domingo, 14 de novembro de 2010

O escravo maia.


I


Do alto do penhasco pontiagudo e cinza, reto e vazio, um garoto de não mais que doze anos observava a cena que se iniciava na cidade que podia ser completamente observada lá de cima. Com seus olhos cor-de-amêndoa, brilhando à luz do sol que se deitava queimando o horizonte, e os cabelos cor-de-carvão, lisos como seda, esvoaçando ao forte vento que tocava sua pele de areia-queimada com a graciosidade d'uma borboleta que pula de flor em flor para polinizá-las na primavera, assistia a essa conturbada paisagem. Levantando-se em suas finas e compridas pernas, que combinavam com a languidez do seu corpo embrulhado por um pouco de tecido, que servia apenas para cobri-lo nesse dia quente, pensou: "eu preciso ver isso mais de perto, algo ruim acontecerá, eu posso sentir." E correu como um lince que corre por sua vida.
Uma multidão barulhenta reunia-se no meio do vilarejo. No centro do aglomerado de pessoas viam-se dois homens. Um com vestes luxuosas: Uma grande peruca, que escorria até metade de seu tronco; uma capa de veludo vermelha, com detalhes dourados bordados nas beiras; por baixo da escarlate capa, uma alva camisa requintada com poucos babados e um saio de cetim colado ao corpo, acompanhado d'um calçado dourado ricamente incrustado com pedras azuis que se assemelhavam à diamantes. O garoto já ouvira falar dele antes. Há cerca de quatro anos.
-Quem é aquele, papai? - Questionou a criança que olhava agitada e admirada o homem que passava melodicamente por entre a população do pequeno e pobre vilarejo.
-Aquele? Aquele é o rei. Ele é o diabo! - Respondeu rispidamente o homenzarrão cor-de-carvalho, com um olhar que deixava em chamas seus miúdos e graves olhos de ônix.
-O reei, ele parece tão poderoso, ele não deve ser tão ruim... - replicou o inocente rapaz.
-Talvez, afinal ele dita o que é bom e ruim.
O rei. Hoje sabia bem quem era o rei. Um homem cruel e ganancioso, que só pensava no poder, que só queria mandar, e tinha quem obedecesse. Vira-o algumas vezes na entrada do vilarejo, quando vinha pegar novos escravos, pois os antigos ou morreram, ou ficaram inválidos. Entretanto nunca o vira entrar no vilarejo, além daquela ocasião há quatro anos. Porém, isso não era tudo. O outro homem que encontrava-se face-a-face com ele, era ninguém menos que seu próprio pai.
De cabeça erguida e com um cenho violento, não tirava os pequenos olhos do rei. Com quase dois metros somados à altura de seu chapéu adornado com plumas de diversas aves exóticas, parecia gigante perto do pequeno rei. Com uma túnica cor-de-sangue, marcada nas costas com um símbolo da junção do Sol e da Lua, dourado e prata, e completamente vestido com uma armadura de madeira que protegia cada um de seus pontos vitais, o homem parecia ter mais autoridade que o rei indefeso. Até que, então, o rei foi o primeiro a quebrar o silêncio com palavras rápidas e cortantes como facas que são disparadas n'um alvo fixo.
-Então, meu General, o que você me diz? Você aceita trabalhar para meu exército? Você tem me dado um bom trabalho, e seu auxílio certamente acabaria com toda essa inútil resistência do seu povo.
-E trair minha vila? Minha família? Minha honra?! Jamais! - E toda a população cresceu como se inflamada pelas palavras do adorado general.
-Pense bem, General. Se aceitares essa tarefa, estará ajudando sua família, não terão de viver aqui, não terão de passar fome, passar frio, viverão com a realeza, serão abastados e felizes. - Disse o rei com um sorriso venenoso, enquanto lançava um frio olhar para uma jovem cor-de-leite que olhava estarrecida para o bronzeado líder dos soldados.
-Minha família é feliz aqui. Não precisamos dessa sua "generosidade", nós "pagãos" não nos misturamos com sua gente, não com a gente que só quer guerrear e nos deixar sobre nossos joelhos, não existe negociação. Prefiro a morte a servir-te. - Finalizou o forte e sério homem em meio a urros de exaltação de toda a sua gente.
O compacto rei, somente virou sorrindo amargamente e fez um sinal de aprovação para um de seus soldados que o cercavam. O soldado apontou sua arma para o general e ouviu-se um trovão que atravessou o general, como atravessou o rugido da jovem que ficara ainda mais pálida ao ver seu marido caindo feito uma árvore que foi serrada.
- Não!! - Ela disse com seus olhos azuis afogados em lágrimas. Correu e o pegou em seus braços. Ele olhou para ela, e sem dizer nada, -la ouvir tudo através de seu olhar. "Perdoa-me por não conseguir cuidar de você, de vocês. Do vilarejo, de nós. Cuida dele, e seja feliz." e fechou seus olhos, que agora pareciam duas jaboticabas, frágeis e doces. Inconsolavelmente ela se perdia em prantos sobre o corpo do homem que amava, sobre o homem pelo qual ela largou tudo.
O jovem, presenciando tal cena, a morte do pai e a tragédia da mãe, permaneceu impassível. Até que foi embora, correu, voou. Voltou ao penhasco cinza e deserto. De lá, viu a multidão dissipar sob a forte luz da lua prata que parecia lamentar a morte de um grande homem. Então, ele chorou, chorou como nunca antes. O que sentia não era tristeza, não era medo. Era ódio. Um ódio egoísta. "Por quê?!", perguntava-se. "Por que aquele idiota não aceitou? Porque não quis dar uma vida boa para a mãe e eu? Por que foi tão egoísta? Poderíamos ser ricos, poderíamos ter poder. Ninguém mais zombaria a mãe, nem eu. Seríamos tratado como deveríamos."
-Por quê?! - uivou sobre o penhasco pontiagudo e frio.

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