04:04
Nossa, como eu queria que esse sonho se tornasse realidade!...
04:05
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
domingo, 28 de novembro de 2010
O escravo maia.
V
O casal olhou para trás, no topo da surpresa montanha, ao ouvir a voz desconhecida. O que os dois encontraram foi um lindo jovem montado num nobre alazão. O cavalo tinha uma tonalidade brilhante, possuindo uma profunda cor ouro-avermelhada, sua crina e cauda eram de um castanho quase palha. Tinha algumas pintas castanhas e seu corpo era coberto por uma cela malva com detalhes em dourado. Seu rosto estava protegido por uma proteção prata e tinha um ar de imponência e excitação. O homem montado nele era ainda mais belo, e juntos faziam uma combinação fabulosa. Seus dourados e compridos cabelos, que tombavam por cima de seus largos ombros, eram mais brilhantes e macios que a crina do animal. Seu sorriso era agridoce e misterioso; mistério, esse, que acompanhava o olhar decidido e leviano do jovem. Seu rosto tinha um formato ligeiramente pontiagudo; e sua pele era branca e delicada como algodão, suas finas sobrancelhas davam ao seu rosto uma feição sedutora e perigosa. O rapaz era alto e lânguido, seu corpo estava coberto por um vestido brilhante em tons de vermelho e verde, com a saia abrindo volumosa pelos lados. Usava uma calça branca curta e sapatos negros cor-de-carvão. A pose que fazia montado no eqüino era digna de um rei, e sua aura era intensa. Ele sorria e se aproximava cada vez mais dos dois jovens, até que parou a alguns metros e desceu do cavalo com a graça de um beija-flôr que paira no ar. Caminhou lentamente rumando o casal, como se bailasse para o sol que preparava-se para dormir. Pé ante pé ele ia até os jovens, seu olhar estava fixo no jovem escravo que permanecia sentado, observando o misterioso rapaz. Quando ficou frente a frente com os dois, seu sorriso abriu-se como a cauda dum pavão, seus dentes brilharam assim como seus olhos esmeraldinos. Num gesto de respeito curvou-se e sobre um joelho, estendeu sua mão ao bronzeado rapaz que até então nada entendia.
- O filho do famoso general, é uma honra conhecer-te. - Disse, então, com os olhos voltados ao chão.
- O quê... o que você faz aqui!? - Indagou o garoto confuso.
- Bom, eu estou te procurando há quase uma semana, já faz algum tempo que observo-te, tens chamado minha atenção. - Respondeu com um sorriso cítrico.
- Eu?! O que eu fiz para chamar a atenção do príncipe?! - Cuspi duma vez o garoto levantando-se.
- Acalma-te. Eu só quero te fazer uma proposta. Quero que trabalhes para mim. - Disse o belo príncipe com uma voz dócil.
- Trabalhar para você? Agora entendo tudo, como as notícias correm rápido por aqui. Pena que chegaram erradas até ti, príncipe, eu fui sim convidado para ser o novo general de nossas forças, mas eu recusei. Sinto lhe informar, mas terá de procurar outro. - Desabafou com um tom ríspido, atacando o jovem à sua frente.
- Perdoe-me, não fui muito claro. Admito que soube da proposta que recebera, porém acredito que já tenhas ouvido que não sou entusiasta das armas, que prefiro a arte. E, se já chegou a teus ouvidos essa informação, saibas que é inteiramente verídica, por isso digo que não te quero para o batalhão da realeza. Não, não, o exército pode esperar, quem se importa com isso? Desde que me lembro, vencemos suas "forças" sem um pingo de suor, não é necessário se empenhar tanto com isso. Mas se veres como está o meu castelo! Ai, Deus! O castelo do senhor de todo esse lugar, o lar da família real, tão empobrecido, sem uma estátua sequer, sem brilho, sem cor, sem romance, sem quadros! Já não era hora do retrógrado do meu pai se aposentar, era só de guerra que ele queria saber, de vencer, conquistar, dominar. Dominar o quê? Se não podemos desfrutar das belezas dessa terras? Se não podemos nos abestar com os tesouros que descobrimos? Com efeito, agora que ele se foi, terei de reformular tudo, moldar ao meu bel-prazer. Preciso dar vida àquele lugar, preciso de um modelo para minhas esculturas, de uma musa para meus quadros, e é por isso que eu venho aqui, pessoalmente, convidar-te para ser meu modelo, convidar-te para ser minha obra-prima! - E, ao terminar, ajoelhou-se e segurou com força as mãos do jovem maia, olhou em seus olhos, o brilho que podia ser visto neles era sincero e inocente.
- Você quer que eu vá para à terra dos cristãos servir-te de modelo? Quer que eu seja só um corpo que você descartará quando eu tiver murchado? Quer apenas usar minha beleza que logo se acaba? É isso? - Disse o jovem, enfurecido.
- Não coloque dessa maneira, tua beleza também vem do interior, observo-te há algum tempo, vejo como batalhas para ser o melhor, para chegar ao topo, pense em ti também. Ninguém está acima da família real, e tu estarás com ela. Que dize-me? Aceitas? Ou darás a mesma resposta que teu pai deu ao meu? Não sejas tolo! Sabes que é o que nós dois queremos, venha comigo! - O príncipe exclamou subindo novamente no cavalo que aguardava tranquilamente e estendendo a mão ao garoto.
O jovem olhou para sua amada que, até então, nada dissera, ela tinha medo no olhar, estava confusa, embora não tivesse presenciado a primeira cena, não gostaria de ver uma repetição de fatos. Se ele recusasse, corria o risco de ter o mesmo fim que seu pai. Ela se levantou e abraçou forte sua cintura, como costumava fazer. Ele olhou para o rapaz que aguardava uma resposta. Os três se entreolhavam no topo da confusa e perigosa montanha.
- Sua proposta é tentadora... - disse o rapaz friamente - mas...
- O filho do famoso general, é uma honra conhecer-te. - Disse, então, com os olhos voltados ao chão.
- O quê... o que você faz aqui!? - Indagou o garoto confuso.
- Bom, eu estou te procurando há quase uma semana, já faz algum tempo que observo-te, tens chamado minha atenção. - Respondeu com um sorriso cítrico.
- Eu?! O que eu fiz para chamar a atenção do príncipe?! - Cuspi duma vez o garoto levantando-se.
- Acalma-te. Eu só quero te fazer uma proposta. Quero que trabalhes para mim. - Disse o belo príncipe com uma voz dócil.
- Trabalhar para você? Agora entendo tudo, como as notícias correm rápido por aqui. Pena que chegaram erradas até ti, príncipe, eu fui sim convidado para ser o novo general de nossas forças, mas eu recusei. Sinto lhe informar, mas terá de procurar outro. - Desabafou com um tom ríspido, atacando o jovem à sua frente.
- Perdoe-me, não fui muito claro. Admito que soube da proposta que recebera, porém acredito que já tenhas ouvido que não sou entusiasta das armas, que prefiro a arte. E, se já chegou a teus ouvidos essa informação, saibas que é inteiramente verídica, por isso digo que não te quero para o batalhão da realeza. Não, não, o exército pode esperar, quem se importa com isso? Desde que me lembro, vencemos suas "forças" sem um pingo de suor, não é necessário se empenhar tanto com isso. Mas se veres como está o meu castelo! Ai, Deus! O castelo do senhor de todo esse lugar, o lar da família real, tão empobrecido, sem uma estátua sequer, sem brilho, sem cor, sem romance, sem quadros! Já não era hora do retrógrado do meu pai se aposentar, era só de guerra que ele queria saber, de vencer, conquistar, dominar. Dominar o quê? Se não podemos desfrutar das belezas dessa terras? Se não podemos nos abestar com os tesouros que descobrimos? Com efeito, agora que ele se foi, terei de reformular tudo, moldar ao meu bel-prazer. Preciso dar vida àquele lugar, preciso de um modelo para minhas esculturas, de uma musa para meus quadros, e é por isso que eu venho aqui, pessoalmente, convidar-te para ser meu modelo, convidar-te para ser minha obra-prima! - E, ao terminar, ajoelhou-se e segurou com força as mãos do jovem maia, olhou em seus olhos, o brilho que podia ser visto neles era sincero e inocente.
- Você quer que eu vá para à terra dos cristãos servir-te de modelo? Quer que eu seja só um corpo que você descartará quando eu tiver murchado? Quer apenas usar minha beleza que logo se acaba? É isso? - Disse o jovem, enfurecido.
- Não coloque dessa maneira, tua beleza também vem do interior, observo-te há algum tempo, vejo como batalhas para ser o melhor, para chegar ao topo, pense em ti também. Ninguém está acima da família real, e tu estarás com ela. Que dize-me? Aceitas? Ou darás a mesma resposta que teu pai deu ao meu? Não sejas tolo! Sabes que é o que nós dois queremos, venha comigo! - O príncipe exclamou subindo novamente no cavalo que aguardava tranquilamente e estendendo a mão ao garoto.
O jovem olhou para sua amada que, até então, nada dissera, ela tinha medo no olhar, estava confusa, embora não tivesse presenciado a primeira cena, não gostaria de ver uma repetição de fatos. Se ele recusasse, corria o risco de ter o mesmo fim que seu pai. Ela se levantou e abraçou forte sua cintura, como costumava fazer. Ele olhou para o rapaz que aguardava uma resposta. Os três se entreolhavam no topo da confusa e perigosa montanha.
- Sua proposta é tentadora... - disse o rapaz friamente - mas...
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
O escravo maia.
IV
Dois anos mais tarde, encontramos, como de costume, o garoto - agora quase um homem - no topo da segura e isolada montanha. Entretanto, ao contrário do que estamos habituados, ele raramente é encontrado lá. Somente dirige-se ao seu forte quando necessita de paz, de si mesmo. Lá embaixo, no vilarejo, ocorria uma festa que se estendia pelos últimos seis dias. A população celebrava a morte do opressor rei. E tinha esperança de que, com a tomada do primogênito do falecido monarca, conhecido pela natureza dócil e amistosa, a vida dos pagãos melhorasse.
Já o rapaz-homem não estava certo do que sentia. Uma parte dele estava feliz com a morte do responsável pelo assasínio de seu pai. Outra decepcionada por não ter sido ele o vingador da honra de sua família. E uma terceira parte triste pelo fim daquele que deu uma oportunidade de uma nova vida ao seu pai, que tolamente recusou e acabou sem vida nova ou velha. Mas esperança de mudança não estava presente no seu coração. "O mundo não muda, só os rostos." ele costumava dizer e, por isso, julgava que se ele quisesse uma oportunidade, teria de caçá-la com suas próprias mãos.
O semi-adulto retornou à sua casa somente na manhã do dia seguinte, quando o sol ainda aparecia vagarosamente, com sono. Era uma casa simples, apesar de ser uma das melhores da cidade, tinha estruturas de madeira, as paredes eram feitas de adobe e a cobertura de palha. Era amplamente ornada com orquídeas e margaridas, que davam um ar primaveral à residência. Aqui e ali eram encontrados troféus das batalhas que o general travara. Na sala principal, encontrava-se um jarro que recebera como gratificação por ter salvo o filho do líder da tribo, nela eram encontradas vivas rosas vermelhas, as únicas do humilde mas aconchegante lar. Na parede frontal do cômodo, estavam penduradas a lança e escudo prediletos do honroso soldado: a lança era uma pique com cerca de três metros de comprimento, com a base de pinho, ocupando duas partes da arma, e uma ponta rígida e afiada de mogno. O escudo tinha o formato da lua cheia, com um metro de raio, feito de carvalho e com um símbolo da junção do Sol com a Lua entalhado no centro dele. No quarto de sua mãe encontrava-se uma pilha de tecidos que servia de cama e, no encontro das paredes, um vaso de barro com a silhueta torta, acabamento precário e com pinturas quase que infantis. Vaso esse que seu pai fizera sozinho, ainda jovem, para impressionar uma garota que ele imaginava que gostaria dessas coisas rebuscadas, entretanto, apaixonou-se por ele simplesmente pelo ato genuíno, e hoje essa garota sempre dorme observando o vaso feito há anos. No cômodo onde o jovem casal dormia, o mesmo cenário era desenhado: uma pilha de tecidos, uma pontiaguda rocha tingida com o sangue da testa do rapaz e algumas flôres que o jovem costumava trazer para a garota.
- Bom dia. - Ele disse com um ar cansado para as duas mulheres que conversavam na sala principal.
A menina levantou-se agitada e com preocupação na voz disse:
- Onde esteves? Estavas a celebrar até essa hora? Por que não voltastes? - Sua face estava rósea e seus olhos de lagoa estavam principiando a se tornarem cachoeiras.
- Eu estava... na montanha, pensando nisso tudo. Desculpem-me por não avisar. - Disse o jovem sem olhar para a amante.
- Tudo bem, filho. É sempre bom ter um tempo para nós mesmos, damos tanto aos outros que o que nos resta são só as migalhas. - Disse a mãe do garoto com calma e serenidade.
- Estás feliz com a morte do rei? Achas que as coisas mudarão? - A garota indagou acalmando-se.
- Mudarão, mas não por isso, e sim porque eu as mudarei. - Disse o rapaz com um tom sério e grave.
- Ontem a noite, vieram aqueles dois simpáticos rapazes do batalhão perguntar de você... eles estavam excitados, é melhor procurá-los. - Disse a dona da casa.
- Eu os vi ontem a noite, enquanto pensava nisso tudo. Eles... eles disseram que eu fui convidado a ser general. - O jovem homem disse devagar, observando a reação de suas palavras.
- General?! - A garota que conseguira aquietar-se levantou-se n'um pulo e com um abraço apertado na cintura do jovem completou - Você será general!! Como seu pai, você será general, eu sabia que seu esforço seria recompensado.
A dama mais madura nada respondeu, enquanto tomava seu chá verde somente parou, olhou para o chão, olhou para o filho e deixou seus olhos marejarem. O fim de seus lábios curvou-se n'um tímido sorriso e continuou sentada.
- Na verdade... eu recusei. - O homem-menino disse baixo, enquanto sentava-se ao lado da mãe.
- Tudo bem... tudo bem... sua hora ainda vai chegar. - Ela disse e foi para seu quarto.
- Por quê? Por quê?! Deixes de egoísmo, tu sabes que será bom se aceitares!! - A garota exclamou.
- Você não entende... eles só me pediram isso pois meu pai foi o grande general do vilarejo. Eu sou forte, mas não sou moderado e inteligente como ele. Estava implícito que eu deveria recusar. - O garoto respondeu acomodando-se n'um monte de palha.
- Eu não entendo?! Você que não entende como isso nos ajudaria! - E saiu pela porta com uma fúria em seus pés ruidosamente batiam no chão.
O jovem aguardou três quartos de hora e, ao notar que ela não voltaria tão cedo, foi buscá-la. Procurou na casa de algumas amigas e perto da saída da vila, porém sabia que encontra-la-ia no topo da chorosa e amarga montanha.
Lá em cima, o jovem sentou-se ao lado da garota, que fingiu não notar sua presença. No topo da montanha irritadiça e sensível montanha os dois estavam sentados lado-a-lado como no primeiro dia que se conheceram, até que ouviram alguém se aproximando n'um cavalo.
- Se não é o famoso filho do general. - Disse uma voz aveludada e venenosa que ecoava no topo da tumultuada montanha.
Já o rapaz-homem não estava certo do que sentia. Uma parte dele estava feliz com a morte do responsável pelo assasínio de seu pai. Outra decepcionada por não ter sido ele o vingador da honra de sua família. E uma terceira parte triste pelo fim daquele que deu uma oportunidade de uma nova vida ao seu pai, que tolamente recusou e acabou sem vida nova ou velha. Mas esperança de mudança não estava presente no seu coração. "O mundo não muda, só os rostos." ele costumava dizer e, por isso, julgava que se ele quisesse uma oportunidade, teria de caçá-la com suas próprias mãos.
O semi-adulto retornou à sua casa somente na manhã do dia seguinte, quando o sol ainda aparecia vagarosamente, com sono. Era uma casa simples, apesar de ser uma das melhores da cidade, tinha estruturas de madeira, as paredes eram feitas de adobe e a cobertura de palha. Era amplamente ornada com orquídeas e margaridas, que davam um ar primaveral à residência. Aqui e ali eram encontrados troféus das batalhas que o general travara. Na sala principal, encontrava-se um jarro que recebera como gratificação por ter salvo o filho do líder da tribo, nela eram encontradas vivas rosas vermelhas, as únicas do humilde mas aconchegante lar. Na parede frontal do cômodo, estavam penduradas a lança e escudo prediletos do honroso soldado: a lança era uma pique com cerca de três metros de comprimento, com a base de pinho, ocupando duas partes da arma, e uma ponta rígida e afiada de mogno. O escudo tinha o formato da lua cheia, com um metro de raio, feito de carvalho e com um símbolo da junção do Sol com a Lua entalhado no centro dele. No quarto de sua mãe encontrava-se uma pilha de tecidos que servia de cama e, no encontro das paredes, um vaso de barro com a silhueta torta, acabamento precário e com pinturas quase que infantis. Vaso esse que seu pai fizera sozinho, ainda jovem, para impressionar uma garota que ele imaginava que gostaria dessas coisas rebuscadas, entretanto, apaixonou-se por ele simplesmente pelo ato genuíno, e hoje essa garota sempre dorme observando o vaso feito há anos. No cômodo onde o jovem casal dormia, o mesmo cenário era desenhado: uma pilha de tecidos, uma pontiaguda rocha tingida com o sangue da testa do rapaz e algumas flôres que o jovem costumava trazer para a garota.
- Bom dia. - Ele disse com um ar cansado para as duas mulheres que conversavam na sala principal.
A menina levantou-se agitada e com preocupação na voz disse:
- Onde esteves? Estavas a celebrar até essa hora? Por que não voltastes? - Sua face estava rósea e seus olhos de lagoa estavam principiando a se tornarem cachoeiras.
- Eu estava... na montanha, pensando nisso tudo. Desculpem-me por não avisar. - Disse o jovem sem olhar para a amante.
- Tudo bem, filho. É sempre bom ter um tempo para nós mesmos, damos tanto aos outros que o que nos resta são só as migalhas. - Disse a mãe do garoto com calma e serenidade.
- Estás feliz com a morte do rei? Achas que as coisas mudarão? - A garota indagou acalmando-se.
- Mudarão, mas não por isso, e sim porque eu as mudarei. - Disse o rapaz com um tom sério e grave.
- Ontem a noite, vieram aqueles dois simpáticos rapazes do batalhão perguntar de você... eles estavam excitados, é melhor procurá-los. - Disse a dona da casa.
- Eu os vi ontem a noite, enquanto pensava nisso tudo. Eles... eles disseram que eu fui convidado a ser general. - O jovem homem disse devagar, observando a reação de suas palavras.
- General?! - A garota que conseguira aquietar-se levantou-se n'um pulo e com um abraço apertado na cintura do jovem completou - Você será general!! Como seu pai, você será general, eu sabia que seu esforço seria recompensado.
A dama mais madura nada respondeu, enquanto tomava seu chá verde somente parou, olhou para o chão, olhou para o filho e deixou seus olhos marejarem. O fim de seus lábios curvou-se n'um tímido sorriso e continuou sentada.
- Na verdade... eu recusei. - O homem-menino disse baixo, enquanto sentava-se ao lado da mãe.
- Tudo bem... tudo bem... sua hora ainda vai chegar. - Ela disse e foi para seu quarto.
- Por quê? Por quê?! Deixes de egoísmo, tu sabes que será bom se aceitares!! - A garota exclamou.
- Você não entende... eles só me pediram isso pois meu pai foi o grande general do vilarejo. Eu sou forte, mas não sou moderado e inteligente como ele. Estava implícito que eu deveria recusar. - O garoto respondeu acomodando-se n'um monte de palha.
- Eu não entendo?! Você que não entende como isso nos ajudaria! - E saiu pela porta com uma fúria em seus pés ruidosamente batiam no chão.
O jovem aguardou três quartos de hora e, ao notar que ela não voltaria tão cedo, foi buscá-la. Procurou na casa de algumas amigas e perto da saída da vila, porém sabia que encontra-la-ia no topo da chorosa e amarga montanha.
Lá em cima, o jovem sentou-se ao lado da garota, que fingiu não notar sua presença. No topo da montanha irritadiça e sensível montanha os dois estavam sentados lado-a-lado como no primeiro dia que se conheceram, até que ouviram alguém se aproximando n'um cavalo.
- Se não é o famoso filho do general. - Disse uma voz aveludada e venenosa que ecoava no topo da tumultuada montanha.
domingo, 21 de novembro de 2010
O escravo maia.
III
No alto do penhasco amistoso e colorido estavam os recentes amigos deitados e conversando enquanto observavam as nuvens.
-É... eu nunca me senti... assim, sabes? Pertecente a algum lugar. -confidenciou a pequena garota com o céu refletido nos olhos.
-Você sente que pertence... a uma montanha? -indagou com ar de deboche o garoto sorrindo.
-Tu entendestes! Pertencente àqui. A... "nós". -respondeu a menina avermelhando como de costume.
-É... eu nunca me senti... assim, sabes? Pertecente a algum lugar. -confidenciou a pequena garota com o céu refletido nos olhos.
-Você sente que pertence... a uma montanha? -indagou com ar de deboche o garoto sorrindo.
-Tu entendestes! Pertencente àqui. A... "nós". -respondeu a menina avermelhando como de costume.
-Entendi sim... na verdade, eu também me sentia assim. Eu sempre fui rejeitado por ser meio cristão... imagino você, uma cristã filha de dois pagãos. Procurando casa e comida de vila em vila... deve ter sido... difícil. -disse com uma rara empatia.
-Foi sim, não mentirei para ti. Foi difícil, muitas vezes eu queria chorar, queria nunca ter nascido, queria nunca ter sido adotada pelos meus pais, mas hoje eu vejo que valeu a pena... eu encontrei um lugar que eu posso chamar de casa, eu encontrei... você.
-Antes, bem antes... eu era feliz. Eu estava acostumado com a vida de escravo. Eu aceitava que era só isso que eu teria da minha vida, e que eu devia aprender a ser feliz assim. Mas aconteceram algumas coisas que me fizeram mudar... e eu deixei de ser feliz. Só que você me fez sorrir de novo, obrigado.
-Haha, deixa de melice, você só me encontrou porque queria bater em alguém, e porque eu era uma "donzela em perigo". Você queria bancar o machão, e conseguiu.
-Bancar o machão? Só porque eu sou o mais forte do vilarejo e te salvei? Então, acho que sou mesmo um machão. -Disse o garoto levantando-se e fazendo uma pose desengonçada exibindo seus músculos.
A garota sentou-se com um tímido sorriso no rosto. Suavemente esfregou os olhos com as mãos fechadas como pequenos tatu-bolas. Depois olhou para o garoto à sua frente fixamente. O rapazote na contra-luz parecia um Adônis de argila, forte e belo. Suas feições amadureceram, seu sorriso começava com a inocência da uma criança e terminava com a segurança de um homem. Ela olhava deslumbrada para aquele garoto-homem que entrou em sua vida. Conheciam-se há poucas semanas, mas ela sentia que estava a vida toda com ele e, mais que isso, sentia que podia ficar o resto da vida ao seu lado.
O jovem sentou-se ao lado da garota, ela parecia um brotinho-de-feijão. Delicada e escondida no seu vestido. Seu sorriso parecia uma pequena lua crescente, que iluminava o seu rosto e fazia brilhar mais intensamente as estrelas que trazia no olhar. Seus cabelos esvoaçavam com a brisa quente que passava por entre os dois. Ele pensava que podia ser ela a pessoa a preencher o vazio que ele carregava dentro de seu peito. Torcia para que ela desse uma chance para um mestiço que só sabia bater nas pessoas e amaldiçoar o passado. Rezava para que tivessem um futuro. Ele então se aproximou dela, ele sorria, ela sorria. Os olhares tão intensos não fugiam um do outro, ao contrário, iam de encontro, colidiam, queimavam. O garoto tomou a iniciativa. Seus olhos cerraram-se como as asas de uma borboleta que descansa n'uma rosa. Seu rosto se inclinava em direção ao dela. Cada vez mais próximo, ele sentia sua respiração. O silêncio o ensurdecia, nada ouvia além da batida acelerada do seu coração. Até que ela riu, gargalhou.
-O que está fazendo?! Você realmente acha que isso dará certo? Realmente que eu iria querer isso? -disse a garota quase azul de tanto rir do menino.
-Eu... eu... -O rapaz estava perdido, não sabia o que fazer, o que dizer.- Eu achei que você, que nós! A gente, nós somos iguais e eu só pen- A garota interrompeu o garoto com um longo beijo, um quente beijo. Seus lábios de cerejeira eram doces, sua pele de pêssego reagia ao seu toque, ele a tinha nos seus braços, ela o tinha em seu coração. Os dois se entrelaçavam no entardecer. Ele nunca se sentira tão bem. Ele sabia que lá dentro seu coração sorria. Nada mais importava, as dores do passado, os medos do futuro, porque agora, no presente, ele a tinha. E juntos continuaram até o sol se esconder atrás das montanhas. O casal não se preocupava com mais nada, nem com o calor ou o frio, nem o medo ou a solidão, pois sabiam que sempre teriam um ao outro e o topo daquela amável e doce montanha.
-Foi sim, não mentirei para ti. Foi difícil, muitas vezes eu queria chorar, queria nunca ter nascido, queria nunca ter sido adotada pelos meus pais, mas hoje eu vejo que valeu a pena... eu encontrei um lugar que eu posso chamar de casa, eu encontrei... você.
-Antes, bem antes... eu era feliz. Eu estava acostumado com a vida de escravo. Eu aceitava que era só isso que eu teria da minha vida, e que eu devia aprender a ser feliz assim. Mas aconteceram algumas coisas que me fizeram mudar... e eu deixei de ser feliz. Só que você me fez sorrir de novo, obrigado.
-Haha, deixa de melice, você só me encontrou porque queria bater em alguém, e porque eu era uma "donzela em perigo". Você queria bancar o machão, e conseguiu.
-Bancar o machão? Só porque eu sou o mais forte do vilarejo e te salvei? Então, acho que sou mesmo um machão. -Disse o garoto levantando-se e fazendo uma pose desengonçada exibindo seus músculos.
A garota sentou-se com um tímido sorriso no rosto. Suavemente esfregou os olhos com as mãos fechadas como pequenos tatu-bolas. Depois olhou para o garoto à sua frente fixamente. O rapazote na contra-luz parecia um Adônis de argila, forte e belo. Suas feições amadureceram, seu sorriso começava com a inocência da uma criança e terminava com a segurança de um homem. Ela olhava deslumbrada para aquele garoto-homem que entrou em sua vida. Conheciam-se há poucas semanas, mas ela sentia que estava a vida toda com ele e, mais que isso, sentia que podia ficar o resto da vida ao seu lado.
O jovem sentou-se ao lado da garota, ela parecia um brotinho-de-feijão. Delicada e escondida no seu vestido. Seu sorriso parecia uma pequena lua crescente, que iluminava o seu rosto e fazia brilhar mais intensamente as estrelas que trazia no olhar. Seus cabelos esvoaçavam com a brisa quente que passava por entre os dois. Ele pensava que podia ser ela a pessoa a preencher o vazio que ele carregava dentro de seu peito. Torcia para que ela desse uma chance para um mestiço que só sabia bater nas pessoas e amaldiçoar o passado. Rezava para que tivessem um futuro. Ele então se aproximou dela, ele sorria, ela sorria. Os olhares tão intensos não fugiam um do outro, ao contrário, iam de encontro, colidiam, queimavam. O garoto tomou a iniciativa. Seus olhos cerraram-se como as asas de uma borboleta que descansa n'uma rosa. Seu rosto se inclinava em direção ao dela. Cada vez mais próximo, ele sentia sua respiração. O silêncio o ensurdecia, nada ouvia além da batida acelerada do seu coração. Até que ela riu, gargalhou.
-O que está fazendo?! Você realmente acha que isso dará certo? Realmente que eu iria querer isso? -disse a garota quase azul de tanto rir do menino.
-Eu... eu... -O rapaz estava perdido, não sabia o que fazer, o que dizer.- Eu achei que você, que nós! A gente, nós somos iguais e eu só pen- A garota interrompeu o garoto com um longo beijo, um quente beijo. Seus lábios de cerejeira eram doces, sua pele de pêssego reagia ao seu toque, ele a tinha nos seus braços, ela o tinha em seu coração. Os dois se entrelaçavam no entardecer. Ele nunca se sentira tão bem. Ele sabia que lá dentro seu coração sorria. Nada mais importava, as dores do passado, os medos do futuro, porque agora, no presente, ele a tinha. E juntos continuaram até o sol se esconder atrás das montanhas. O casal não se preocupava com mais nada, nem com o calor ou o frio, nem o medo ou a solidão, pois sabiam que sempre teriam um ao outro e o topo daquela amável e doce montanha.
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
O escravo maia.
II
No topo do penhasco seco e vazio o jovem já quatro anos mais maduro encontrava-se solitário. Há muito tempo parara de observar a cidade, o mesmo tempo que o sorriso sumira de seus firmes lábios.
-Como a vida de escravo é chata...- Disse como de costume e, vagarosamente, levantou-se rumo à cidade.
Caminhando por entre trechos obscuros e desertos até a cidade, desejava que algum acontecimento fizesse o sangue correr quente por suas veias, embora a esperança fosse tão rara quanto os raios-de-sol que não batiam nos becos do pé da montanha. Até que, atendendo às suas preces, ele ouviu um grito.
-Saiam daqui!- Suplicava uma garota com medo.
-Por quê? Tem medo de nós "pagãos", "cristã"?- Disse a voz de um rapaz.
Bastou mais um grito da menina chegar aos ouvidos do garoto para ele lançar-se em direção da confusão como se fosse um guepardo correndo atrás da caça. Dois garotos cercavam uma pequena garota contra a parede e se aproximavam dela metodicamente. Até que o menor dos dois foi arremessado para o longe por um pesado punho que intercedera entre a moça e os rapazes.
-Deixem ela em paz!- Ele bradou com a firmeza de um soldado, colocando-se na frente da jovem, a fim de protegê-la.
-Quem é você?- Disse o outro garoto, com um tom de deboche.
-Deixem ela em paz!!- Rugiu e foi ao ataque.
Houve uma sucessão de violências: o jovem herói desferiu dois socos no maior e jogou um pontapé no outro; em troca disso recebeu uma cabeçada do primeiro e uma joelhada do segundo; no chão, areia foi o que ele utilizou para cegar o agressor que derrubara primeiro, enquanto o outro lhe atingia a fronte com uma pedrada. Do alto de seus pés, com a face tingida de sangue que jorrava de sua testa, as humildes vestes surradas, sujas e rasgadas e com um sorriso brilhante e vil, encarava os dois atacantes. Para os dois, ele parecia um demente chacal prestes a devorar suas presas e, ao ver tão imagem, correram temerosos da cena.
O garoto virou-se para a donzela que acabara de resgatar e, antes que pudesse se certificar que ela estava bem, desabou como uma marionete que tem seus fios rompidos.
No topo do penhasco quente e úmido, o rapaz acordava três quartos de hora após perder as forças. Ao abrir os olhos delicadamente, não conseguiu enxergar onde e com quem estava, porém sabia estar seguro e protegido. Ao recobrar sua consciência, pôde notar que estava deitado no colo da garota que salvara e, ao olhar para ela, fraquejou. Sua boca arqueou de surpresa, seus olhos se arregalaram, não acreditava no que via, nunca vira algo assim antes. Só conseguia pensar "nossa!". Notara que mal reparou na garota e, agora que a observava, não tinha reação, só conseguiu dizer:
-Nossa!- Com um brilho dourado pôr-de-sol no olhar.
A garota fugiu de seus olhos e enrubesceu.
-Nossa!- Ele repetiu, levantado-se para vê-la melhor, e concluiu. - Você... você é linda!
Ela avermelhou-se mais que uma pitanga e escondeu seu sorriso de pérolas.
-Que bom... que bom que estás bem. - Confessou receosa- Dormistes feito um bebê.
Sua voz era fabulosa, tinha uma melodia pura, era doce como o vinho e aconchegante como a relva no entardecer. Ela, então se levantou jeitosamente e caminhou pelo grande e rico penhasco que os dois se encontravam. O jovem só podia observá-la quieto e sorridente. Ela andava como se pisasse nas nuvens e tinha a graça d'um beija-flor. O vento quente fez farfalhar suavemente seus longos cabelos de avelã e deu formas femininas ao seu comprido e empoeirado vestido cor-de-oliva. Mais à vontade, resolveu girar na ponta do seu pequeno e delicado sapato azul-oceano, sem esconder a alegria que a tomou ao ver que ele estava bem.
-É... obrigado! Obrigado por cuidar de mim e por me trazer aqui. Verdade! Como encontrou minha montanha?- O garoto se perdia em suas próprias palavras e nos olhos da incrível garota que encontrava. Não conseguia dizer três palavras sem tropeçar nos finos lábios de cereja que ela trazia.
-Eu que agradeço. Salvaste-me daqueles dois, eu só retribui...- Disse com uma modéstia angelical. - E a sua montanha não é tão difícil de encontrar... eu só segui a fumaça que vinha de sua fogueira, era o lugar mais próximo que eu vi para te deixar em segurança.
-Ah, certo! A fogueira, sim, você é esperta... mas quem eram aqueles? Que queriam? Está bem?!- A naturalidade e doçura dela faziam-no corar, faziam-no perder-se nos seus próprios pensamentos, nos batimentos do seu peito.
-Não sei... eram do vilarejo, mudei-me há pouco para cá e, como pode ver, sou uma "cristã", nunca fui bem vista pelos "pagãos"... mas você parece diferente...- Ela arriscou dizer.
-Ah, sim! Você é diferente mesmo, eu também sou meio "cristão", minha mãe é "cristã", mas fugiu da família dela para ficar com meu pai... mas não quero falar sobre eles, fale-me sobre você!- Disse fugindo de seu pai.
-Não, não, não, mocinho!- Ela retrucou caminhando com firmeza em direção do rapaz. -Você me deu um grande susto! - E ensaiava uma expressão de seriedade nos seus grandes e cerúleos olhos, mas não conseguia disfarçar o sorriso- Não faças mais isso, preocupaste-me! - E finalizou esticando seu miúdo dedo indicador- Agora, descanses e depois conto-te tudo que quiseres. - E riu. Assim como ele. Ambos sorrindo, vendo o pôr-do-sol, no alegre e agradável penhasco.
-Como a vida de escravo é chata...- Disse como de costume e, vagarosamente, levantou-se rumo à cidade.
Caminhando por entre trechos obscuros e desertos até a cidade, desejava que algum acontecimento fizesse o sangue correr quente por suas veias, embora a esperança fosse tão rara quanto os raios-de-sol que não batiam nos becos do pé da montanha. Até que, atendendo às suas preces, ele ouviu um grito.
-Saiam daqui!- Suplicava uma garota com medo.
-Por quê? Tem medo de nós "pagãos", "cristã"?- Disse a voz de um rapaz.
Bastou mais um grito da menina chegar aos ouvidos do garoto para ele lançar-se em direção da confusão como se fosse um guepardo correndo atrás da caça. Dois garotos cercavam uma pequena garota contra a parede e se aproximavam dela metodicamente. Até que o menor dos dois foi arremessado para o longe por um pesado punho que intercedera entre a moça e os rapazes.
-Deixem ela em paz!- Ele bradou com a firmeza de um soldado, colocando-se na frente da jovem, a fim de protegê-la.
-Quem é você?- Disse o outro garoto, com um tom de deboche.
-Deixem ela em paz!!- Rugiu e foi ao ataque.
Houve uma sucessão de violências: o jovem herói desferiu dois socos no maior e jogou um pontapé no outro; em troca disso recebeu uma cabeçada do primeiro e uma joelhada do segundo; no chão, areia foi o que ele utilizou para cegar o agressor que derrubara primeiro, enquanto o outro lhe atingia a fronte com uma pedrada. Do alto de seus pés, com a face tingida de sangue que jorrava de sua testa, as humildes vestes surradas, sujas e rasgadas e com um sorriso brilhante e vil, encarava os dois atacantes. Para os dois, ele parecia um demente chacal prestes a devorar suas presas e, ao ver tão imagem, correram temerosos da cena.
O garoto virou-se para a donzela que acabara de resgatar e, antes que pudesse se certificar que ela estava bem, desabou como uma marionete que tem seus fios rompidos.
No topo do penhasco quente e úmido, o rapaz acordava três quartos de hora após perder as forças. Ao abrir os olhos delicadamente, não conseguiu enxergar onde e com quem estava, porém sabia estar seguro e protegido. Ao recobrar sua consciência, pôde notar que estava deitado no colo da garota que salvara e, ao olhar para ela, fraquejou. Sua boca arqueou de surpresa, seus olhos se arregalaram, não acreditava no que via, nunca vira algo assim antes. Só conseguia pensar "nossa!". Notara que mal reparou na garota e, agora que a observava, não tinha reação, só conseguiu dizer:
-Nossa!- Com um brilho dourado pôr-de-sol no olhar.
A garota fugiu de seus olhos e enrubesceu.
-Nossa!- Ele repetiu, levantado-se para vê-la melhor, e concluiu. - Você... você é linda!
Ela avermelhou-se mais que uma pitanga e escondeu seu sorriso de pérolas.
-Que bom... que bom que estás bem. - Confessou receosa- Dormistes feito um bebê.
Sua voz era fabulosa, tinha uma melodia pura, era doce como o vinho e aconchegante como a relva no entardecer. Ela, então se levantou jeitosamente e caminhou pelo grande e rico penhasco que os dois se encontravam. O jovem só podia observá-la quieto e sorridente. Ela andava como se pisasse nas nuvens e tinha a graça d'um beija-flor. O vento quente fez farfalhar suavemente seus longos cabelos de avelã e deu formas femininas ao seu comprido e empoeirado vestido cor-de-oliva. Mais à vontade, resolveu girar na ponta do seu pequeno e delicado sapato azul-oceano, sem esconder a alegria que a tomou ao ver que ele estava bem.
-É... obrigado! Obrigado por cuidar de mim e por me trazer aqui. Verdade! Como encontrou minha montanha?- O garoto se perdia em suas próprias palavras e nos olhos da incrível garota que encontrava. Não conseguia dizer três palavras sem tropeçar nos finos lábios de cereja que ela trazia.
-Eu que agradeço. Salvaste-me daqueles dois, eu só retribui...- Disse com uma modéstia angelical. - E a sua montanha não é tão difícil de encontrar... eu só segui a fumaça que vinha de sua fogueira, era o lugar mais próximo que eu vi para te deixar em segurança.
-Ah, certo! A fogueira, sim, você é esperta... mas quem eram aqueles? Que queriam? Está bem?!- A naturalidade e doçura dela faziam-no corar, faziam-no perder-se nos seus próprios pensamentos, nos batimentos do seu peito.
-Não sei... eram do vilarejo, mudei-me há pouco para cá e, como pode ver, sou uma "cristã", nunca fui bem vista pelos "pagãos"... mas você parece diferente...- Ela arriscou dizer.
-Ah, sim! Você é diferente mesmo, eu também sou meio "cristão", minha mãe é "cristã", mas fugiu da família dela para ficar com meu pai... mas não quero falar sobre eles, fale-me sobre você!- Disse fugindo de seu pai.
-Não, não, não, mocinho!- Ela retrucou caminhando com firmeza em direção do rapaz. -Você me deu um grande susto! - E ensaiava uma expressão de seriedade nos seus grandes e cerúleos olhos, mas não conseguia disfarçar o sorriso- Não faças mais isso, preocupaste-me! - E finalizou esticando seu miúdo dedo indicador- Agora, descanses e depois conto-te tudo que quiseres. - E riu. Assim como ele. Ambos sorrindo, vendo o pôr-do-sol, no alegre e agradável penhasco.
domingo, 14 de novembro de 2010
O escravo maia.
I
Uma multidão barulhenta reunia-se no meio do vilarejo. No centro do aglomerado de pessoas viam-se dois homens. Um com vestes luxuosas: Uma grande peruca, que escorria até metade de seu tronco; uma capa de veludo vermelha, com detalhes dourados bordados nas beiras; por baixo da escarlate capa, uma alva camisa requintada com poucos babados e um saio de cetim colado ao corpo, acompanhado d'um calçado dourado ricamente incrustado com pedras azuis que se assemelhavam à diamantes. O garoto já ouvira falar dele antes. Há cerca de quatro anos.
-Quem é aquele, papai? - Questionou a criança que olhava agitada e admirada o homem que passava melodicamente por entre a população do pequeno e pobre vilarejo.
-Aquele? Aquele é o rei. Ele é o diabo! - Respondeu rispidamente o homenzarrão cor-de-carvalho, com um olhar que deixava em chamas seus miúdos e graves olhos de ônix.
-O reei, ele parece tão poderoso, ele não deve ser tão ruim... - replicou o inocente rapaz.
-Talvez, afinal ele dita o que é bom e ruim.
O rei. Hoje sabia bem quem era o rei. Um homem cruel e ganancioso, que só pensava no poder, que só queria mandar, e tinha quem obedecesse. Vira-o algumas vezes na entrada do vilarejo, quando vinha pegar novos escravos, pois os antigos ou morreram, ou ficaram inválidos. Entretanto nunca o vira entrar no vilarejo, além daquela ocasião há quatro anos. Porém, isso não era tudo. O outro homem que encontrava-se face-a-face com ele, era ninguém menos que seu próprio pai.
De cabeça erguida e com um cenho violento, não tirava os pequenos olhos do rei. Com quase dois metros somados à altura de seu chapéu adornado com plumas de diversas aves exóticas, parecia gigante perto do pequeno rei. Com uma túnica cor-de-sangue, marcada nas costas com um símbolo da junção do Sol e da Lua, dourado e prata, e completamente vestido com uma armadura de madeira que protegia cada um de seus pontos vitais, o homem parecia ter mais autoridade que o rei indefeso. Até que, então, o rei foi o primeiro a quebrar o silêncio com palavras rápidas e cortantes como facas que são disparadas n'um alvo fixo.
-Então, meu General, o que você me diz? Você aceita trabalhar para meu exército? Você tem me dado um bom trabalho, e seu auxílio certamente acabaria com toda essa inútil resistência do seu povo.
-E trair minha vila? Minha família? Minha honra?! Jamais! - E toda a população cresceu como se inflamada pelas palavras do adorado general.
-Pense bem, General. Se aceitares essa tarefa, estará ajudando sua família, não terão de viver aqui, não terão de passar fome, passar frio, viverão com a realeza, serão abastados e felizes. - Disse o rei com um sorriso venenoso, enquanto lançava um frio olhar para uma jovem cor-de-leite que olhava estarrecida para o bronzeado líder dos soldados.
-Minha família é feliz aqui. Não precisamos dessa sua "generosidade", nós "pagãos" não nos misturamos com sua gente, não com a gente que só quer guerrear e nos deixar sobre nossos joelhos, não existe negociação. Prefiro a morte a servir-te. - Finalizou o forte e sério homem em meio a urros de exaltação de toda a sua gente.
O compacto rei, somente virou sorrindo amargamente e fez um sinal de aprovação para um de seus soldados que o cercavam. O soldado apontou sua arma para o general e ouviu-se um trovão que atravessou o general, como atravessou o rugido da jovem que ficara ainda mais pálida ao ver seu marido caindo feito uma árvore que foi serrada.
- Não!! - Ela disse com seus olhos azuis afogados em lágrimas. Correu e o pegou em seus braços. Ele olhou para ela, e sem dizer nada, fê-la ouvir tudo através de seu olhar. "Perdoa-me por não conseguir cuidar de você, de vocês. Do vilarejo, de nós. Cuida dele, e seja feliz." e fechou seus olhos, que agora pareciam duas jaboticabas, frágeis e doces. Inconsolavelmente ela se perdia em prantos sobre o corpo do homem que amava, sobre o homem pelo qual ela largou tudo.
O jovem, presenciando tal cena, a morte do pai e a tragédia da mãe, permaneceu impassível. Até que foi embora, correu, voou. Voltou ao penhasco cinza e deserto. De lá, viu a multidão dissipar sob a forte luz da lua prata que parecia lamentar a morte de um grande homem. Então, ele chorou, chorou como nunca antes. O que sentia não era tristeza, não era medo. Era ódio. Um ódio egoísta. "Por quê?!", perguntava-se. "Por que aquele idiota não aceitou? Porque não quis dar uma vida boa para a mãe e eu? Por que foi tão egoísta? Poderíamos ser ricos, poderíamos ter poder. Ninguém mais zombaria a mãe, nem eu. Seríamos tratado como deveríamos."
-Por quê?! - uivou sobre o penhasco pontiagudo e frio.
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
À ansiedade
Sai daqui, sai de mim.
Deixa de maldade!
Sem você, tudo funciona, mesmo assim.
Tenha piedade.
Você nunca me fez bem,
aliás nunca fez a ninguém.
Vá embora, ansiedade.
Para isso, não tenho idade.
Ficar nervoso e apreensivo?
Sério e pensativo?
Achei que isso tinha chegado ao fim.
Então, saia. Vá embora,
da minha casa e da cidade.
Sai daqui, sai de mim,
maldita ansiedade.
Deixa de maldade!
Sem você, tudo funciona, mesmo assim.
Tenha piedade.
Você nunca me fez bem,
aliás nunca fez a ninguém.
Vá embora, ansiedade.
Para isso, não tenho idade.
Ficar nervoso e apreensivo?
Sério e pensativo?
Achei que isso tinha chegado ao fim.
Então, saia. Vá embora,
da minha casa e da cidade.
Sai daqui, sai de mim,
maldita ansiedade.
domingo, 7 de novembro de 2010
O pobre rei rico.
Era uma vez, um rei. Um Rei. Um Rei rico e poderoso, que tinha um reino. Um Reino. Um Reino vasto e belo, que acabava depois do horizonte. O Reino desse Rei era composto por lindos campos e grandes cidades, onde quer que se olhasse, veríamos predominante beleza e alegria.
Todos respeitavam e amavam o Rei. Seus - poucos - inimigos o temiam e admiravam. Ele estabelecera aliança com praticamente todas as outras nações, que mesmo unidas, eram menores que seu Reino. Todas as mais belas e raras obras de arte do mundo pertenciam ao Rei. Todos os mais precioso tesouros estavam sob sua posse. Os maiores artistas do mundo dedicavam esculturas e epopeias ao nosso Rei. Os mais hábeis guerreiros dedicavam toda sua lealdade ao Rei. Todo e qualquer habitante do Reino daria sua vida pelo Rei.
O Rei, além de rico e poderoso, também era deveras belo e inteligente. O Rei não possuía apenas fortuna material, era abastado em virtude e sabedoria, tinha abundante cultura e conhecimento. Tudo que o Rei queria, ele tinha, tudo que o Rei desejava, ele recebia. Até mesmo os animais, até mesmo a natureza, obedecia ao Rei. Não existia uma coisa no mundo todo que ousasse desobedecer o Rei, exceto ele mesmo, mais especificamente, seu coração. Seu pequeno coração teimava em acelerar por uma mera camponesa que queria a outro. E o nobre Rei, com toda sua sabedoria estava ciente que seria loucura "ordenar" que ela o amasse, sabia que era tolice tentar comprar o coração da jovem com pedras preciosas, sabia que não importasse quem ele fosse, um Rei ou um escravo, ela amaria outro. E toda noite, nosso Rei se sentia a pessoa mais pobre desse mundo. Toda a fortuna que possuía nada era, se comparada à felicidade que ele saborearia ao lado dela. O Rei só pensava que, se pudesse, trocaria toda sua fortuna e poder, para poder sentir somente uma vez o sabor de seus lábios. Toda noite, ao som das fontes em forma de leão que jorravam água cristalina, o ruído da lágrima solitária que rolara até o chão ecoava em seu peito, e o Rei mais poderoso e rico do mundo não passava de mais um pobre apaixonado.
Todos respeitavam e amavam o Rei. Seus - poucos - inimigos o temiam e admiravam. Ele estabelecera aliança com praticamente todas as outras nações, que mesmo unidas, eram menores que seu Reino. Todas as mais belas e raras obras de arte do mundo pertenciam ao Rei. Todos os mais precioso tesouros estavam sob sua posse. Os maiores artistas do mundo dedicavam esculturas e epopeias ao nosso Rei. Os mais hábeis guerreiros dedicavam toda sua lealdade ao Rei. Todo e qualquer habitante do Reino daria sua vida pelo Rei.
O Rei, além de rico e poderoso, também era deveras belo e inteligente. O Rei não possuía apenas fortuna material, era abastado em virtude e sabedoria, tinha abundante cultura e conhecimento. Tudo que o Rei queria, ele tinha, tudo que o Rei desejava, ele recebia. Até mesmo os animais, até mesmo a natureza, obedecia ao Rei. Não existia uma coisa no mundo todo que ousasse desobedecer o Rei, exceto ele mesmo, mais especificamente, seu coração. Seu pequeno coração teimava em acelerar por uma mera camponesa que queria a outro. E o nobre Rei, com toda sua sabedoria estava ciente que seria loucura "ordenar" que ela o amasse, sabia que era tolice tentar comprar o coração da jovem com pedras preciosas, sabia que não importasse quem ele fosse, um Rei ou um escravo, ela amaria outro. E toda noite, nosso Rei se sentia a pessoa mais pobre desse mundo. Toda a fortuna que possuía nada era, se comparada à felicidade que ele saborearia ao lado dela. O Rei só pensava que, se pudesse, trocaria toda sua fortuna e poder, para poder sentir somente uma vez o sabor de seus lábios. Toda noite, ao som das fontes em forma de leão que jorravam água cristalina, o ruído da lágrima solitária que rolara até o chão ecoava em seu peito, e o Rei mais poderoso e rico do mundo não passava de mais um pobre apaixonado.
terça-feira, 2 de novembro de 2010
20:20
20:20
Eu queria poder superar isso o quanto antes. Admito, não penso mais em ti, mas quando eu penso, é como se meus esforços tivessem sido inúteis. E quando eu lembro, é como se eu não tivesse saído do lugar. Todas as muralhas que eu construí, caem. Todas os reforços que eu reuni, fogem. Minha coragem some, meu sorriso murcha, minha alegria esvaece, meu sol escurece.
Você lembra de quando sua presença me fazia bem? Ah, se eu lembro, é essa lembrança que me machuca ainda mais. Eu queria poder não lembrar, de ti e de nós. Do sorriso e do choro. Só desejo esquecer.
20:21
Eu queria poder superar isso o quanto antes. Admito, não penso mais em ti, mas quando eu penso, é como se meus esforços tivessem sido inúteis. E quando eu lembro, é como se eu não tivesse saído do lugar. Todas as muralhas que eu construí, caem. Todas os reforços que eu reuni, fogem. Minha coragem some, meu sorriso murcha, minha alegria esvaece, meu sol escurece.
Você lembra de quando sua presença me fazia bem? Ah, se eu lembro, é essa lembrança que me machuca ainda mais. Eu queria poder não lembrar, de ti e de nós. Do sorriso e do choro. Só desejo esquecer.
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