VII
O garoto-homem permaneceu mudo como o topo da montanha, como se estivessem se distanciando e suas mãos soltassem uma da outra. Um sexto de hora se passou até que o príncipe cortasse suavemente o silêncio.
- Venhas conhecer tua nova casa. - disse colocando sua mão sobre o ombro do rapaz. - Aposto que adorarás. - completou com um sorriso afável.
Chegando ao castelo do príncipe, duas coisas vieram-lhe à mente: primeiro, sentiu-se extremamente familiarizado com o lugar, embora nunca tivesse saído de seu vilarejo; segundo, não sentia nenhuma falta de sua antiga casa, mesmo sem conhecer a nova. Continuaram a caminhar, até poderem avistar o palácio real.
- É lindo! - disse o jovem admirado e entusiasmado. Seus olhos brilhavam e corriam por toda parte, a fim de não deixar um detalhe sequer escapar.
- Sim, é fabuloso. E é nosso. - disse o jovem rei desmontando de seu alazão.
O palácio, na verdade era um templo maia que fora tomada pelos cristãos. Era uma grande pirâmide escalonada, coroada por uma plataforma, suas paredes eram enfeitadas por belas pinturas que representavam a civilização maia e seus ritos sagrados. Por só conhecer as pobres residências de seu vilarejo, o garoto ficou encantado com o tempo. O príncipe, por outro lado, sabia que ele era rústico e temporário, não lhe agradava a ocupação de um prédio desses, mas seu pai dizia que não importava a beleza, e sim que tivesse uma boa localização para quando precisassem atacar.
O rapaz aproximou-se da entrada e ficou estático, boquiaberto diante do que via. Mal respirava para não acabar com o encanto do momento. O princípe abriu o portão de aço e chamou o jovem.
-Entres comigo, é ainda mais belo por dentro. - disse fazendo um sinal para que o acompanhasse.
O garoto não conseguia se mover. Não queria se mover. Só ficou observando o castelo.
-Vamos... - repetiu docemente o rei.
Um pé somente ousou se mexer. O jovem-homem sentia que, ao adentrar, estaria violando algo sagrado, mas sabia que só o sagrado merece ser tocado. Decidido seguiu o príncipe. Até que parou outra vez. Não cria em que via. Era um outro mundo dentro do castelo, um magnífico universo. A entrada dava para o corredor principal, que era decorado em ambas as paredes com pinturas religiosas e estátuas. No teto encontravam-se belos lustres brilhantes. Do corredor chegava ao salão principal, um salão enorme, com uma linda pintura de teto e lindas cortinas côr de vinho nos vitrais.
O garoto só pudera ver até aí, mas queria ver tudo, queria tudo. Tudo duma vez. Ele ficou inflamado, um sorriso infantil brotou em sua face e, movido pela criança dentro de si, começou a correr. O príncipe arregalou seus verdes olhos com a surpresa, porém começou a sorrir, a rir. E contagiado pelo garoto, foi atrás dele. Os dois corriam juntos, lado a lado, como se fossem dois animais selvagens brincando. Uma pantera e um antílope, essa era a impressão que passavam, um par tão ímpar. Os ocupantes do castelo ficaram sem palavras. Uns criticavam, outros fingiam que nada viram, alguns poucos tentavam pará-los, mas quem interrompeu o surto do rapaz foi uma linda moça. Conhecida jovem. Sua dama, que apresentava-se sublime. Não estava rebuscada como as outras meninas que ele vira no castelo, estava simples, seu cabelo de chocolate estava preso numa trança, seus olhos diamantinos brilhavam mais do que nunca, e seu sorriso fazia o coração do rapaz sorrir.
- Você está linda! - ele disse segurando suas mãos.
- Obrigada. - Agradeceu corando como de costume. - eu cheguei antes... e me aprontei para ti.
- Sim, estás muito formosa. - disse o príncipe curvando-se para ela. E voltando-se ao rapaz falou - e ti? Faça jus à sua amada, venha comigo. Arrumar-te-ei. - E entrou no quarto ao lado.
- Ah, sim, já vou. - Disse o garoto sem jeito. - Minha vez de... aprontar-me. - falou enquanto entrava no quarto e sorria para a menina.
- Amanhã te darei um presente, durma bem hoje, que teremos um dia agitado amanhã. - Disse o príncipe antes de sair do quarto do rapaz.
- Presente? Mas por quê?... tudo bem, não perguntarei, obrigado. - Respondeu o jovem aprontando-se para dormir. - Essa cama é tão diferente, é como deitar numa nuvem. - finalizou deitado.
- É como deitar numa nuvem, com certeza, e você é como um anjo. - O príncipe lhe disse antes de sair do quarto.
Um quarto de hora depois o garoto adormeceu. E com o sono veio um sonho. Nesse sonho ele estava no topo da distante montanha, sozinho, só ele e a lua. E o sol.
Nenhum comentário:
Postar um comentário