sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O escravo maia.

IX

-No topo dessa montanha que eu conheci a felicidade! Foi aqui que eu encontrei alguém que não me considerava diferente por ser cristã. Nesse lugar eu achei você para me proteger e me amar. Sem ti não sou mais nada, sou aquela garota indefesa. Tu que me fazia, não, faz forte. O meu sorriso era um disfarce para a dor, mas, desde aquele dia, eu já não me escondo e, se pareço feliz, é porque sou! Mas tu não sentes o mesmo, tu me trocastes, me traístes, acabastes com tudo!
-...eu te amo.
-Não! Não amas! Não mintas...
-Eu só fiz aquilo porque o príncipe... foi ideia dele, eu não podia recusar, ele mudou nossas vidas, devemos a ele... não poderia ser ingrato, não podia recusar. Eu te amo.
-Eu também te amo... mas... nunca mais faças isso.
-Nunca mais.
E ela abraçou o peito do rapaz. Assim deixaram de ser mais que um casal e tornaram-se um casal a mais.

A vida dos dois, então, passou a ser muito simples, monótona e trivial. O rapaz servia de modelo para o príncipe, como haviam combinado. Era inspiração para quadros e esculturas, sonetos e serenatas, esporadicamente saiam juntos para explorar o desconhecido reino ou caçar algum animal exótico que o jovem monarca desejava. A garota, na maioria das vezes, preferia ficar no castelo, as outras moradoras simpatizaram com ela e seu jeito semi-angelical. Sempre podíamos vê-la aprendendo como ser uma boa esposa e mão, embora ela não soubesse se o garoto pretendia casar ou ter filhos. Assim como o jovem escravo, a menina passava muito tempo com alguém importante do castelo, que ensinava-lhe muito da vida real: a velha de papel amassado. Ela sempre com a garota de olhos de céu - olhos que elogiava a todo momento. A anciã cuidava da menina como se fosse sua própria filha, embora todos soubessem que ela nunca teve um amado e sempre dedicou sua vida à família real. Ela era a tutora da mãe do príncipe e desde que ela morrera nunca mais foi feliz, até encontrar a doce menina.
Naturalmente o casal passava muito tempo junto, não falavam tanto quanto antes, mas isso devia ser uma consequência de estar há tanto tempo com alguém. A garota passou a sorri menos, não se sabe se foi uma dica de etiqueta que recebera, ou se deixara de ser feliz. Embora a segunda opção pareça incabível, tendo em mente que morava n'um belo palácio, tinha um perfeito amado que a amava de volta, era rica, todas a invejavam e tantas outras alegrias que sua nova vida proporcionou. O garoto também aquietara-se, já não falava que seria dono do mundo, que chegaria ao topo, sua ambição esfriou, imagina-se que já havia conquistado muito. E assim o tempo passou.

O tempo passou assim, sem grandes acontecimentos. O garoto saía com o príncipe sempre que necessário, acabou descobrindo que sua função não era exclusivamente a de inspiração, como fora prometido. Muitas vezes ele tinha de ir com o príncipe e alguns guardas reais para "ampliar o reino", subjugando vilarejos e povoados de pagãos e para "proteger a coroa", executando príncipes e duques inimigos. Mesmo não sendo o acordado, o garoto não reclamava do serviço, pois secretamente apreciava toda essa ação, todo o calor da batalha, o sangue correndo.
N'uma das caminhadas que ele e o jovem príncipe faziam simplesmente para apreciar a natureza, foram pegos n'uma emboscada. Um zumbido voou em direção do príncipe, mas o jovem bronzeado interveio.
-Ahh! - O garoto fora atingido por uma flecha que vinha de dentro das árvores. - Quem está aí?! - Interrogou o jovem enquanto puxava sua lança e preparava-se para a batalha.
Um borrão saltou da mata para atacar a dupla. O garoto, com um movimento maestril, interrompeu a investida e derrubou o atacante. No chão encontrava-se um jovem que aparentava ter a mesma idade do guarda-muso, entretanto essa e a origem eram as únicas semelhanças que poderiam ser identificadas. Ao contrário do jovem de pé, o caído era baixo e levemente roliço, tinha um olhar leviano mas uma expressão irada. Em seu peito nu podia ser vista uma tatuagem, um emblema da união do sol com a lua.
-Quem é você?! O que quer aqui? - O garoto exclamou estancando com sua capa a ferida que fora aberta pelo projétil. - Anda, responde.
-Será que não me reconhece? - Disse o rapaz que estava no chão, enquanto exibia uma cicatriz que carregava em seu braço direito. -Quando eu era mais novo, um leopardo me atacou e fez essa marca que você vê, felizmente o ferimento não foi mais grave, pois um bravo guerreiro me salvou. Você é diferente do seu pai... você é um traidor!
-Eu não sou meu pai! -Urrou o garoto enquanto fincava sua lança no braço esquerdo do rapaz caído. -Mas se insiste... - e seus olhos começavam a perder o juízo. - ...se insiste, farei como meu pai! - E rasgou o braço do rapaz simulando a cicatriz que ele tinha no outro braço. -Agora estamos quites! - E riu dementemente.
-O que é isso?! - Disse o príncipe. -Pare, por favor, já me salvastes, não é necessária tamanha violência. - E afastou o rapaz de sua vítima. -Vamos embora, por favor, não faças mais isso.
-Vamos... - o jovem-menino desabafou, voltando a si. -Vamos embora, não farei mais isso... perdoe-me.
E deixaram o garoto caído sobre seu sangue e vergonha, para nunca mais vê-lo.

Desde esse dia o rapaz ficou ainda mais quieto, sempre calado, apenas seguia as ordens do príncipe, ficava com a garota e fitava a lua antes de dormir. Até que, cerca de dois anos depois, teve a notícia que sua mãe estava muito doente e, se não tratasse sua enfermidade.
-Vamos, mamãe, você precisa curar sua doença, precisa melhorar, não seja cabeça-dura! - Ele dizia a ela.
-Por favor... é o melhor para ti, podem te ajudar no palácio, venhas conosco. - Concordava sua amada.
-Não, esse é o meu lugar, é aqui que eu quero passar o resto de minha vida, sejam anos ou dias, eu não sairei mais daqui. Já lhes disse um milhão de vezes, e um milhão de vezes digo mais, agora deixem de insistência. - Pediu com o resto das forças que tinha. Estava decidida e ninguém a faria mudar de ideia.
Alguns dias depois sua mãe faleceu. O garoto não derrubou uma lágrima sequer, no dia do funeral apenas disse "Ela pediu isso". E deixou o escudo de seu pai em sua cova.
-Não fique triste. Eu mal conheci minha mãe, só sei que ela foi uma mulher incrível e bela, sempre me disseram que ela tinha olhos de diamantes inigualáveis, sempre quis a conhecer... mas ela faleceu ao me dar a luz. Acho que o amor materno é isso, eu gostaria de ter a conhecido, porém sei que ela me amou mais do que tudo. Não fiques triste. - Revelou o príncipe ao garoto, sob a chuva fúnebre.

Um ano depois o casal concordou em ter um casamento cristão. Foi apenas uma pequena celebração, com alguns poucos convidados. O príncipe, a velha de papel, alguns amigos de caça do garoto, algumas amigas da garota. O rapaz vestia um traje formal, diferente do que estava acostumado, preto e sem adornos, pois preferia assim. A garota vestia um lindo vestido branco, com cristais em forma de flôr, que formavam uma alça de um lado; uma comprida saia trabalhada em seda e rendas vazadas por cima da saia; um véu branco com uma guirlanda de cristais. Ela estava estonteante, seu vestido era estonteante, seu sorriso era perfeito, eles formavam um casal tão ímpar e um par tão casado.
-Aceito- disse a garota.
-Aceito- disse o rapaz.
A garota jogou seu bouquet de jasmins, rosas vermelhas e brancas para o céu, eles estavam unidos, e o bouquet voava pelo céu da montanha feliz e festejante.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O escravo maia.

VIII

Ele. A lua. O sol. No topo da lúdica montanha.
O garoto lembrava que um dia seu pai explicara o significado da lua e do sol que estavam sempre presentes nos trajes e armas do exército do vilarejo. Por serem símbolos antagónicos representavam o equilíbrio que todo guerreiro devia ter. "A força do sol e a sabedoria da lua", dizia ele. Pois nem sempre a força é a solução correta, e nem sempre podemos resolver nossos problemas sem violência. Afinal o sol sempre se deita e a lua uma hora se apaga. É assim a nossa vida toda, sempre em ciclos. "Ninguém é sempre sol ou lua.". Era o que recordava.
Nada mais se via no topo da sonífera montanha. Somente o menino e a lua-sol entrelaçada como os brasões dos bravos soldados. Porém, de repente, o emblema começou a se desfazer, a lua e o sol se afastaram, repeliram-se. O jovem assistia ao espetáculo como um ávido espectador, não se movia e mal respirava, suas pálpebras estavam abertas como um botão de rosa que nasce no luar. Enquanto o sol e a lua lentamente caminhavam para um canto distinto do céu, levavam consigo a luz e a escuridão, respectivamente. O rapaz entendia que sua vida não seria mais a mesma, que ele já não fazia mais parte do seu povo, e que ele teria de fazer uma escolha: optar por um astro e um caminho; a noite ou o dia; a luz ou as trevas.
O garoto acordou do sonho como se caísse n'uma nuvem, com uma macia sacudida. Levantou-se da grande e confortável cama, esfregou os olhos delicadamente e abriu as violáceas cortinas que escondiam a janela que parecia um fantástico quadro das verdes planícies maias. O sol começava a se levantar no horizonte e tinha uma coroa alaranjada que fazia os pássaros cantarem alegremente. Contudo ele vinha só, pois a lua ficara dormindo para aparecer horas mais tarde. Tudo estava em seu devido lugar, exceto seu coração.
A porta se abriu atrás dele, o príncipe entrou com um sorriso malicioso e afável. O jovem sentou-se na cama desarrumada e observou o forte rapaz que permanecia observando a paisagem.
- Dormistes bem? - Perguntou com um tom interessado.
- Foi como dormir no amor. - Disse o escravo perdido na tela azul que encarava.
- Dormir no amor? Que poético! - Exclamou a rir. - Vejo que tua nova residência já está a te alterar. - Falou levantando-se e pondo-se lado-a-lado com o jovem-homem.
- O amor é quente e macio. Assim como essa cama. - Jogou ao príncipe.
- Muitas coisas são quentes e macias.
- Mas o amor também é confuso.
- Confuso, que queres dizer? - Indagou o príncipe observando atentamente o rapaz.
- Nada, deixa estar... - Disfarçou enquanto saia da frente da janela e ia se arrumar.
- Tudo bem, apronte-te, tenho uma surpresa para ti, lembra-te? Não, não. Não precisa usar essas vestes, podes ir com o que estás acostumado, ficarás mais à vontade. - Disse enquanto saia do quarto. - Encontre-me dentro de um quarto de hora em meu aposento.

- Por favor, não deixes ninguém me interromper. Estarei muito ocupado, não quero ser atrapalhado, entendestes? - Ordenou o príncipe seriamente.
- Tudo bem... tudo bem... fiques tranquilo, ninguém interromper-te-á - Afirmou a velha senhora que sempre trabalhara para a família real.
- Obrigado. - Disse curvando-se e beijando a enrugada mão da dama.

Na hora marcada o jovem maia foi ao aposento do princípe, a senhora que prometera que não deixaria ninguém entrar estava guardando o quarto. O jovem ainda não a conhecia, ela tinha uma aparência rude e frágil. Sua pele parecia feita de papel amassado e seus cabelos eram d'um prateado reluzente. Tinha uma estatura baixa e ficava curvada como se estivesse prestes a cair. Seus olhos eram frios e opacos, aparentavam já terem sido de forte azul, mas hoje tinham a côr e a vida de uma pedra.
- Olá... eu vim... eu, o princípe disse pra eu vir aqui. - Disse vacilante o rapaz.
- Sim, podes entrar, ele te espera. - Respondeu sem olhar o rapaz nos olhos.
- Ah, sim, obrigado... - E entrou no quarto.
Ao entrar no quarto, o jovem se deparou com uma cena inesperada.
- Surpresa! - Disse o príncipe. - E bem-vindo à tua nova vida. Espero que tu gostes. Podes aproveitar, retirar-me-ei, depois retorno. - E retirou-se pelos fundos.
- Eu... mas... o quê?! - O garoto não sabia o que fazer.
No quarto do princípe encontravam-se diversas garotas seminuas, de todos os tipos, com muitos formatos, altas, baixas, magras, cheias, com a pele bronzeada, com a pele de cera, cabelos rubros, negros, louros, com forma de ampulheta, de triângulo. Para cada gosto. Elas eram lindas, ele nunca vira tantas garotas lindas, parando para pensar, ele só conhecera uma cristã, a menina com quem se apaixonou e nunca quis outra. Porém, vendo essas outras mulheres, viu como ela não era tão bela, seu cabelo não brilhava como o delas, seu corpo não tinha essas curvas, seu sorriso não era tão reluzente. Elas se aproximaram, ele hesitou.
O rapaz as queria, mas tinha medo, tinha receio. O desejo foi mais forte, ele cedeu. Elas tiraram suas vestes cuidadosamente, e cobriram seu corpo de quentes beijos. Ele retribuiu, ele as beijava, as agarrava, elas brincavam com ele e entre elas. O prazer tomava conta dele, ele não conseguia se controlar, elas o mordiam. Seu corpo pedia mais, elas pediam mais. Porém, ele parou, ele sentia o prazer, sentia a emoção, mas não sentia algo, faltava alguma coisa. Dentro dele tinha uma parte vazia, que ele nunca sentira tão oca antes. O que ele sentia era a presença da ausência dela. Ele precisava dela, ele finalmente notou o quanto a amava, ironicamente enquanto a traía. As garotas não davam trégua, mesmo quando ele tinha parado, já estava desinteressado, eles a afogavam de paixão, de lascívia.

- Olá... - disse a garota. - Eu estou procurando o... o... o "muso" do príncipe. - Falou sem jeito, olhando para o chão. - Tu saberias onde ele está?
- Não sei. Não está por aqui. - Respondeu a velha, sem olhar para a garota.
- Tem certeza? Disseram-me que o viram vindo para cá... não o vistes? - Insistiu a menina.
- Eu já disse que - A senhora olhou para a garota e ficou ainda mais pálida, nada disse, mas escancarou sua boca, quase caiu, parou, olhou-a novamente. - Você... você está com o rapaz que o princípe trouxe? - Indagou ainda espantada a madura mulher.
- Sim... por quê? - Respondeu sem entender.
- Bom... se esse é o caso... - A senhora tinha retomado sua postura. - Ele está no quarto do príncipe, acho que podes entrar. - Finalizou com um sorriso misterioso e perigoso.
- Ah, tudo bem, obrigada. - Agradeceu e abriu a porta do aposento.
Ao abrir a porta, não pôde acreditar no que viu. Foi embora como uma flecha, deixou um rastro de delicada água salgada. O jovem foi atrás dela, sabia que errara, mas também notou que a amava e sempre amou, queria fazer o certo dessa vez.

O garoto não precisou procurá-la muito, no topo da arrependida e decepcionada montanha a encontrou.
- Eu escolhi você. - Disse enquanto a abraçava e deixava-a chorar em seus braços.

domingo, 5 de dezembro de 2010

O escravo maia.

VII

O garoto-homem permaneceu mudo como o topo da montanha, como se estivessem se distanciando e suas mãos soltassem uma da outra. Um sexto de hora se passou até que o príncipe cortasse suavemente o silêncio.
- Venhas conhecer tua nova casa. - disse colocando sua mão sobre o ombro do rapaz. - Aposto que adorarás. - completou com um sorriso afável.


Chegando ao castelo do príncipe, duas coisas vieram-lhe à mente: primeiro, sentiu-se extremamente familiarizado com o lugar, embora nunca tivesse saído de seu vilarejo; segundo, não sentia nenhuma falta de sua antiga casa, mesmo sem conhecer a nova. Continuaram a caminhar, até poderem avistar o palácio real.
- É lindo! - disse o jovem admirado e entusiasmado. Seus olhos brilhavam e corriam por toda parte, a fim de não deixar um detalhe sequer escapar.
- Sim, é fabuloso. E é nosso. - disse o jovem rei desmontando de seu alazão.
O palácio, na verdade era um templo maia que fora tomada pelos cristãos. Era uma grande pirâmide escalonada, coroada por uma plataforma, suas paredes eram enfeitadas por belas pinturas que representavam a civilização maia e seus ritos sagrados. Por só conhecer as pobres residências de seu vilarejo, o garoto ficou encantado com o tempo. O príncipe, por outro lado, sabia que ele era rústico e temporário, não lhe agradava a ocupação de um prédio desses, mas seu pai dizia que não importava a beleza, e sim que tivesse uma boa localização para quando precisassem atacar.
O rapaz aproximou-se da entrada e ficou estático, boquiaberto diante do que via. Mal respirava para não acabar com o encanto do momento. O princípe abriu o portão de aço e chamou o jovem.
-Entres comigo, é ainda mais belo por dentro. - disse fazendo um sinal para que o acompanhasse.
O garoto não conseguia se mover. Não queria se mover. Só ficou observando o castelo.
-Vamos... - repetiu docemente o rei.
Um pé somente ousou se mexer. O jovem-homem sentia que, ao adentrar, estaria violando algo sagrado, mas sabia que só o sagrado merece ser tocado. Decidido seguiu o príncipe. Até que parou outra vez. Não cria em que via. Era um outro mundo dentro do castelo, um magnífico universo. A entrada dava para o corredor principal, que era decorado em ambas as paredes com pinturas religiosas e estátuas. No teto encontravam-se belos lustres brilhantes. Do corredor chegava ao salão principal, um salão enorme, com uma linda pintura de teto e lindas cortinas côr de vinho nos vitrais.
O garoto só pudera ver até aí, mas queria ver tudo, queria tudo. Tudo duma vez. Ele ficou inflamado, um sorriso infantil brotou em sua face e, movido pela criança dentro de si, começou a correr. O príncipe arregalou seus verdes olhos com a surpresa, porém começou a sorrir, a rir. E contagiado pelo garoto, foi atrás dele. Os dois corriam juntos, lado a lado, como se fossem dois animais selvagens brincando. Uma pantera e um antílope, essa era a impressão que passavam, um par tão ímpar. Os ocupantes do castelo ficaram sem palavras. Uns criticavam, outros fingiam que nada viram, alguns poucos tentavam pará-los, mas quem interrompeu o surto do rapaz foi uma linda moça. Conhecida jovem. Sua dama, que apresentava-se sublime. Não estava rebuscada como as outras meninas que ele vira no castelo, estava simples, seu cabelo de chocolate estava preso numa trança, seus olhos diamantinos brilhavam mais do que nunca, e seu sorriso fazia o coração do rapaz sorrir.
- Você está linda! - ele disse segurando suas mãos.
- Obrigada. - Agradeceu corando como de costume. - eu cheguei antes... e me aprontei para ti.
- Sim, estás muito formosa. - disse o príncipe curvando-se para ela. E voltando-se ao rapaz falou - e ti? Faça jus à sua amada, venha comigo. Arrumar-te-ei. - E entrou no quarto ao lado.
- Ah, sim, já vou. - Disse o garoto sem jeito. - Minha vez de... aprontar-me. - falou enquanto entrava no quarto e sorria para a menina.


- Amanhã te darei um presente, durma bem hoje, que teremos um dia agitado amanhã. - Disse o príncipe antes de sair do quarto do rapaz.
- Presente? Mas por quê?... tudo bem, não perguntarei, obrigado. - Respondeu o jovem aprontando-se para dormir. - Essa cama é tão diferente, é como deitar numa nuvem. - finalizou deitado.
- É como deitar numa nuvem, com certeza, e você é como um anjo. - O príncipe lhe disse antes de sair do quarto.
Um quarto de hora depois o garoto adormeceu. E com o sono veio um sonho. Nesse sonho ele estava no topo da distante montanha, sozinho, só ele e a lua. E o sol.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O escravo maia.


VI

-Mas... - o garoto deu as costas ao príncipe e, do topo da vacilante e confusa montanha, postado como uma estátua de bronze que nunca descansa, disse ainda imóvel:
-Mas eu preciso... pensar. Eu estou confuso.
-Tudo bem, - disse o príncipe com um tom compreensivo - todos ficamos confusos, às vezes. É um bom sinal. É sinal de que estamos pensando n'algo que não tinhamos pensado. - seus sensuais lábios rosas dobraram-se n'um sorriso belo e perigoso, como uma rosa protegida pelos espinhos. - amanhã encontre-me aqui no entardecer, para me dizer o que decidistes. Mas não te preocupes, não sou como meu pai, se não quiseres, compreenderei. - finalizou com um sorriso aconchegante.
-Ce-certo. Até amanhã, então. - o rapaz disse sentindo um misto de alívio e de medo, ainda sem olhar para o príncipe.
-Até amanhã. - despediu-se o novo rei, cavalgando lentamente embora.
A garota apressou-se e perguntou ao rapaz.
-O que achas? Confias nele? Eu não sei que penso! Que desejas? Aceitarás? - as maçãs de seu rosto estavam como verdadeiras maçãs: vermelhas e brilhantes.
-Não sei... eu estou confuso. - o jovem confessou deitando-se no chão frio.
A menina deitou-se ao seu lado e cobriu o jovem de amor.


-Eu não vou. - afirmou rispidamente a mãe do garoto, com os olhos afogados.
-Por que não? Ele não tem culpa pelo que o pai dele fez! Ele está me dando uma chance. E eu quero aceitá-la... vamos, mamãe, venha conosco. - o jovem homem suplicava, quase ajoelhado ao lado da mulher que tomava seu chá verde.
-Por favor... ele, digo, nós só queremos o seu bem, e achamos que você ficará melhor conosco. - sua nora também pedia, mais recatada e à distância.
-Você quer isso mesmo? Ele eu entendo, ele sempre quis isso, sempre quis "uma vida melhor", mas você quer isso? Ou você quer o que ele quer? - A moça sentada perguntou como se atacasse a jovem com agulhas.
-Eu... claro que eu quero! Será melhor que viver aqui. Se meus pais... - seus olhos umedeciam, sua boca tremulava, sua face corava - se meus pais ainda estivessem conosco, eu gostaria que todos fossemos viver lá, para sermos felizes juntos! - terminou entrando eu seu quarto e pondo-se a chorar.
-Viu o que você fez? Por que tem que ser tão cabeça dura? É o melhor pra nós, e é o que eu quero! Seu filho, por que não quer o melhor para seu filho?! - O garoto exclamava levantando-se impacientemente.
-Se achas que é o melhor para vós, podeis ir. Eu ficarei aqui, na casa que teu pai construira para nós. - disse a experiente mulher retirando-se da sala principal.



No dia seguinte o rapaz aguardava o príncipe no topo da ansiosa montanha. O sol já se preparava para se pôr. "Onde ele está? Não me diga que ele mudou de ideia! Não acredito, não acredito que desperdiçarei minha oportunidade como meu pai fez. Droga, não pode ser!" pensava o garoto, enquanto andava em círculos para curar seu nervosismo. Até que ouviu o som dos cascos do alasão batendo com o duro chão e, com um sorriso brilhante e inocente disse:
-Me decidi!
-Maravilhoso, que bom que resolveu assumir, foi mais sensato aguardar um pouco para aceitar mesmo. - Disse o príncipe, enquanto descia graciosamente do cavalo.
-Aguardar? O que quer dizer? - Disse o rapaz com uma cara de quem não sabe mentir.
-Tu sabes, quando os homens dizem que estão confusos, eles já se decidiram. Admito que não sabia se aceitaria ou não, mas sabia que já tinha se decidido. - O príncipe falou, aproximando-se do quase-homem.
-Você... você é bom, eu realmente já tinha decidido, mas não soaria bem aceitar assim. Então resolvi esperar... - confessou o menino olhando para seus pés, como se confessasse seus sentimentos a uma amada.
-Tudo bem, o importante é que aceitastes, o importante é que o nosso futuro é promissor! - e, ao dizer isso, enrolou seu braço no ombro do jovem, como uma jiboia prende sua presa. - despeça-te dessa montanha, pois amanhã eu te levarei à sua nova casa, e não a verá novamente tão cedo. - e montou em seu cavalo e partiu.
O garoto olhou para o horizonte, olhou para os céus, olhou para a montanha, olhou em sua volta. Seus olhos brilhavam, seu sorriso brilhava, seu futuro brilhava.
-Adeus, eu vou para outro topo agora, o topo do mundo, ver o que está lá esperando por mim. - despediu-se do topo da solitária e triste montanha.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

domingo, 28 de novembro de 2010

O escravo maia.


V


O casal olhou para trás, no topo da surpresa montanha, ao ouvir a voz desconhecida. O que os dois encontraram foi um lindo jovem montado num nobre alazão. O cavalo tinha uma tonalidade brilhante, possuindo uma profunda cor ouro-avermelhada, sua crina e cauda eram de um castanho quase palha. Tinha algumas pintas castanhas e seu corpo era coberto por uma cela malva com detalhes em dourado. Seu rosto estava protegido por uma proteção prata e tinha um ar de imponência e excitação. O homem montado nele era ainda mais belo, e juntos faziam uma combinação fabulosa. Seus dourados e compridos cabelos, que tombavam por cima de seus largos ombros, eram mais brilhantes e macios que a crina do animal. Seu sorriso era agridoce e misterioso; mistério, esse, que acompanhava o olhar decidido e leviano do jovem. Seu rosto tinha um formato ligeiramente pontiagudo; e sua pele era branca e delicada como algodão, suas finas sobrancelhas davam ao seu rosto uma feição sedutora e perigosa. O rapaz era alto e lânguido, seu corpo estava coberto por um vestido brilhante em tons de vermelho e verde, com a saia abrindo volumosa pelos lados. Usava uma calça branca curta e sapatos negros cor-de-carvão. A pose que fazia montado no eqüino era digna de um rei, e sua aura era intensa. Ele sorria e se aproximava cada vez mais dos dois jovens, até que parou a alguns metros e desceu do cavalo com a graça de um beija-flôr que paira no ar. Caminhou lentamente rumando o casal, como se bailasse para o sol que preparava-se para dormir. Pé ante pé ele ia até os jovens, seu olhar estava fixo no jovem escravo que permanecia sentado, observando o misterioso rapaz. Quando ficou frente a frente com os dois, seu sorriso abriu-se como a cauda dum pavão, seus dentes brilharam assim como seus olhos esmeraldinos. Num gesto de respeito curvou-se e sobre um joelho, estendeu sua mão ao bronzeado rapaz que até então nada entendia.
- O filho do famoso general, é uma honra conhecer-te. - Disse, então, com os olhos voltados ao chão.
- O quê... o que você faz aqui!? - Indagou o garoto confuso.
- Bom, eu estou te procurando há quase uma semana, já faz algum tempo que observo-te, tens chamado minha atenção. - Respondeu com um sorriso cítrico.
- Eu?! O que eu fiz para chamar a atenção do príncipe?! - Cuspi duma vez o garoto levantando-se.
- Acalma-te. Eu só quero te fazer uma proposta. Quero que trabalhes para mim. - Disse o belo príncipe com uma voz dócil.
- Trabalhar para você? Agora entendo tudo, como as notícias correm rápido por aqui. Pena que chegaram erradas até ti, príncipe, eu fui sim convidado para ser o novo general de nossas forças, mas eu recusei. Sinto lhe informar, mas terá de procurar outro. - Desabafou com um tom ríspido, atacando o jovem à sua frente.
- Perdoe-me, não fui muito claro. Admito que soube da proposta que recebera, porém acredito que já tenhas ouvido que não sou entusiasta das armas, que prefiro a arte. E, se já chegou a teus ouvidos essa informação, saibas que é inteiramente verídica, por isso digo que não te quero para o batalhão da realeza. Não, não, o exército pode esperar, quem se importa com isso? Desde que me lembro, vencemos suas "forças" sem um pingo de suor, não é necessário se empenhar tanto com isso. Mas se veres como está o meu castelo! Ai, Deus! O castelo do senhor de todo esse lugar, o lar da família real, tão empobrecido, sem uma estátua sequer, sem brilho, sem cor, sem romance, sem quadros! Já não era hora do retrógrado do meu pai se aposentar, era só de guerra que ele queria saber, de vencer, conquistar, dominar. Dominar o quê? Se não podemos desfrutar das belezas dessa terras? Se não podemos nos abestar com os tesouros que descobrimos? Com efeito, agora que ele se foi, terei de reformular tudo, moldar ao meu bel-prazer. Preciso dar vida àquele lugar, preciso de um modelo para minhas esculturas, de uma musa para meus quadros, e é por isso que eu venho aqui, pessoalmente, convidar-te para ser meu modelo, convidar-te para ser minha obra-prima! - E, ao terminar, ajoelhou-se e segurou com força as mãos do jovem maia, olhou em seus olhos, o brilho que podia ser visto neles era sincero e inocente.
- Você quer que eu vá para à terra dos cristãos servir-te de modelo? Quer que eu seja só um corpo que você descartará quando eu tiver murchado? Quer apenas usar minha beleza que logo se acaba? É isso? - Disse o jovem, enfurecido.
- Não coloque dessa maneira, tua beleza também vem do interior, observo-te há algum tempo, vejo como batalhas para ser o melhor, para chegar ao topo, pense em ti também. Ninguém está acima da família real, e tu estarás com ela. Que dize-me? Aceitas? Ou darás a mesma resposta que teu pai deu ao meu? Não sejas tolo! Sabes que é o que nós dois queremos, venha comigo! - O príncipe exclamou subindo novamente no cavalo que aguardava tranquilamente e estendendo a mão ao garoto.
O jovem olhou para sua amada que, até então, nada dissera, ela tinha medo no olhar, estava confusa, embora não tivesse presenciado a primeira cena, não gostaria de ver uma repetição de fatos. Se ele recusasse, corria o risco de ter o mesmo fim que seu pai. Ela se levantou e abraçou forte sua cintura, como costumava fazer. Ele olhou para o rapaz que aguardava uma resposta. Os três se entreolhavam no topo da confusa e perigosa montanha.
- Sua proposta é tentadora... - disse o rapaz friamente - mas...


quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O escravo maia.

IV

Dois anos mais tarde, encontramos, como de costume, o garoto - agora quase um homem - no topo da segura e isolada montanha. Entretanto, ao contrário do que estamos habituados, ele raramente é encontrado lá. Somente dirige-se ao seu forte quando necessita de paz, de si mesmo. Lá embaixo, no vilarejo, ocorria uma festa que se estendia pelos últimos seis dias. A população celebrava a morte do opressor rei. E tinha esperança de que, com a tomada do primogênito do falecido monarca, conhecido pela natureza dócil e amistosa, a vida dos pagãos melhorasse.
Já o rapaz-homem não estava certo do que sentia. Uma parte dele estava feliz com a morte do responsável pelo
assasínio de seu pai. Outra decepcionada por não ter sido ele o vingador da honra de sua família. E uma terceira parte triste pelo fim daquele que deu uma oportunidade de uma nova vida ao seu pai, que tolamente
recusou e acabou sem vida nova ou velha. Mas esperança de mudança não estava presente no seu coração. "O mundo não muda, só os rostos." ele costumava dizer e, por isso, julgava que se ele quisesse uma oportunidade, teria de caçá-la com suas próprias mãos.
O
semi-adulto retornou à sua casa somente na manhã do dia seguinte, quando o sol ainda aparecia vagarosamente, com sono. Era uma casa simples, apesar de ser uma das melhores da cidade, tinha estruturas de madeira, as paredes eram feitas de adobe e a cobertura de palha. Era amplamente ornada com orquídeas e margaridas, que davam um ar primaveral à residência. Aqui e ali eram encontrados troféus das batalhas que o general travara. Na sala principal, encontrava-se um jarro que recebera como gratificação por ter salvo o filho do líder da tribo, nela eram encontradas vivas rosas vermelhas, as únicas do humilde mas aconchegante lar. Na parede frontal do cômodo, estavam penduradas a lança e escudo prediletos do honroso soldado: a lança era uma pique com cerca de três metros de comprimento, com a base de pinho, ocupando duas partes da arma, e uma ponta rígida e afiada de mogno. O escudo tinha o formato da lua cheia, com um metro de raio, feito de carvalho e com um símbolo da junção do Sol com a Lua entalhado no centro dele. No quarto de sua mãe encontrava-se uma pilha de tecidos que servia de cama e, no encontro das paredes, um vaso de barro com a silhueta torta, acabamento precário e com pinturas quase que infantis. Vaso esse que seu pai fizera sozinho, ainda jovem, para impressionar uma garota que ele imaginava que gostaria dessas coisas rebuscadas, entretanto, apaixonou-se por ele simplesmente pelo ato genuíno, e hoje essa garota sempre dorme observando o vaso feito há anos. No cômodo onde o jovem casal dormia, o mesmo cenário era desenhado: uma pilha de tecidos, uma pontiaguda rocha tingida com o sangue da testa do rapaz e algumas flôres
que o jovem costumava trazer para a garota.
- Bom dia. - Ele disse com um ar cansado para as duas mulheres que conversavam na sala principal.
A menina levantou-se agitada e com preocupação na voz disse:
- Onde
esteves
? Estavas a celebrar até essa hora? Por que não voltastes? - Sua face estava rósea e seus olhos de lagoa estavam principiando a se tornarem cachoeiras.
- Eu estava... na montanha, pensando nisso tudo. Desculpem-me por não avisar. - Disse o jovem sem olhar para a amante.
- Tudo bem, filho. É sempre bom ter um tempo para nós mesmos, damos tanto aos outros que o que nos resta são só as migalhas. - Disse a mãe do garoto com calma e serenidade.
- Estás feliz com a morte do rei? Achas que as coisas mudarão? - A garota indagou acalmando-se.
- Mudarão, mas não por isso, e sim porque eu as mudarei. - Disse o rapaz com um tom sério e grave.
- Ontem a noite, vieram aqueles dois simpáticos rapazes do batalhão perguntar de você... eles estavam excitados, é melhor procurá-los. - Disse a dona da casa.
- Eu os vi ontem a noite, enquanto pensava nisso tudo. Eles... eles disseram que eu fui convidado a ser general. - O jovem homem disse devagar, observando a
reação
de suas palavras.
- General?! -
A garota que conseguira aquietar-se levantou-se n'um pulo e com um abraço apertado na cintura do jovem completou - Você será general!! Como seu pai, você será general, eu sabia que seu esforço seria recompensado.
A dama mais madura nada respondeu, enquanto tomava seu chá verde somente parou, olhou para o chão, olhou para o filho e deixou seus olhos marejarem. O fim de seus lábios curvou-se n'um tímido sorriso e continuou sentada.
- Na verdade... eu recusei. - O homem-menino disse baixo, enquanto sentava-se ao lado da mãe.
- Tudo bem... tudo bem... sua hora ainda vai chegar. - Ela disse e foi para seu quarto.
- Por quê? Por quê?! Deixes de egoísmo, tu sabes que será bom se aceitares!! - A garota exclamou.
- Você não entende... eles só me pediram isso pois meu pai foi o grande general do vilarejo. Eu sou forte, mas não sou moderado e inteligente como ele. Estava implícito que eu deveria recusar. - O garoto respondeu acomodando-se n'um monte de palha.
- Eu não entendo?! Você que não entende como isso nos ajudaria! - E saiu pela porta com uma fúria em seus pés ruidosamente batiam no chão.
O jovem aguardou três quartos de hora e, ao notar que ela não voltaria tão cedo, foi buscá-la. Procurou na casa de algumas amigas e perto da saída da vila, porém sabia que encontra-la-ia no topo da chorosa e amarga montanha.
Lá em cima, o jovem sentou-se ao lado da garota, que fingiu não notar sua presença. No topo da montanha
irritadiça
e sensível montanha os dois estavam sentados lado-a-lado como no primeiro dia que se conheceram, até que ouviram alguém se aproximando n'um cavalo.
- Se não é o famoso filho do general. - Disse uma voz aveludada e venenosa que ecoava no topo da tumultuada montanha.

domingo, 21 de novembro de 2010

O escravo maia.

III

No alto do penhasco amistoso e colorido estavam os recentes amigos deitados e conversando enquanto observavam as nuvens.
-É... eu nunca me senti... assim, sabes? Pertecente a algum lugar. -confidenciou a pequena garota com o céu refletido nos olhos.
-Você sente que pertence... a uma montanha? -indagou com ar de deboche o garoto sorrindo.
-Tu entendestes! Pertencente àqui. A... "nós". -respondeu a menina avermelhando como de costume.

-Entendi sim... na verdade, eu também me sentia assim. Eu sempre fui rejeitado por ser meio cristão... imagino você, uma cristã filha de dois pagãos. Procurando casa e comida de vila em vila... deve ter sido... difícil. -disse com uma rara empatia.
-Foi sim, não mentirei para ti. Foi difícil, muitas vezes eu queria chorar, queria nunca ter nascido, queria nunca ter sido adotada pelos meus pais, mas hoje eu vejo que valeu a pena... eu encontrei um lugar que eu posso chamar de casa, eu encontrei... você.
-Antes, bem antes... eu era feliz. Eu estava acostumado com a vida de escravo. Eu aceitava que era só isso que eu teria da minha vida, e que eu devia aprender a ser feliz assim. Mas aconteceram algumas coisas que me fizeram mudar... e eu deixei de ser feliz. Só que você me fez sorrir de novo, obrigado.
-Haha, deixa de melice, você só me encontrou porque queria bater em alguém, e porque eu era uma "donzela em perigo". Você queria bancar o machão, e conseguiu.
-Bancar o machão? Só porque eu sou o mais forte do vilarejo e te salvei? Então, acho que sou mesmo um machão. -Disse o garoto levantando-se e fazendo uma pose desengonçada exibindo seus músculos.
A garota sentou-se com um tímido sorriso no rosto. Suavemente esfregou os olhos com as mãos fechadas como pequenos tatu-bolas. Depois olhou para o garoto à sua frente fixamente. O rapazote na contra-luz parecia um Adônis de argila, forte e belo. Suas feições amadureceram, seu sorriso começava com a inocência da uma criança e terminava com a segurança de um homem. Ela olhava deslumbrada para aquele garoto-homem que entrou em sua vida. Conheciam-se há poucas semanas, mas ela sentia que estava a vida toda com ele e, mais que isso, sentia que podia ficar o resto da vida ao seu lado.
O jovem sentou-se ao lado da garota, ela parecia um brotinho-de-feijão. Delicada e escondida no seu vestido. Seu sorriso parecia uma pequena lua crescente, que iluminava o seu rosto e fazia brilhar mais intensamente as estrelas que trazia no olhar. Seus cabelos esvoaçavam com a brisa quente que passava por entre os dois. Ele pensava que podia ser ela a pessoa a preencher o vazio que ele carregava dentro de seu peito. Torcia para que ela desse uma chance para um mestiço que só sabia bater nas pessoas e amaldiçoar o passado. Rezava para que tivessem um futuro. Ele então se aproximou dela, ele sorria, ela sorria. Os olhares tão intensos não fugiam um do outro, ao contrário, iam de encontro, colidiam, queimavam. O garoto tomou a iniciativa. Seus olhos cerraram-se como as asas de uma borboleta que descansa n'uma rosa. Seu rosto se inclinava em direção ao dela. Cada vez mais próximo, ele sentia sua respiração. O silêncio o ensurdecia, nada ouvia além da batida acelerada do seu coração. Até que ela riu, gargalhou.
-O que está fazendo?! Você realmente acha que isso dará certo? Realmente que eu iria querer isso? -disse a garota quase azul de tanto rir do menino.
-Eu... eu... -O rapaz estava perdido, não sabia o que fazer, o que dizer.- Eu achei que você, que nós! A gente, nós somos iguais e eu só pen- A garota interrompeu o garoto com um longo beijo, um quente beijo. Seus lábios de cerejeira eram doces, sua pele de pêssego reagia ao seu toque, ele a tinha nos seus braços, ela o tinha em seu coração. Os dois se entrelaçavam no entardecer. Ele nunca se sentira tão bem. Ele sabia que lá dentro seu coração sorria. Nada mais importava, as dores do passado, os medos do futuro, porque agora, no presente, ele a tinha. E juntos continuaram até o sol se esconder atrás das montanhas. O casal não se preocupava com mais nada, nem com o calor ou o frio, nem o medo ou a solidão, pois sabiam que sempre teriam um ao outro e o topo daquela amável e doce montanha.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O escravo maia.


II


No topo do penhasco seco e vazio o jovem já quatro anos mais maduro encontrava-se solitário. Há muito tempo parara de observar a cidade, o mesmo tempo que o sorriso sumira de seus firmes lábios.
-Como a vida de escravo é chata...- Disse como de costume e, vagarosamente, levantou-se rumo à cidade.
Caminhando por entre trechos obscuros e desertos até a cidade, desejava que algum acontecimento fizesse o sangue correr quente por suas veias, embora a esperança fosse tão rara quanto os raios-de-sol que não batiam nos becos do pé da montanha. Até que, atendendo às suas preces, ele ouviu um grito.
-Saiam daqui!- Suplicava uma garota com medo.
-Por quê? Tem medo de nós "pagãos", "cristã"?- Disse a voz de um rapaz.
Bastou mais um grito da menina chegar aos ouvidos do garoto para ele lançar-se em direção da confusão como se fosse um guepardo correndo atrás da caça. Dois garotos cercavam uma pequena garota contra a parede e se aproximavam dela metodicamente. Até que o menor dos dois foi arremessado para o longe por um pesado punho que intercedera entre a moça e os rapazes.
-Deixem ela em paz!- Ele bradou com a firmeza de um soldado, colocando-se na frente da jovem, a fim de protegê-la.
-Quem é você?- Disse o outro garoto, com um tom de deboche.
-Deixem ela em paz!!- Rugiu e foi ao ataque.
Houve uma sucessão de violências: o jovem herói desferiu dois socos no maior e jogou um pontapé no outro; em troca disso recebeu uma cabeçada do primeiro e uma joelhada do segundo; no chão, areia foi o que ele utilizou para cegar o agressor que derrubara primeiro, enquanto o outro lhe atingia a fronte com uma pedrada. Do alto de seus pés, com a face tingida de sangue que jorrava de sua testa, as humildes vestes surradas, sujas e rasgadas e com um sorriso brilhante e vil, encarava os dois atacantes. Para os dois, ele parecia um demente chacal prestes a devorar suas presas e, ao ver tão imagem, correram temerosos da cena.
O garoto virou-se para a donzela que acabara de resgatar e, antes que pudesse se certificar que ela estava bem, desabou como uma marionete que tem seus fios rompidos.
No topo do penhasco quente e úmido, o rapaz acordava três quartos de hora após perder as forças. Ao abrir os olhos delicadamente, não conseguiu enxergar onde e com quem estava, porém sabia estar seguro e protegido. Ao recobrar sua consciência, pôde notar que estava deitado no colo da garota que salvara e, ao olhar para ela, fraquejou. Sua boca arqueou de surpresa, seus olhos se arregalaram, não acreditava no que via, nunca vira algo assim antes. Só conseguia pensar "nossa!". Notara que mal reparou na garota e, agora que a observava, não tinha reação, só conseguiu dizer:
-Nossa!- Com um brilho dourado pôr-de-sol no olhar.
A garota fugiu de seus olhos e enrubesceu.
-Nossa!- Ele repetiu, levantado-se para vê-la melhor, e concluiu. - Você... você é linda!
Ela avermelhou-se mais que uma pitanga e escondeu seu sorriso de pérolas.
-Que bom... que bom que estás bem. - Confessou receosa- Dormistes feito um bebê.
Sua voz era fabulosa, tinha uma melodia pura, era doce como o vinho e aconchegante como a relva no entardecer. Ela, então se levantou jeitosamente e caminhou pelo grande e rico penhasco que os dois se encontravam. O jovem só podia observá-la quieto e sorridente. Ela andava como se pisasse nas nuvens e tinha a graça d'um beija-flor. O vento quente fez farfalhar suavemente seus longos cabelos de avelã e deu formas femininas ao seu comprido e empoeirado vestido cor-de-oliva. Mais à vontade, resolveu girar na ponta do seu pequeno e delicado sapato azul-oceano, sem esconder a alegria que a tomou ao ver que ele estava bem.
-É... obrigado! Obrigado por cuidar de mim e por me trazer aqui. Verdade! Como encontrou minha montanha?- O garoto se perdia em suas próprias palavras e nos olhos da incrível garota que encontrava. Não conseguia dizer três palavras sem tropeçar nos finos lábios de cereja que ela trazia.
-Eu que agradeço. Salvaste-me daqueles dois, eu só retribui...- Disse com uma modéstia angelical. - E a sua montanha não é tão difícil de encontrar... eu só segui a fumaça que vinha de sua fogueira, era o lugar mais próximo que eu vi para te deixar em segurança.
-Ah, certo! A fogueira, sim, você é esperta... mas quem eram aqueles? Que queriam? Está bem?!- A naturalidade e doçura dela faziam-no corar, faziam-no perder-se nos seus próprios pensamentos, nos batimentos do seu peito.
-Não sei... eram do vilarejo, mudei-me há pouco para cá e, como pode ver, sou uma "cristã", nunca fui bem vista pelos "pagãos"... mas você parece diferente...- Ela arriscou dizer.
-Ah, sim! Você é diferente mesmo, eu também sou meio "cristão", minha mãe é "cristã", mas fugiu da família dela para ficar com meu pai... mas não quero falar sobre eles, fale-me sobre você!- Disse fugindo de seu pai.
-Não, não, não, mocinho!- Ela retrucou caminhando com firmeza em direção do rapaz. -Você me deu um grande susto! - E ensaiava uma expressão de seriedade nos seus grandes e cerúleos olhos, mas não conseguia disfarçar o sorriso- Não faças mais isso, preocupaste-me! - E finalizou esticando seu miúdo dedo indicador- Agora, descanses e depois conto-te tudo que quiseres. - E riu. Assim como ele. Ambos sorrindo, vendo o pôr-do-sol, no alegre e agradável penhasco.

domingo, 14 de novembro de 2010

O escravo maia.


I


Do alto do penhasco pontiagudo e cinza, reto e vazio, um garoto de não mais que doze anos observava a cena que se iniciava na cidade que podia ser completamente observada lá de cima. Com seus olhos cor-de-amêndoa, brilhando à luz do sol que se deitava queimando o horizonte, e os cabelos cor-de-carvão, lisos como seda, esvoaçando ao forte vento que tocava sua pele de areia-queimada com a graciosidade d'uma borboleta que pula de flor em flor para polinizá-las na primavera, assistia a essa conturbada paisagem. Levantando-se em suas finas e compridas pernas, que combinavam com a languidez do seu corpo embrulhado por um pouco de tecido, que servia apenas para cobri-lo nesse dia quente, pensou: "eu preciso ver isso mais de perto, algo ruim acontecerá, eu posso sentir." E correu como um lince que corre por sua vida.
Uma multidão barulhenta reunia-se no meio do vilarejo. No centro do aglomerado de pessoas viam-se dois homens. Um com vestes luxuosas: Uma grande peruca, que escorria até metade de seu tronco; uma capa de veludo vermelha, com detalhes dourados bordados nas beiras; por baixo da escarlate capa, uma alva camisa requintada com poucos babados e um saio de cetim colado ao corpo, acompanhado d'um calçado dourado ricamente incrustado com pedras azuis que se assemelhavam à diamantes. O garoto já ouvira falar dele antes. Há cerca de quatro anos.
-Quem é aquele, papai? - Questionou a criança que olhava agitada e admirada o homem que passava melodicamente por entre a população do pequeno e pobre vilarejo.
-Aquele? Aquele é o rei. Ele é o diabo! - Respondeu rispidamente o homenzarrão cor-de-carvalho, com um olhar que deixava em chamas seus miúdos e graves olhos de ônix.
-O reei, ele parece tão poderoso, ele não deve ser tão ruim... - replicou o inocente rapaz.
-Talvez, afinal ele dita o que é bom e ruim.
O rei. Hoje sabia bem quem era o rei. Um homem cruel e ganancioso, que só pensava no poder, que só queria mandar, e tinha quem obedecesse. Vira-o algumas vezes na entrada do vilarejo, quando vinha pegar novos escravos, pois os antigos ou morreram, ou ficaram inválidos. Entretanto nunca o vira entrar no vilarejo, além daquela ocasião há quatro anos. Porém, isso não era tudo. O outro homem que encontrava-se face-a-face com ele, era ninguém menos que seu próprio pai.
De cabeça erguida e com um cenho violento, não tirava os pequenos olhos do rei. Com quase dois metros somados à altura de seu chapéu adornado com plumas de diversas aves exóticas, parecia gigante perto do pequeno rei. Com uma túnica cor-de-sangue, marcada nas costas com um símbolo da junção do Sol e da Lua, dourado e prata, e completamente vestido com uma armadura de madeira que protegia cada um de seus pontos vitais, o homem parecia ter mais autoridade que o rei indefeso. Até que, então, o rei foi o primeiro a quebrar o silêncio com palavras rápidas e cortantes como facas que são disparadas n'um alvo fixo.
-Então, meu General, o que você me diz? Você aceita trabalhar para meu exército? Você tem me dado um bom trabalho, e seu auxílio certamente acabaria com toda essa inútil resistência do seu povo.
-E trair minha vila? Minha família? Minha honra?! Jamais! - E toda a população cresceu como se inflamada pelas palavras do adorado general.
-Pense bem, General. Se aceitares essa tarefa, estará ajudando sua família, não terão de viver aqui, não terão de passar fome, passar frio, viverão com a realeza, serão abastados e felizes. - Disse o rei com um sorriso venenoso, enquanto lançava um frio olhar para uma jovem cor-de-leite que olhava estarrecida para o bronzeado líder dos soldados.
-Minha família é feliz aqui. Não precisamos dessa sua "generosidade", nós "pagãos" não nos misturamos com sua gente, não com a gente que só quer guerrear e nos deixar sobre nossos joelhos, não existe negociação. Prefiro a morte a servir-te. - Finalizou o forte e sério homem em meio a urros de exaltação de toda a sua gente.
O compacto rei, somente virou sorrindo amargamente e fez um sinal de aprovação para um de seus soldados que o cercavam. O soldado apontou sua arma para o general e ouviu-se um trovão que atravessou o general, como atravessou o rugido da jovem que ficara ainda mais pálida ao ver seu marido caindo feito uma árvore que foi serrada.
- Não!! - Ela disse com seus olhos azuis afogados em lágrimas. Correu e o pegou em seus braços. Ele olhou para ela, e sem dizer nada, -la ouvir tudo através de seu olhar. "Perdoa-me por não conseguir cuidar de você, de vocês. Do vilarejo, de nós. Cuida dele, e seja feliz." e fechou seus olhos, que agora pareciam duas jaboticabas, frágeis e doces. Inconsolavelmente ela se perdia em prantos sobre o corpo do homem que amava, sobre o homem pelo qual ela largou tudo.
O jovem, presenciando tal cena, a morte do pai e a tragédia da mãe, permaneceu impassível. Até que foi embora, correu, voou. Voltou ao penhasco cinza e deserto. De lá, viu a multidão dissipar sob a forte luz da lua prata que parecia lamentar a morte de um grande homem. Então, ele chorou, chorou como nunca antes. O que sentia não era tristeza, não era medo. Era ódio. Um ódio egoísta. "Por quê?!", perguntava-se. "Por que aquele idiota não aceitou? Porque não quis dar uma vida boa para a mãe e eu? Por que foi tão egoísta? Poderíamos ser ricos, poderíamos ter poder. Ninguém mais zombaria a mãe, nem eu. Seríamos tratado como deveríamos."
-Por quê?! - uivou sobre o penhasco pontiagudo e frio.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

À ansiedade

Sai daqui, sai de mim.
Deixa de maldade!
Sem você, tudo funciona, mesmo assim.

Tenha piedade.
Você nunca me fez bem,
aliás nunca fez a ninguém.
Vá embora, ansiedade.

Para isso, não tenho idade.
Ficar nervoso e apreensivo?
Sério e pensativo?
Achei que isso tinha chegado ao fim.

Então, saia. Vá embora,
da minha casa e da cidade.
Sai daqui, sai de mim,
maldita ansiedade.

domingo, 7 de novembro de 2010

O pobre rei rico.

Era uma vez, um rei. Um Rei. Um Rei rico e poderoso, que tinha um reino. Um Reino. Um Reino vasto e belo, que acabava depois do horizonte. O Reino desse Rei era composto por lindos campos e grandes cidades, onde quer que se olhasse, veríamos predominante beleza e alegria.
Todos respeitavam e amavam o Rei. Seus - poucos - inimigos o temiam e admiravam. Ele estabelecera aliança com praticamente todas as outras nações, que mesmo unidas, eram menores que seu Reino. Todas as mais belas e raras obras de arte do mundo pertenciam ao Rei. Todos os mais precioso tesouros estavam sob sua posse. Os maiores artistas do mundo dedicavam esculturas e epopeias ao nosso Rei. Os mais hábeis guerreiros dedicavam toda sua lealdade ao Rei. Todo e qualquer habitante do Reino daria sua vida pelo Rei.
O Rei, além de rico e poderoso, também era deveras belo e inteligente. O Rei não possuía apenas fortuna material, era abastado em virtude e sabedoria, tinha abundante cultura e conhecimento. Tudo que o Rei queria, ele tinha, tudo que o Rei desejava, ele recebia. Até mesmo os animais, até mesmo a natureza, obedecia ao Rei. Não existia uma coisa no mundo todo que ousasse desobedecer o Rei, exceto ele mesmo, mais especificamente, seu coração. Seu pequeno coração teimava em acelerar por uma mera camponesa que queria a outro. E o nobre Rei, com toda sua sabedoria estava ciente que seria loucura "ordenar" que ela o amasse, sabia que era tolice tentar comprar o coração da jovem com pedras preciosas, sabia que não importasse quem ele fosse, um Rei ou um escravo, ela amaria outro. E toda noite, nosso Rei se sentia a pessoa mais pobre desse mundo. Toda a fortuna que possuía nada era, se comparada à felicidade que ele saborearia ao lado dela. O Rei só pensava que, se pudesse, trocaria toda sua fortuna e poder, para poder sentir somente uma vez o sabor de seus lábios. Toda noite, ao som das fontes em forma de leão que jorravam água cristalina, o ruído da lágrima solitária que rolara até o chão ecoava em seu peito, e o Rei mais poderoso e rico do mundo não passava de mais um pobre apaixonado.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

20:20

20:20

Eu queria poder superar isso o quanto antes. Admito, não penso mais em ti, mas quando eu penso, é como se meus esforços tivessem sido inúteis. E quando eu lembro, é como se eu não tivesse saído do lugar. Todas as muralhas que eu construí, caem. Todas os reforços que eu reuni, fogem. Minha coragem some, meu sorriso murcha, minha alegria esvaece, meu sol escurece.
Você lembra de quando sua presença me fazia bem? Ah, se eu lembro, é essa lembrança que me machuca ainda mais. Eu queria poder não lembrar, de ti e de nós. Do sorriso e do choro. Só desejo esquecer.

20:21

domingo, 31 de outubro de 2010

Diálogo.

- Então... você quer me dizer que já mentiu p'ra'lgum amigo teu só p'ra não feri-lo?
- Naturalmente.
- E você não acha isso pior do que dizer a verdade, por pior que ela seja?
- Ao contrário, acho isso mais valoroso, dizer a verdade qualquer um diz, quebrar um coração é fácil, só é preciso soltá-lo ao chão. Agora, mentir para quem ama, isso é um ato de coragem. Mentir para si mesmo, para fazer outrem feliz, é divino. Sacrificar tua alegria p'ra ver quem estimas sorrir, é raro. Eu sou uma boa pessoa, no fundo.
- Mas você não acha que mentir e omitir é mais fácil do que dizer a verdade para algumas pessoas? Digo, há quem a gente não queira machucar, mas é necessário, e fazer isso, porque é o certo, é algo muito difícil.
- A verdade, cedo ou tarde, aparece. A mentira sempre cai. Mentir, sabendo que uma hora será desmascarado. Omitir, ciente que será descoberto. Correr o risco de acabar perdendo esse alguém valioso, por ter feito algo "errado". Só porque preferistes aproveitar um momento a mais feliz com ela, só porque um minuto prolongado do sorriso verdadeiro pode valer o resto da vida com uma lágrima. É um ato insano, um ato heróico, feito por um vilão.
- Concordo contigo, é realmente loucura.
- Oras, afinal, obrigado, se não fosse loucura, não valeria a pena tamanho esforço.

sábado, 30 de outubro de 2010

Astigmatismo.

O astigmatismo é uma deficiência visual, causada pelo formato irregular da córnea ou do cristalino formando uma imagem em vários focos que se encontram em eixos diferenciados. Uma córnea normal é redonda e lisa. Nos casos de astigmatismo, a curvatura da córnea é mais ovalada, como uma bola de futebol americano. Este desajuste faz com que a luz se refracte por vários pontos da retina em vez de se focar em apenas um. Para as pessoas que sofrem de astigmatismo, todos os objetos próximos e longes ficam distorcidos. As imagens ficam embaçadas porque alguns dos raios de luz são focalizados e outros não. A sensação é parecida com a distorção produzida por um pedaço de vidro ondulado.

Uhm, 'pera aí. "todos os objetos próximos e longes ficam distorcidos" aaaah, é isso mesmo que eu tenho, principalmente de longe, 'tá tudo distorcido, embaçado... lá na frente, no futuro, eu não enxergo nada de bom... mas é só astigmatismo, é isso que eu tenho. Pode chamar de astigmaotimismo...

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Dia nublado.

O dia está escuro, muito escuro, no céu só se viam negras nuvens e violentos raios. Lá do alto a chuva caia em minha pele, agarrava-me para não mais soltar. Quanto mais se prendia, mas frio eu sentia. Sem guarda-chuva e sem companhia eu estou caminhando em busca de abrigo, mãos no bolso, cabeça baixa e um andar preocupado. Lá do alto a chuva não para, milhões de gotas me atacavam e me faziam lembrar que a vida é um dia nublado em que apenas alguns podem ver o Sol. O céu está escuro, mal parece que acabou de bater as 15. Lá do alto a chuva não para, porém, por entre as nuvens eu vejo um feixe de luz dourada, vejo um pouco de sol. O sol já se foi, e as nuvens fecham a cara para mim novamente, mas eu sei que vi o que vi. Uma luz que me aqueceu pelo mínimo instante.

O céu é minha vida, o sol é seu sorriso.

domingo, 17 de outubro de 2010

17:17

Quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra, quero pêra.

17:18

(eu queria uva...)

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

19:19

Eu queria saber que ainda tenho uma chance de ser feliz contigo.
Queria acreditar que nem tudo foi em vão.
Queria você, não precisa ser agora.
Queria parar de desejar tanto.
Queria pouco.
Queria você.
Queria.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Numa noite de verão.

Era uma noite de Agosto com cara de Dezembro. A lua observava o mundo com uma juba de prata, e banhava de mercúrio as ruas. Uma brisa fresca aliviava o calor que se impregnava. Nas calçadas, jovens se aglomeravam, trazendo consigo música alta e sorrisos sem motivo. O calor aumentava, mas não um calor incômodo, e sim um calor humano, calor da música, da dança, da alegria, da sensualidade. Todos sorriam, todos flertavam, todos bebiam. A bebida em excesso, o combustível da já inflamada juventude, o néctar que fazia todos sorrirem mais, rirem mais, quererem mais.
Em meio a belos jovens - pois, a juventude em si já é bela - um par se destacava. Ela, com sua pele de porcelana, com seu cabelo cor-de-sol e uma graça de andorinha. Cercada por suas amigas, rodeada por admiradores. Sorria e disfarçava. Ria e dissimulava. Tinha ciência de que era desejada, por todos, homens e mulheres. Tinha ciência de que se destacava. Porém, fazia como ninguém o papel de inocente, de mera menina. Embora apenas seu sorriso fosse de menina. Suas curvas eram fartas e lânguidas. Despertando a libido dos homens. Mas também eram moderadas e belas. Criando a inveja nas mulheres. Seus olhos de diamantes penetravam a quem apontassem. Criava um ar de calma e de curiosidade. De paz e paixão. Mas ela não era a única na festa que colecionava olhares. O complemento do par, ele, também reunia desejos e suspiros. Era grande como um leão, belo como um pavão, e perigoso como um coiote. Todas o queriam, e ele, por sua vez, também queria todas. Seus olhos de falcão observavam toda e qualquer garota que passasse, e, quando uma o interessava, um sorriso traiçoeiro brotava em seus lábios, e ele só satisfazia-se ao tê-la em seus braços - ou em sua cama -. Todos os homens queriam ser ele. Todas as garotas queriam ser dele. Mas, essa noite, uma em especial chamaria a atenção dele, e a temporada de caça começaria.
Eles ainda não se notaram, eles ainda não se viram, estão simplesmente se curtindo, curtindo a festa. Porém isso está prestes a mudar. Pois ele começou a se mover, como se procurasse algo que não sabe o que é. Até que seus olhos se cruzam. Diamante e rubi, frente a frente. Ele gosta do que vê, ele a quer. Ela, do mesmo modo, interessa-se, mas finge corar e esconde-se entre suas amigas. Ele precisa fazer algo, precisa fazer sua jogada. Bebe um copo de desinibição, e o álcool corre por ele, como a energia correndo nos fios elétricos, dando a ele o impulso necessário para se aproximar. Ele mede seus passos, caminha como se fosse sobre o gelo. Sem pisar forte demais, para não acabar escaldado. Cada vez mais ele chega mais perto, mais perto. Até seus rostos estarem a um palmo de distância. Ele sorri para Ela como se tivesse encontrado um tesouro, Ela disfarça o seu sorriso por trás de suas mãos de pêssego. Alguns segundos suspensos pelo clima passam como se durassem o triplo do que duraram, olho a olho eles permanecem intactos, até que Ele corta todo o barulho do silêncio e diz "E aí, gata". É o que todos dizem "E aí, gata". Ela estava ciente do cronograma, até agora, Ele não tinha feito nada demais, nem nada de menos. Porém, Ele não precisava. Porque essa noite já era dos dois antes deles terem se cruzado. Ele diz mais alguma coisa sem importância, o que importa que Ele está se aproximando mais. Ela se afasta um pouco, como se tivesse medo. Embora também quisesse se aproximar e tocá-lo. Contudo, se o mundo é um palco, devemos desempenhar nossos papéis bem, e o dela é o da donzela. Ele continua a falar, mas diminui o ritmo, Ele encosta no braço dela. Ela encosta no braço dele. Eles se aproximam mais. Os lábios dela se dobram num sorriso de volúpia. O olhar dele penetra e faz o diamante rachar, Ela desvia os olhos e o observa de soslaio. Seus corpos atraem-se como imãs de pólos opostos. É pura física, é inevitável. Ele a agarra com a força necessária para fazer suas pernas tremerem, para despertar sua libido, mas com a delicadeza de quem colhe uma rosa. Ela se rende, ela fecha seus olhos. Ele também cerra os seus. Seus corpos se unem. Seus lábios se tocam. Ele sorri. Ela, por dentro. só ri. Ambos conseguiram o que queriam. Ninguém os invejava, pois eles formavam um casal magnífico, e a cena era esplêndida. Eles se perdiam entre suspiros e beijos. Entre toques e calafrios. A noite passava mais lentamente, a vida caminhava apressada. Seus corações corriam. Passado um quarto de hora repleto de toques, beijos e risos. Ele a leva para seu carro. Ela entra e o puxa pelo colarinho, os dois estão lá, ninguém mais os vê.
Ninguém os vê, ninguém, nem eu. Que observava tudo de longe. Que não fui convidado para a festa. Que vou-me embora, agora que os donos da festa já deram seu show. E os espectadores estão se distanciam.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

22:22

22:22

Bom...
é meio difícil pedir isso, bom, não difícil, mas confuso.
O que eu queria, na verdade, é...
Assim, eu queria, se não for pedir muito, não sonhar com você essa noite.
Não porque eu não goste de sonhar contigo, muito pelo contrário, é só que - 22:23- peraí agora, que eu vou terminar. Muito pelo contrário, eu adoro sonhar contigo, eu fico feliz, minha noite se transforma, mas acordar e ver que eu não posso te ter, acordar e ver que você não está comigo, é péssimo, é um pesadelo diurno. É um pesadelo.
Então...
22:24
Então, se eu não posso te ter, prefiro não te amar, se eu não posso te ter, prefiro não sonhar.
Mas eu sei que meus sentimentos não são tão rasos assim, eu sei que continuarei sentido isso por ti, de uma forma ou de outra. E, se é assim que deve ser. Eu queria não sonhar com você, só hoje.
22:25

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Hoje.

Ontem eu devia tê-la convidado para sair. Amanhã eu acho que estudarei. Ontem eu devia ter me exercitado. Amanhã eu acho que será um dia ruim. Ontem, se eu tivesse feito aquilo, eu poderia estar melhor agora. Amanhã será diferente. Ontem eu era mais feliz. Amanhã eu começo uma dieta. Ontem eu perdi uma grande oportunidade. Amanhã eu me mudarei, é melhor não me envolver com ninguém agora. Ontem as coisas eram mais fáceis. Amanhã eu espero que as coisas melhorem. Ontem eu devia ter feito as coisas de outro jeito. Amanhã eu farei tudo certo. Ontem foi um péssimo dia. E eu acho que amanhã também será. Se eu pudesse mudar o ontem. O amanhã é tão incerto. Ontem. Amanhã.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Pose.

"Ok, aqui vamos nós, isso é fácil, já fizemos isso antes, sem pressão. Uhm, deixe-me ver, sorria, acene, pergunte se está tudo bem com eles. Isso, muito bem, acho que fomos bem. Ok, agora ande com eles, 'per'aí, vai mais p'ra frente, não! Mais p'ra trás, isso, ande ao lado, exato, ao lado. Estão falando contigo, diga algo. Tudo bem, continue assim... bom, agora que chegamos aqui, puxe uma cadeira, e sente-se normal. Isso, preste atenção na conversa, tente falar algo interessante, mas não fale demais. Aham, tudo bem, espere, faça um comentário. Pronto, cuidado com tua postura, pode relaxar um pouco, isso. Fizeram uma piada, ria, mas não muito alto. Ok, tente dizer algo engraçado também, uhm, ok, poderia ter sido melhor, mas ok. Não fique muito retraído, olhe as pessoas, sorria sempre. Muito bem. Diga algo, use suas mãos, expresse-se. Legal, fale qualquer coisa óbvia. Certo, agora diga algo. Ria. Fale. Mexa-se. Escute. Argumente. Opine. Muito bem, estamos indo bem. Estão falando sobre algo que você conhece, faça um comentário superficial. Ok, ria, ria. Cuidado, você está muito disperso, finja que está interessado neles. Isso, estou gostando de ver. Continue assim, repita alguns passos. Sempre sorria. Olhe nos olhos. Não aja muito estranho, não chame a atenção, mas não fique tão quieto. Isso, legal. Continue assim. Acho que você aprendeu."
Não há nada mais simples do que agir naturalmente.

domingo, 19 de setembro de 2010

Diálogo.

Debruçando-se sobre o balaústre da sacada, correndo seus olhos no horizonte da cidade de granito, suspirou.
- É irônico, eu já não sei mais quem diz a verdade ou quem mente. O que é falso e o que é real. É muito irônico. Eu que sempre brinquei com a verdade e com a confiança das pessoas. Eu que persuadi, iludi e tive o que quis. Eu que era sinônimo de eloqüência, estou num impasse desses, estou confuso. Estou perdendo em meu próprio jogo! - Disse jogando sua cabeça para trás.
- Não sei por que tu reclamas tanto. Era essa a sensação que você dava para os outros, a desconfiança, ninguém sabia se acreditava ou não em ti. Só está colhendo o que plantou. Afinal, veja só essa tua atitude, para ti tudo é um jogo não é? Pois, então, não podemos sempre vencer. Aliás, o importante não é ganhar. - Respondeu o segundo jovem com um ar de desaprovação.
E o primeiro, pondo-se a rir, exclamou - O importante não é vencer? Que filosofia mais triste a tua, porém, devo concordar, o importante não é triunfar. O importante é ganhar e, mais do que isso, poder gozar de tua vitória, poder ver o olhar vazio de quem derrotastes, saber que és o melhor. Isso que é importante. - Disse adentrando o cômodo e sentando-se no sofá.
Os dois amigos ficaram em silêncio e tudo que podia se ouvir era o som dos animais da selva de concreto fora da janela, o rugir dos carros e o canto das construções que pareciam inacabáveis. Então, o mais sensato dos dois, com um pouco de receio falou - Sabe, o engraçado é que eu sei que tu sempre dirás esse tipo de coisa, que pensarás essas loucuras e que continuarás sempre sendo tu. Entretanto, por alguma razão que vai além de minha compreensão, permaneço ao teu lado, embora recrimine toda e qualquer palavra que saia de tua boca e, principalmente, que passe por tua cabeça.
- Talvez, tu queiras me consertar, sabemos muito bem que tens de manter essa pose de moço direito, e consertar-me seria um grande feito, feito o qual deixar-te-ia bem falado em muitos lugares. Contudo, duvido que seria um motivo de tamanho egoísmo, a pior parte de tua pose é que ela é mais que uma mera pose. E, por isso, irrita-me tanto.
- Todos sabem que tu não tens mais conserto, e que tens repulsa da idéia de "ser uma boa pessoa". Acho que nossa amizade esticou-se tanto que o final dela já está fora de vista. - Sugeriu dando de ombros.
- Sabes, que conversa mais maçante acabamos por meter-nos, falar de nossa amizade, acho que realmente estou mudando! Com o tempo, até mesmo eu estou por adquirir uma crosta que vocês pessoas corretas nomearam paciência. E com ela, muitos outros males virão, estou precisando perder-me nessa vida para ver se me encontro novamente. - Disse levantando-se e agarrando seu chapéu que deixara jogado e sua bengala que encontrava-se recostada na parede. - Mais tarde vemo-nos, foi um desgosto ter esse diálogo contigo.
- Eu também gostei, até mais.
-Até mais! - Despediu-se fechando a porta atrás de si.
E no velho apartamento a esperança de que ele pode mudar e ser uma pessoa importante fez companhia ao caçula que foi descansar com um sorriso tímido em sua boca.

domingo, 12 de setembro de 2010

Desculpas.

Desculpe-me, se eu não sou uma boa pessoa.
Desculpe-me, se eu não sou sempre feliz.
Desculpe-me, se eu não sou inteligente.
Desculpe-me, se eu não sou bonito.
Desculpe-me, se eu não sou simpático.
Desculpe-me, se eu não sou tão divertido.
Desculpe-me, se eu não sou alguém de fé.
Desculpe-me, se eu não sou motivado.
Desculpe-me, se eu não sou confiante.
Desculpe-me, se eu não sou interessado.
Desculpe-me, se eu não sou alguém que ri do que riem.
Desculpe-me, se eu não sou alguém que gosta do que gostam.
Desculpe-me, se eu não sou interessante.
Desculpe-me, se eu não sou tudo que deveria ter sido.
Desculpe-me, se eu não sou como os outros.
Desculpe-me, se eu não sou.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

21:21

21:21



(...)






Eu queria...



você.



Mas mais importante, queria que você me quisesse.





(...)

21:22

terça-feira, 31 de agosto de 2010

18:18

Eu queria te esquecer. Eu queria nunca ter começado isso. Eu queria ter colocado um ponto final quando pude. Eu queria ter percebido que você não era como eu imaginava. Eu queria poder olhar p'ra trás e sorrir. Eu queria deixar de ser tão estúpido.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Só um segundo.

Um segundo. Um sessenta avos de um minuto. Um três mil e seiscentos avos de uma hora. Um grão de areia d'uma ampulheta. O menor movimento do menor ponteiro do relógio. Uma minúscula fatia do teu dia. Uma gota d'água n'um mar de vinte e quatro horas. Um pedaço quase que sem importância, sem relevância para o nosso dia. O tempo que irá e já foi. Tempo, pouco tempo. Um segundo. Contado nos dedos, escorrendo pelas mãos. Um segundo, que passa sem notarmos. Que passa sem sentirmos. Que passa sem ligarmos. Um segundo, um pequeno segundo. Um segundo, quase nada.
Um segundo. Apenas por um segundo, até por menos que isso. Eu só queria que você soubesse que, mesmo que só por um segundo, você tenha pensado em mim hoje, esse foi o melhor momento do meu dia.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

13:13

Faça um desejo!
Eu quero Julieta.
Pensando bem, ela é bem careta.
Não é ela a quem almejo.

Então quem você quer?
Peço a Matilda,
Mas ela não é meu tipo de mulher.
Prefiro alguém mais divertida.

Escolha logo alguém.
Desejo Marina.
Porém, ela já não mais me anima.
Não me faz tão bem.

Desejo alguém que me faça feliz.
Quem eu quero mesmo é a-13:14

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A cidade à noite.



Sim, a cidade é bonita à noite.
Ela sorri para mim, e sorrio de volta.
Distraio-me por um segundo, e ela me devora.

Sim, a cidade é muito bonita à noite.
Mas seu olhar me parece um perigo,
lembra-me um amor antigo.
Ele me dá a vida, me dá a morte.

Sim, a cidade é linda à noite.
Ela me confunde como ninguém,
numa hora é capaz de me fazer tão bem,
noutra é meu maior açoite.

Sim, a cidade é incrível à noite.
Mas não por tudo que nela se vê,
E sim, porque ela me lembra você.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Final do filme.

O que você faria se soubesse que o final do seu filme é triste?
Se soubesse que o mocinho não termina feliz?
Se soubesse que aquele "até logo" era, na verdade, um "adeus"?
Você tentaria esquecer?
Tentaria aproveitar os bons momentos?
Quanto mais tentamos esquecer, mais lembramos.
O que você faria se soubesse que sua história não tem um "e viveram felizes para sempre?"
Se você soubesse que os bons terminam felizes somente na ficção?
Você tentaria mudar isso?
Tentaria nadar contra a corrente?
Se você soubesse o final do filme.
Você ainda assistiria?
Por que queremos ficar até o final do filme?

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

00:00

00:00

Eu queria poder ser feliz como eu era com você. Quando éramos apenas bons amigos e nada mais. Se há alguém a ser culpado aqui, esse alguém sou eu, eu quis algo mais, não consegui ser apenas seu amigo, e agora nada mais sou, além de passado. Então, só quero mais uma chance, por favor. Eusóqueriatedizerque-

00:01

quarta-feira, 21 de julho de 2010

23:23

23:23
-Deseje algo
-Eu quero...
...quero o quê ?
uhm... eu quero...
...quero quem ?
eu quero ?
quero ficar feliz ?
Mas não me sinto triste.
quero ficar em paz ?
Mas os problemas não me incomodam mais...
quem eu quero ?
O que eu quero ?
quero...
eu quero...
Já sei !
eu quero -
23:24
-Deixa p'ra lá.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Gritar.

Eu queria gritar, queria rabiscar, queria quebrar tudo, queria não ligar p'ra nada. Sair por aí sem rumo, sem problemas, sem medo. Voltar só quando estiver em paz, voltar só quando estiver feliz. Quero viver a vida sem ressentimentos, viver de verdade, não deixar o tempo passar em vão. Sorrir, chorar, gargalhar, tentar, errar, acertar, viver, falhar, sofrer, amar, ser feliz, ser verdadeiro, ser eu mesmo, ser alguém, ser certo, ser errado, sempre ser, ser.

Mas eu não estou gritando.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Perdido.

Ele estava perdido. Perdido n'uma cidade que não conhecia. Sozinho. Desnorteado.
As pessoas falavam uma língua diferente nesse lugar, uma língua que ele não compreendia, impossibilitando-o, assim, de pedir direções. Mas o pior de tudo é que ele não sabia o que perguntaria se pudesse, não sabia de onde veio nem p'ra onde iria, p'ra onde queria ir...
Ele estava perdido, mas perdido por não saber onde estava ? Perdido por não saber onde ir ? Perdido por ser alguém diferente n'um lugar comum, comum para os outros. Ninguém conseguia entender sua confusão, as pessoas não compreendiam como ele conseguia estar perdido, era absurda aquela cena. Mas ele estava perdido, confuso, sozinho, desolado, mesmo que só ele conseguisse ver isso.
Em alguns momentos, alguém até se oferecia para ajudá-lo, mas pelos problemas de comunicação, não passam da intenção.
E assim foi...
E assim está sendo...
E assim será, até ele encontrar seu caminho, até ele se encontrar, só ele, sozinho, como sempre, um dia.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

E vendo o pôr do sol junto de você...

...perguntar-lhe-ei :
-Você está feliz ?
-Não sei, depende de qual aspecto.
Você responder-me-á. Então, eu farei uma cara de sério que não engana ninguém, você disfarçará e rirá comigo.
-No geral, você está feliz ?
-No geral...?
Você perguntará evitando responder o que eu quero ouvir e o que você quer dizer.
-Bom... no geral. No geral, eu tenho você.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

O que eu queria...

o que eu queria?

O que eu queria era um sim, uma chance. Um olhar, um sorriso. O que eu queria era um dia com você, uma oportunidade p'ra fazer o certo. Um carinho, um amor. O que eu queria era um abraço apaixonado, uma promessa de que tudo ficará bem. Uma tarde, um anoitecer com você.

o que eu queria?

O que eu queria era estar com você nesse momento, saber que você também queria estar comigo. Queria poder olhar o luar refletido em seus olhos, poder me aproximar ser receio, ver seu sorriso e saber que eu sou seu motivo. Queria ter um dia sem arrependimentos, que tudo entre nós valeu a pena, que ainda podemos ser felizes juntos. Queria que você soubesse que meus sentimentos por ti são verdadeiros. Queria sentir sua pele macia, queria poder estar ao seu lado, queria que você afastasse de mim as dúvidas e os medos. Queria que comigo você fosse mais forte, que comigo nós fossemos mais forte, que juntos fossemos invencíveis.

o que eu queria?

O que eu queria era um até mais, não um adeus. Queria que você acreditasse quando eu digo que te esperarei, que você não precisa ter pressa. Queria que você não desistisse de mim, pois eu não desisti de ti. Queria que você soubesse que o tempo a gente arranja, com o amor tudo se endireita. Queria o desenho de nossos dedos entrelaçados, n'um dia que nada pode dar errado.

o que eu queria?

O que eu queria, além de você?

Além de você?
o que eu ia querer, além de você

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Você acabou com tudo que tinhamos;

e se passou um minuto, mas eu ainda não consigo acreditar;

e se passou um quarto de hora, e continuo chorando;

e se passou uma hora, contudo eu permaneço sem reação;

e se passou um dia, as lágrimas já foram menos frequentes;

e se passou uma semana, daqui a pouco eu melhoro;

e se passou um mês, nem poderiam dizer que meu coração se partiu;

e se passou um ano, agora não se passa de uma ferida que não incomoda mais;

e se passou uma década, aquele amor adolescente é só mais uma recordação;

e se passou uma vida, por favor, volte!

sábado, 12 de junho de 2010

Acabou

a bebida, a festa, os sorrisos, a alegria, a amizade, eu, você, nós, o amor, eu, você, a felicidade, a esperança, a calma, a paz, a calma, a alegria, a bebida, Felipe, eu, você, nós, o amor, eu, nós, o romance, a festa, os sorrisos, o dia, o ano, a vida, nós, a vida, a bebida, a alegria, você, você... você.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Amor

paixão, afeto, carinho,querer bem, estima, desejo, libido, atração, apetite, loucura, chame do que quiser, mas não chame de finito.

terça-feira, 8 de junho de 2010

No vagão do trem.

"Deixe de pensar nisso, não há nada mais para fazer, agora é com ela, seu destino está nas mãos dela. Caso o desfecho seja desfavorável, e pode ter certeza que as chances disso acontecer são altas, você não precisa parar sua vida por isso. Não deve deixar sua felicidade depender de outrem, a felicidade é sua e só você pode se fazer feliz, sua felicidade não vem de outra pessoa e nem deve vir, fazer isso é só dar um peso que esse alguém não deveria carregar, você pode ser feliz com ou sem ela, com ou sem ela.".
Pensava e repensava, repetia e decorava, porém sabia que eram palavras vazias que colidiam com um coração cheio, e de nada adiantariam além de, por uns poucos segundos, lhe aliviar. Enquanto seu peito não começasse a rugir o nome de sua amada, enquanto em seu interior não voltasse a ecoar todos os sentimentos que por ela cultivava. E logo eles viriam, como uma tempestade que rasga um dia ensolarado sem avisar, para molhar os despreparados e deixar aquele cheiro de chuva de verão, que vem e passa rapidamente, mas não sem deixar algumas poças para avisar que ali esteve.
Voltaram, ao ver aquele casal que poderiam ser ele e ela, ao ler aquela frase que define muito bem sua relação, ao ouvir aquela canção que exprime minuciosamente seus sentimentos. -Tudo me leva a ela, é impossível não pensar em nós-, dizia a si mesmo, embora soubesse que seu coração que estava a moldar tudo, que estava a modificar e ludibriar, a enganar e dissimular. Não era tudo que o fazia pensar nela, era ele que fazia tudo lembrá-la, para assim não ter de a esquecer.
"Deixe de pensar nisso, não há nada mais para fazer, agora é com ela, seu destino está nas mã...", O trem já chegou a estação, e a página do livro não foi passada, nem a página da história dos dois, ela só foi lida e relida, interpretada e lembrada. O trem chegou a estação, e no vagão do trem ficou somente o pensamento de mais um jovem apaixonado.

sábado, 29 de maio de 2010

"Eu sei que disse tanto,

e tanto ainda direi. Mas ouça-me agora, não precisa responder, não precisa pensar sobre, apenas me ouça. Desistir de você seria desistir de mim. Desistir de você seria deistir de ser feliz. Você é a melhor coisa que já me aconteceu, você é incrível. Desde que nos conhecemos, sempre lhe admirei, você tão... você ! Sem ligar para o que os outros pensam, sempre com um sorriso -e que contagiante sorriso- no rosto, não importando o que acontecesse você continuaria com seu positivismo, seu ar inocente, seu jeito alegre. Então, não diga que eu devo simplesmente esquecer tudo isso, não diga que eu devo descartar o que passamos, que eu devo deletar como se meu coração fosse um computador, uma máquina que você simplesmente desliga. Eu não posso e eu não quero lhe deixar p'ra trás, compartilhamos tantos risos, tantos momentos bons, quem commpartilha o bom compartilha o mau e, nesse momento mau, eu quero estar contigo, compartilhar de suas dores, compartilhar de seus problemas para poder achar uma solução, juntos, nós dois. Depois de tanto eu ter de ouvir suposições e achismos, depois de tanto eu ouvir que deveria desencanar de você, devia deixar p'ra lá. Depois de todo esse tempo. Nada disso me importou, afinal, você estava aí para mim. Porém, ouvir isso de você, ouvir de você que é melhor deixar p'ra lá, que é melhor esquecer, que é melhor deixar estar. Não tenho palavras, não adianta o que pensemos, sempre existe algo pior. Eu consigo superar um não, um não gosto de ti, um somos só amigos. Mas não sei se consigo superar isso, precisaria de uma eternidade p'ra esquecer o que passou, de mais uma oportunidade p'ra esquecer meus sentimentos. Mas não importa o tempo que passe, nunca esquecer-lhe-ia, não vês ?! Amo-lhe, amo-lhe intensamente, droga ! Não era p'ra ser assim, o meu primeiro te amo era p'ra ser n'um conto de fadas, ao pôr do sol, n'um dia perfeito, selado com um eu te amo, perfumado com amor. Mas não, não ! N'uma situação dessas tive de proferir tal confissão, pobre de mim de sonhar tão alto, pobre de ti de ser amada por alguém como eu. Eu sei que disse tanto, e tanto ainda direi. Mas só queria lhe dizer que te amo."

E, assim, decorou as palavras que nunca repetiria.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Tomou-me até mesmo o título do post!

Tomou-me a calma do amanhecer e o prazer da noite.
Tomou-me o sabor do chá e o cheiro das flores.
Tomou-me a concentração das aulas e o descanso do sono.
Tomou-me a alegria dos sonhos e o sorriso do rosto.
Tomou-me a paciência dos dias e a diversão dos jogos.
Tomou-me o lazer dos livros e a emoção das poesias.
Tomou-me a melodia das músicas e o fascínio do novo.
Tomou-me o dia; a noite; a alegria; a tristeza; o bom; o mau;
tomou-me tudo!
Tomou-me a vida.
E tudo isso...
simplesmente tomando-me o coração.