quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O escravo maia.


II


No topo do penhasco seco e vazio o jovem já quatro anos mais maduro encontrava-se solitário. Há muito tempo parara de observar a cidade, o mesmo tempo que o sorriso sumira de seus firmes lábios.
-Como a vida de escravo é chata...- Disse como de costume e, vagarosamente, levantou-se rumo à cidade.
Caminhando por entre trechos obscuros e desertos até a cidade, desejava que algum acontecimento fizesse o sangue correr quente por suas veias, embora a esperança fosse tão rara quanto os raios-de-sol que não batiam nos becos do pé da montanha. Até que, atendendo às suas preces, ele ouviu um grito.
-Saiam daqui!- Suplicava uma garota com medo.
-Por quê? Tem medo de nós "pagãos", "cristã"?- Disse a voz de um rapaz.
Bastou mais um grito da menina chegar aos ouvidos do garoto para ele lançar-se em direção da confusão como se fosse um guepardo correndo atrás da caça. Dois garotos cercavam uma pequena garota contra a parede e se aproximavam dela metodicamente. Até que o menor dos dois foi arremessado para o longe por um pesado punho que intercedera entre a moça e os rapazes.
-Deixem ela em paz!- Ele bradou com a firmeza de um soldado, colocando-se na frente da jovem, a fim de protegê-la.
-Quem é você?- Disse o outro garoto, com um tom de deboche.
-Deixem ela em paz!!- Rugiu e foi ao ataque.
Houve uma sucessão de violências: o jovem herói desferiu dois socos no maior e jogou um pontapé no outro; em troca disso recebeu uma cabeçada do primeiro e uma joelhada do segundo; no chão, areia foi o que ele utilizou para cegar o agressor que derrubara primeiro, enquanto o outro lhe atingia a fronte com uma pedrada. Do alto de seus pés, com a face tingida de sangue que jorrava de sua testa, as humildes vestes surradas, sujas e rasgadas e com um sorriso brilhante e vil, encarava os dois atacantes. Para os dois, ele parecia um demente chacal prestes a devorar suas presas e, ao ver tão imagem, correram temerosos da cena.
O garoto virou-se para a donzela que acabara de resgatar e, antes que pudesse se certificar que ela estava bem, desabou como uma marionete que tem seus fios rompidos.
No topo do penhasco quente e úmido, o rapaz acordava três quartos de hora após perder as forças. Ao abrir os olhos delicadamente, não conseguiu enxergar onde e com quem estava, porém sabia estar seguro e protegido. Ao recobrar sua consciência, pôde notar que estava deitado no colo da garota que salvara e, ao olhar para ela, fraquejou. Sua boca arqueou de surpresa, seus olhos se arregalaram, não acreditava no que via, nunca vira algo assim antes. Só conseguia pensar "nossa!". Notara que mal reparou na garota e, agora que a observava, não tinha reação, só conseguiu dizer:
-Nossa!- Com um brilho dourado pôr-de-sol no olhar.
A garota fugiu de seus olhos e enrubesceu.
-Nossa!- Ele repetiu, levantado-se para vê-la melhor, e concluiu. - Você... você é linda!
Ela avermelhou-se mais que uma pitanga e escondeu seu sorriso de pérolas.
-Que bom... que bom que estás bem. - Confessou receosa- Dormistes feito um bebê.
Sua voz era fabulosa, tinha uma melodia pura, era doce como o vinho e aconchegante como a relva no entardecer. Ela, então se levantou jeitosamente e caminhou pelo grande e rico penhasco que os dois se encontravam. O jovem só podia observá-la quieto e sorridente. Ela andava como se pisasse nas nuvens e tinha a graça d'um beija-flor. O vento quente fez farfalhar suavemente seus longos cabelos de avelã e deu formas femininas ao seu comprido e empoeirado vestido cor-de-oliva. Mais à vontade, resolveu girar na ponta do seu pequeno e delicado sapato azul-oceano, sem esconder a alegria que a tomou ao ver que ele estava bem.
-É... obrigado! Obrigado por cuidar de mim e por me trazer aqui. Verdade! Como encontrou minha montanha?- O garoto se perdia em suas próprias palavras e nos olhos da incrível garota que encontrava. Não conseguia dizer três palavras sem tropeçar nos finos lábios de cereja que ela trazia.
-Eu que agradeço. Salvaste-me daqueles dois, eu só retribui...- Disse com uma modéstia angelical. - E a sua montanha não é tão difícil de encontrar... eu só segui a fumaça que vinha de sua fogueira, era o lugar mais próximo que eu vi para te deixar em segurança.
-Ah, certo! A fogueira, sim, você é esperta... mas quem eram aqueles? Que queriam? Está bem?!- A naturalidade e doçura dela faziam-no corar, faziam-no perder-se nos seus próprios pensamentos, nos batimentos do seu peito.
-Não sei... eram do vilarejo, mudei-me há pouco para cá e, como pode ver, sou uma "cristã", nunca fui bem vista pelos "pagãos"... mas você parece diferente...- Ela arriscou dizer.
-Ah, sim! Você é diferente mesmo, eu também sou meio "cristão", minha mãe é "cristã", mas fugiu da família dela para ficar com meu pai... mas não quero falar sobre eles, fale-me sobre você!- Disse fugindo de seu pai.
-Não, não, não, mocinho!- Ela retrucou caminhando com firmeza em direção do rapaz. -Você me deu um grande susto! - E ensaiava uma expressão de seriedade nos seus grandes e cerúleos olhos, mas não conseguia disfarçar o sorriso- Não faças mais isso, preocupaste-me! - E finalizou esticando seu miúdo dedo indicador- Agora, descanses e depois conto-te tudo que quiseres. - E riu. Assim como ele. Ambos sorrindo, vendo o pôr-do-sol, no alegre e agradável penhasco.

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