quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

24 de Janeiro de 1999. (Pessimismo)

Eu não quero que ela termine comigo!

— Alô? Tiago? Ela quem? Do que tu tá falando, cara?
— A garota com quem venho saindo, Lúcio, ela não quer nada sério comigo, nos vemos quase todos os dias, mas sei que ela não quer nada comigo, por que ela faz isso? Que droga.
— Ela não quer namorar contigo, mas continua te vendo? Realmente, é confuso. 
— Na verdade, eu não a pedi em namoro, Lúcio, ela recusaria, mesmo que aceitasse, terminaria comigo e me deixaria arrasado.
— Tiago, se não namoram, e sequer a pediu em namoro, como tu me diz que não quer que ela termine?
— O copo está 1/3 vazio, Lúcio.
— O quê?
— Não está 2/3 cheio, o verdadeiro pessimista vê o copo 1/3 vazio, é preciso talento pra essas coisas, sabe?.
— Ah, por favor, deixe de tolice. Conte-me dessa garota, como ela é afinal?
— Ela não é normal, não tem nada que a destaque, é um pouco mais baixa que a média; um pouco irritante e certamente beijá-la não é o paraíso, mas ela gosta de mim; ela ri do que falo - ri comigo -; ela parece feliz quando olha nos meus olhos quando estamos juntos; ela parece que adora sim me beijar, minha boca chega a doer de tanto beijo que me dá.
— E tu não queria que ela terminasse contigo a princípio? Parece que nem ao menos gosta dela, não te entendo.
— Ei, eu gosto sim, você quem perguntou como ela era. Lúcio, péra aí, tem outra ligação, vou atender, continua na linha. Alô, quem é?
— Acho que não deu certo, Tiago, ainda estou aqui.
— Agora vai.

— Lúcio, eu não quero que ela termine comigo!, ela vai partir meu coração!
— Tiago, por mil diabos, contenha-se, não acabamos de ter essa conversa?
— Era ela na outra linha, ela está vindo pra cá, perguntei se ela queria namorar comigo e ela aceitou.
— Tu a pediu em namoro por telefone? 
— É mesmo! Mas que droga, eu faço tudo errado, sou um namorado péssimo, mereço mesmo que ela termine comigo! Na verdade, pode até me fazer bem, tanto para aprender a ser melhor, como na profissão. Sim, eu mereço que ela parta meu coração, não mereço nada mais que isso, um coração partido e novas expectavivas pessimistas, esperanças frustradas.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

365

Se eu olhasse para o eu de 365 dias atrás,
riria de seu nervosismo,
se eu olhasse para o eu de 365 dias atrás,
diria pra ir em frente, pois acredito que poderíamos ter mais 133225 dias juntos.

domingo, 12 de janeiro de 2014

14 de novembro de 1998. (Cigarros)

Seu cigarro crepitava,
o lápis rodopiava pelos meus dedos.
Pitava-o para fora da janela,
eu mordia sua ponta.


Entediada, soltava a fumaça em direção à rua, aos carros.
Pegava mais um cigarro, colocava na boca e me observava por segundos,
os olhos reviravam para o alto, depois voltavam para o cigarro.
Acendia o isqueiro, o olhar chicoteava para mim, para o isqueiro,
eu não acendia.
Permanecia apagado.


Risquei os dois únicos versos que escrevi,
não prestavam,
não presto,
não prestas.


Arranquei a folha em que escrevi,
levantei.
Me passou um cigarro, acendeu.


Tossi com a fumaça que entrou em meus pulmões,
era nojento.


Ria de mim, o olhar evasivo,
ria de mim, o sorriso se aproximando.


Eu não era criança há tempo, mas me sentia como uma,
um guri que descobre o mundo.
E descobri tua boca, teus lábios.


Quando te beijei depois de tantos cigarros,
senti algo que nunca sentira antes,
como se enfiasse a língua num escapamento de carro.
Nojento,
foi nojento.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

13 de Novembro de 1998

O ano era 1998, me lembro porque o Seu Arnaldo, porteiro do prédio e um dos meus únicos amigos - se é que posso chamar alguém com quem converso por 10 minutos de amigo - nessa cidade continuava desanimado, nossas conversas ficaram ainda mais escassas. Eu tinha de tomar cuidado, não podia mais falar sobre o jogo de domingo, sequer mencionar a existência do futebol. Seu Arnaldo ainda não tinha se recuperado do fracasso da seleção na Copa. 
O ano era 1998 e o mês era Novembro.
13 de Novembro, para ser mais preciso, aniversário de Lúcio, meu irmão mais velho. O primeiro aniversário dele que passamos separados, antes de sair de casa tentei telefonar, mas ele não atendeu. "Mais tarde eu ligo."
Eu acordei cedo nesse dia, ainda não tivera nenhum sucesso correndo atrás do meu sonho, e ia para mais uma reunião que eu sabia que não daria certo, mas eu tinha de tentar. Tinha certeza de que voltaria com as mãos abanando, eu precisava de muita sorte para conseguir e, certamente, não seria hoje que eu seria sortudo.
Eu estava num boteco sujo, com alguma música indecifrável em meio a tantos chiados tocando num rádio ao fundo. Bebia cerveja quente, num copo trincado, sentado numa cadeira de plástico. Tinha um sorriso enorme no rosto. Eu não acreditava que tinha conseguido, eu não acreditava que finalmente as coisas estavam dando certo, entrei no primeiro bar que vi para poder celebrar. 
As moscas que voavam ao meu redor me incomodaram um pouco, e tentando acertar uma acabei quebrando meu copo, mas meu ânimo não se alterou, quando o dono do bar estava me xingando e eu limpava a sujeira com um pano de chão encardido, ela apareceu.
Tão Pequenina, tão delicada tinha os olhos grandes como uma coruja, o cabelo negro escondia-lhe metade do rosto. Com o olhar baixo titubeou antes de perguntar, uma voz melódica e doce sobrepujou os insultos do velho: "alguém sabe como eu chego ao teatro municipal?"
O velho parou surpreso, não a tinha visto entrar, escarrou com gosto antes de dizer com amargura "não sei e tenho raiva de quem sabe!", ela pediu desculpas, sua voz quase sumida, e saiu do boteco. Levantei rapidamente, deixei uma nota de dez reais na bancada e fui atrás dela, eu sabia como chegar lá, mas não queria que o dono do bar tivesse raiva de mim.
"Ei, eu sei chegar lá", falei ao alcançá-la. Ela me abriu um sorriso de dentes pequeninos como estrelas distantes, envoltos em lábios róseos, a face corada "como eu chego?", "posso te levar?" perguntei, me arrependendo em seguida, nunca fui atirado. Ela balançou a cabeça concordando e eu percebi que aquele era certamente meu dia de sorte.
Era sexta-feira, eu me lembro porque todos dizem que era um dia de azar, mas não para mim.