domingo, 28 de novembro de 2010

O escravo maia.


V


O casal olhou para trás, no topo da surpresa montanha, ao ouvir a voz desconhecida. O que os dois encontraram foi um lindo jovem montado num nobre alazão. O cavalo tinha uma tonalidade brilhante, possuindo uma profunda cor ouro-avermelhada, sua crina e cauda eram de um castanho quase palha. Tinha algumas pintas castanhas e seu corpo era coberto por uma cela malva com detalhes em dourado. Seu rosto estava protegido por uma proteção prata e tinha um ar de imponência e excitação. O homem montado nele era ainda mais belo, e juntos faziam uma combinação fabulosa. Seus dourados e compridos cabelos, que tombavam por cima de seus largos ombros, eram mais brilhantes e macios que a crina do animal. Seu sorriso era agridoce e misterioso; mistério, esse, que acompanhava o olhar decidido e leviano do jovem. Seu rosto tinha um formato ligeiramente pontiagudo; e sua pele era branca e delicada como algodão, suas finas sobrancelhas davam ao seu rosto uma feição sedutora e perigosa. O rapaz era alto e lânguido, seu corpo estava coberto por um vestido brilhante em tons de vermelho e verde, com a saia abrindo volumosa pelos lados. Usava uma calça branca curta e sapatos negros cor-de-carvão. A pose que fazia montado no eqüino era digna de um rei, e sua aura era intensa. Ele sorria e se aproximava cada vez mais dos dois jovens, até que parou a alguns metros e desceu do cavalo com a graça de um beija-flôr que paira no ar. Caminhou lentamente rumando o casal, como se bailasse para o sol que preparava-se para dormir. Pé ante pé ele ia até os jovens, seu olhar estava fixo no jovem escravo que permanecia sentado, observando o misterioso rapaz. Quando ficou frente a frente com os dois, seu sorriso abriu-se como a cauda dum pavão, seus dentes brilharam assim como seus olhos esmeraldinos. Num gesto de respeito curvou-se e sobre um joelho, estendeu sua mão ao bronzeado rapaz que até então nada entendia.
- O filho do famoso general, é uma honra conhecer-te. - Disse, então, com os olhos voltados ao chão.
- O quê... o que você faz aqui!? - Indagou o garoto confuso.
- Bom, eu estou te procurando há quase uma semana, já faz algum tempo que observo-te, tens chamado minha atenção. - Respondeu com um sorriso cítrico.
- Eu?! O que eu fiz para chamar a atenção do príncipe?! - Cuspi duma vez o garoto levantando-se.
- Acalma-te. Eu só quero te fazer uma proposta. Quero que trabalhes para mim. - Disse o belo príncipe com uma voz dócil.
- Trabalhar para você? Agora entendo tudo, como as notícias correm rápido por aqui. Pena que chegaram erradas até ti, príncipe, eu fui sim convidado para ser o novo general de nossas forças, mas eu recusei. Sinto lhe informar, mas terá de procurar outro. - Desabafou com um tom ríspido, atacando o jovem à sua frente.
- Perdoe-me, não fui muito claro. Admito que soube da proposta que recebera, porém acredito que já tenhas ouvido que não sou entusiasta das armas, que prefiro a arte. E, se já chegou a teus ouvidos essa informação, saibas que é inteiramente verídica, por isso digo que não te quero para o batalhão da realeza. Não, não, o exército pode esperar, quem se importa com isso? Desde que me lembro, vencemos suas "forças" sem um pingo de suor, não é necessário se empenhar tanto com isso. Mas se veres como está o meu castelo! Ai, Deus! O castelo do senhor de todo esse lugar, o lar da família real, tão empobrecido, sem uma estátua sequer, sem brilho, sem cor, sem romance, sem quadros! Já não era hora do retrógrado do meu pai se aposentar, era só de guerra que ele queria saber, de vencer, conquistar, dominar. Dominar o quê? Se não podemos desfrutar das belezas dessa terras? Se não podemos nos abestar com os tesouros que descobrimos? Com efeito, agora que ele se foi, terei de reformular tudo, moldar ao meu bel-prazer. Preciso dar vida àquele lugar, preciso de um modelo para minhas esculturas, de uma musa para meus quadros, e é por isso que eu venho aqui, pessoalmente, convidar-te para ser meu modelo, convidar-te para ser minha obra-prima! - E, ao terminar, ajoelhou-se e segurou com força as mãos do jovem maia, olhou em seus olhos, o brilho que podia ser visto neles era sincero e inocente.
- Você quer que eu vá para à terra dos cristãos servir-te de modelo? Quer que eu seja só um corpo que você descartará quando eu tiver murchado? Quer apenas usar minha beleza que logo se acaba? É isso? - Disse o jovem, enfurecido.
- Não coloque dessa maneira, tua beleza também vem do interior, observo-te há algum tempo, vejo como batalhas para ser o melhor, para chegar ao topo, pense em ti também. Ninguém está acima da família real, e tu estarás com ela. Que dize-me? Aceitas? Ou darás a mesma resposta que teu pai deu ao meu? Não sejas tolo! Sabes que é o que nós dois queremos, venha comigo! - O príncipe exclamou subindo novamente no cavalo que aguardava tranquilamente e estendendo a mão ao garoto.
O jovem olhou para sua amada que, até então, nada dissera, ela tinha medo no olhar, estava confusa, embora não tivesse presenciado a primeira cena, não gostaria de ver uma repetição de fatos. Se ele recusasse, corria o risco de ter o mesmo fim que seu pai. Ela se levantou e abraçou forte sua cintura, como costumava fazer. Ele olhou para o rapaz que aguardava uma resposta. Os três se entreolhavam no topo da confusa e perigosa montanha.
- Sua proposta é tentadora... - disse o rapaz friamente - mas...


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