sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Lati, Lati. Lati,
Lá te vi, tão meiga e delicada,
Miou, Miou. Miou,
Me olhou de esguelha, sorriu oblíqua, fugiu fugaz
Ladrar, Ladrar
Ladra do meu coração, roubou minha atenção, levou minha paz.
 
E fui atrás de ti, por muros e telhados,
ignorando os olhares de censura,
os gatos e seus sibilados, os cães e seus rosnados,
se preciso fosse, treparia numa árvore à sua procura.
 
Soltou um Miado, Miado. Miado,
Me adorou, se aproximou e satisfeita com minha persistência,
com minha insistência,
Ronronou, Ronoronou. Ronronou,
de alegria.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

13 de Maio de 1999 (Cobranças)‏.


Ele colocou o telefone no gancho e levou as mãos ao rosto, cansado. Deu um longo suspiro, cansado. Era o pessoal da editora, estão me cobrando, ele disse quando ela entrava na sala, Cobrando o quê? você tem escrito sempre, não larga esse bloquinho, distrai-se a pensar sobre seus poemas, sobre seu livro, respondeu-lhe sentando-se ao seu lado, ele jogou seu corpo para trás no sofá, Mas quantas vezes já me viu escrevendo? de que me adiantam tantas ideias... eu preciso me cobrar mais, Acalme-se... se cobrar não levará a nada, você tem outras coisas com que se preocupar, nós, por exemplo... ele a olhou com um ar de descrença, uma sobrancelha levantada, Aline, nós estamos juntos o tempo todo, você praticamente mora aqui, já se passaram seis meses e eu sequer comecei meu livro, eu tô arruinado.
Pois é bom que você não me troque por nada, Tiago, porque saiba que não lhe darei nenhum prazo, nem seis meses sequer seis segundos. Eu não simplesmente cobro, eu faço você pagar.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

5 de Março de 1999. (Apostas)

Sentados no gramado do parque, gargalhavam. "Tá bom, tá bom, minha vez. Deixa eu ver... eu aposto que você não acerta aquele formigueiro ali" Ela disse lhe entregando uma pedra. Ele se ergueu sobre um joelho; fechou um olho e levantou a pedra à altura do outro; puxou o braço para trás e sem força fez o arremesso. A pedra ainda sim alcançou o pé do formigueiro, e ao atingi-lo fez com que um pedaço de terra caísse do topo. "Nada mal, poderia ser melhor, mas ainda sim conseguiu acertar. Merece um prêmio." Reclinou-se sobre o rapaz e lhe deu um beijo rápido nos lábios fechados.
Deu uma risada inocente e disse se sentando "Valendo outro beijo, aposto que não acerta aquelas pombas" E pôs outra pedra em sua mão. Ele parou por alguns segundos, olhou para sua mão cerrada, olhou para as aves, olhou para ela. A menina meneou a cabeça, incentivando-o a tomar uma atitude, "Qual a diferença entre acertar as formigas e os pombos, afinal?" Por mais que fizesse sentido, ele continuava hesitante. Ela lhe mandou um beijo, ele apertou a pedra em sua mão, virou-se para as pombas e arremessou, acertou em cheio no corpo da mais gorda. Ela tentou voar, mas sua asa fraquejou e ela caiu, ao levantar fugiu o mais rapidamente que pôde. Antes que o menino pudesse ir ajudar o pássaro, ela passou a perna sobre ele e, colando seus corpos, beijou-o. Um beijo longo e vagaroso.
Levantou-se num pulo, rindo-se, abriu os braços e falou "Aposto que não consegue derrubar aquelas pessoas" E apontou com a cabeça para um grupo de amigos que andavam de bicicleta e patins. Mas o rapaz não gostou da ideia, começou a se levantar para se afastar dela "Vamos, vai, será divertido, ganhará o melhor beijo de todos, prometo." Ela disse. O rapaz então lhe deu a mão, apesar de fechar a cara, demonstrando que não concordava com isso. Ela o puxou para perto do grupo, soltou-lhe e começou a procurar algo pelo chão, e com um gritinho de satisfação 
lhe entregou algo. "É só jogar no chão quando não estiverem olhando, se passarem por cima, cairão." Disse em meio a risos contidos. Ele deu um passo em silêncio, sem chamar atenção de seus alvos e jogou o pedaço de galho seco sem que lhe notassem. A menina o puxou rapidamente para trás da árvore. Assim que ouviu o galho se quebrando o gemido de dor de uma garota, ela passou as mãos por trás dele e lhe envolveu num beijo, beijou-lhe toda a boca; a mordeu; o mordeu; as mãos dançavam pelo corpo dela; ela quase dançava colada a ele; a respiração ofegante; o coração acelerado. Ela lhe deu um beijo longo; apaixonado. Sua boca se recusava a desgrudar da dela, mas ela se afastou. Afastou-se devagar, empurrou-o para trás, beijou-lhe o pescoço, o peito sob a camiseta, o corpo, de cima a baixo. E embaixo, aproximou-se, olhou para ele, que mordia os lábios. Os dentes metálicos se afastaram. Os lábios dela se abriram.
Abriu os olhos e lhe sorriu. Ele se abaixava, deitando ao pé da árvore, se sentia um adolescente, um adolescente muito feliz e inconsequente
Acomodou-se no colo dele, recostou-se em seu peito e, corada, lhe falou inocentemente "Aposto que não parte meu coração antes d'eu partir o teu".