.
-O que achas? Confias nele? Eu não sei que penso! Que desejas? Aceitarás? - as maçãs de seu rosto estavam como verdadeiras maçãs: vermelhas e brilhantes.
-Não sei... eu estou confuso. - o jovem confessou deitando-se no chão frio.
A menina deitou-se ao seu lado e cobriu o jovem de amor.


-Eu não vou. - afirmou rispidamente a mãe do garoto, com os olhos afogados.
-Por que não? Ele não tem culpa pelo que o pai dele fez! Ele está me dando uma chance. E eu quero aceitá-la... vamos, mamãe, venha conosco. - o jovem homem suplicava, quase ajoelhado ao lado da mulher que tomava seu chá verde.
-Por favor... ele, digo, nós só queremos o seu bem, e achamos que você ficará melhor conosco. - sua nora também pedia, mais recatada e à distância.
-Você quer isso mesmo? Ele eu entendo, ele sempre quis isso, sempre quis "uma vida melhor", mas você quer isso? Ou você quer o que ele quer? - A moça sentada perguntou como se atacasse a jovem com agulhas.
-Eu... claro que eu quero! Será melhor que viver aqui. Se meus pais... - seus olhos umedeciam, sua boca tremulava, sua face corava - se meus pais ainda estivessem conosco, eu gostaria que todos fossemos viver lá, para sermos felizes juntos! - terminou entrando eu seu quarto e pondo-se a chorar.
-Viu o que você fez? Por que tem que ser tão cabeça dura? É o melhor pra nós, e é o que eu quero! Seu filho, por que não quer o melhor para seu filho?! - O garoto exclamava levantando-se impacientemente.
-Se achas que é o melhor para vós, podeis ir. Eu ficarei aqui, na casa que teu pai construira para nós. - disse a experiente mulher retirando-se da sala principal.



No dia seguinte o rapaz aguardava o príncipe no topo da ansiosa montanha. O sol já se preparava para se pôr. "Onde ele está? Não me diga que ele mudou de ideia! Não acredito, não acredito que desperdiçarei minha oportunidade como meu pai fez. Droga, não pode ser!" pensava o garoto, enquanto andava em círculos para curar seu nervosismo. Até que ouviu o som dos cascos do alasão batendo com o duro chão e, com um sorriso brilhante e inocente disse:
-Me decidi!
-Maravilhoso, que bom que resolveu assumir, foi mais sensato aguardar um pouco para aceitar mesmo. - Disse o príncipe, enquanto descia graciosamente do cavalo.
-Aguardar? O que quer dizer? - Disse o rapaz com uma cara de quem não sabe mentir.
-Tu sabes, quando os homens dizem que estão confusos, eles já se decidiram. Admito que não sabia se aceitaria ou não, mas sabia que já tinha se decidido. - O príncipe falou, aproximando-se do quase-homem.
-Você... você é bom, eu realmente já tinha decidido, mas não soaria bem aceitar assim. Então resolvi esperar... - confessou o menino olhando para seus pés, como se confessasse seus sentimentos a uma amada.
-Tudo bem, o importante é que aceitastes, o importante é que o nosso futuro é promissor! - e, ao dizer isso, enrolou seu braço no ombro do jovem, como uma jiboia prende sua presa. - despeça-te dessa montanha, pois amanhã eu te levarei à sua nova casa, e não a verá novamente tão cedo. - e montou em seu cavalo e partiu.
O garoto olhou para o horizonte, olhou para os céus, olhou para a montanha, olhou em sua volta. Seus olhos brilhavam, seu sorriso brilhava, seu futuro brilhava.
-Adeus, eu vou para outro topo agora, o topo do mundo, ver o que está lá esperando por mim. - despediu-se do topo da solitária e triste montanha.