terça-feira, 7 de janeiro de 2014

13 de Novembro de 1998

O ano era 1998, me lembro porque o Seu Arnaldo, porteiro do prédio e um dos meus únicos amigos - se é que posso chamar alguém com quem converso por 10 minutos de amigo - nessa cidade continuava desanimado, nossas conversas ficaram ainda mais escassas. Eu tinha de tomar cuidado, não podia mais falar sobre o jogo de domingo, sequer mencionar a existência do futebol. Seu Arnaldo ainda não tinha se recuperado do fracasso da seleção na Copa. 
O ano era 1998 e o mês era Novembro.
13 de Novembro, para ser mais preciso, aniversário de Lúcio, meu irmão mais velho. O primeiro aniversário dele que passamos separados, antes de sair de casa tentei telefonar, mas ele não atendeu. "Mais tarde eu ligo."
Eu acordei cedo nesse dia, ainda não tivera nenhum sucesso correndo atrás do meu sonho, e ia para mais uma reunião que eu sabia que não daria certo, mas eu tinha de tentar. Tinha certeza de que voltaria com as mãos abanando, eu precisava de muita sorte para conseguir e, certamente, não seria hoje que eu seria sortudo.
Eu estava num boteco sujo, com alguma música indecifrável em meio a tantos chiados tocando num rádio ao fundo. Bebia cerveja quente, num copo trincado, sentado numa cadeira de plástico. Tinha um sorriso enorme no rosto. Eu não acreditava que tinha conseguido, eu não acreditava que finalmente as coisas estavam dando certo, entrei no primeiro bar que vi para poder celebrar. 
As moscas que voavam ao meu redor me incomodaram um pouco, e tentando acertar uma acabei quebrando meu copo, mas meu ânimo não se alterou, quando o dono do bar estava me xingando e eu limpava a sujeira com um pano de chão encardido, ela apareceu.
Tão Pequenina, tão delicada tinha os olhos grandes como uma coruja, o cabelo negro escondia-lhe metade do rosto. Com o olhar baixo titubeou antes de perguntar, uma voz melódica e doce sobrepujou os insultos do velho: "alguém sabe como eu chego ao teatro municipal?"
O velho parou surpreso, não a tinha visto entrar, escarrou com gosto antes de dizer com amargura "não sei e tenho raiva de quem sabe!", ela pediu desculpas, sua voz quase sumida, e saiu do boteco. Levantei rapidamente, deixei uma nota de dez reais na bancada e fui atrás dela, eu sabia como chegar lá, mas não queria que o dono do bar tivesse raiva de mim.
"Ei, eu sei chegar lá", falei ao alcançá-la. Ela me abriu um sorriso de dentes pequeninos como estrelas distantes, envoltos em lábios róseos, a face corada "como eu chego?", "posso te levar?" perguntei, me arrependendo em seguida, nunca fui atirado. Ela balançou a cabeça concordando e eu percebi que aquele era certamente meu dia de sorte.
Era sexta-feira, eu me lembro porque todos dizem que era um dia de azar, mas não para mim.

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