domingo, 21 de novembro de 2010

O escravo maia.

III

No alto do penhasco amistoso e colorido estavam os recentes amigos deitados e conversando enquanto observavam as nuvens.
-É... eu nunca me senti... assim, sabes? Pertecente a algum lugar. -confidenciou a pequena garota com o céu refletido nos olhos.
-Você sente que pertence... a uma montanha? -indagou com ar de deboche o garoto sorrindo.
-Tu entendestes! Pertencente àqui. A... "nós". -respondeu a menina avermelhando como de costume.

-Entendi sim... na verdade, eu também me sentia assim. Eu sempre fui rejeitado por ser meio cristão... imagino você, uma cristã filha de dois pagãos. Procurando casa e comida de vila em vila... deve ter sido... difícil. -disse com uma rara empatia.
-Foi sim, não mentirei para ti. Foi difícil, muitas vezes eu queria chorar, queria nunca ter nascido, queria nunca ter sido adotada pelos meus pais, mas hoje eu vejo que valeu a pena... eu encontrei um lugar que eu posso chamar de casa, eu encontrei... você.
-Antes, bem antes... eu era feliz. Eu estava acostumado com a vida de escravo. Eu aceitava que era só isso que eu teria da minha vida, e que eu devia aprender a ser feliz assim. Mas aconteceram algumas coisas que me fizeram mudar... e eu deixei de ser feliz. Só que você me fez sorrir de novo, obrigado.
-Haha, deixa de melice, você só me encontrou porque queria bater em alguém, e porque eu era uma "donzela em perigo". Você queria bancar o machão, e conseguiu.
-Bancar o machão? Só porque eu sou o mais forte do vilarejo e te salvei? Então, acho que sou mesmo um machão. -Disse o garoto levantando-se e fazendo uma pose desengonçada exibindo seus músculos.
A garota sentou-se com um tímido sorriso no rosto. Suavemente esfregou os olhos com as mãos fechadas como pequenos tatu-bolas. Depois olhou para o garoto à sua frente fixamente. O rapazote na contra-luz parecia um Adônis de argila, forte e belo. Suas feições amadureceram, seu sorriso começava com a inocência da uma criança e terminava com a segurança de um homem. Ela olhava deslumbrada para aquele garoto-homem que entrou em sua vida. Conheciam-se há poucas semanas, mas ela sentia que estava a vida toda com ele e, mais que isso, sentia que podia ficar o resto da vida ao seu lado.
O jovem sentou-se ao lado da garota, ela parecia um brotinho-de-feijão. Delicada e escondida no seu vestido. Seu sorriso parecia uma pequena lua crescente, que iluminava o seu rosto e fazia brilhar mais intensamente as estrelas que trazia no olhar. Seus cabelos esvoaçavam com a brisa quente que passava por entre os dois. Ele pensava que podia ser ela a pessoa a preencher o vazio que ele carregava dentro de seu peito. Torcia para que ela desse uma chance para um mestiço que só sabia bater nas pessoas e amaldiçoar o passado. Rezava para que tivessem um futuro. Ele então se aproximou dela, ele sorria, ela sorria. Os olhares tão intensos não fugiam um do outro, ao contrário, iam de encontro, colidiam, queimavam. O garoto tomou a iniciativa. Seus olhos cerraram-se como as asas de uma borboleta que descansa n'uma rosa. Seu rosto se inclinava em direção ao dela. Cada vez mais próximo, ele sentia sua respiração. O silêncio o ensurdecia, nada ouvia além da batida acelerada do seu coração. Até que ela riu, gargalhou.
-O que está fazendo?! Você realmente acha que isso dará certo? Realmente que eu iria querer isso? -disse a garota quase azul de tanto rir do menino.
-Eu... eu... -O rapaz estava perdido, não sabia o que fazer, o que dizer.- Eu achei que você, que nós! A gente, nós somos iguais e eu só pen- A garota interrompeu o garoto com um longo beijo, um quente beijo. Seus lábios de cerejeira eram doces, sua pele de pêssego reagia ao seu toque, ele a tinha nos seus braços, ela o tinha em seu coração. Os dois se entrelaçavam no entardecer. Ele nunca se sentira tão bem. Ele sabia que lá dentro seu coração sorria. Nada mais importava, as dores do passado, os medos do futuro, porque agora, no presente, ele a tinha. E juntos continuaram até o sol se esconder atrás das montanhas. O casal não se preocupava com mais nada, nem com o calor ou o frio, nem o medo ou a solidão, pois sabiam que sempre teriam um ao outro e o topo daquela amável e doce montanha.

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