domingo, 13 de maio de 2012

Caprinae. (ou O telefonema. - parte 2)

"Vocês. Não. Sabem. Bater?!" Perguntou o coelho cinzento velho e rabugento que se encontrava atrás de uma mesa chata de escritório, contando moedas. "cê vai ver o que é bater quando eu for quebrar sua cara, velhote!" Eu respondi erguendo meu punho. "Ei, calma, ele é meu avô querido, apesar de tudo, não faça isso com ele, poxa..." Shorty disse, com uma pitada de tristeza, mas demonstrando indiferença. "Sim, não bata no avô de Shorty, sim." Mecanicamente disse Toby. (estávamos começando a nos preocupar com ele). "mó onda..." Completou Johnny, pra não ser o único a ficar quieto e para não esquecermos dele.
"Vocês! Vocês crianças pensam que podem entrar no meu escritório e começarem a zonear?! Quem vocês pensam que são? Precisam de uma boa dose de realidade, isso sim. Para saírem desse mundo de sonhos em que vivem e encararem o mundo como ele realmente é, cru e nu." Esbaforiu o Marechal por entre o bigode branco e espesso de Marechal. "Cara, cara, cê quer saber quem somos nós? nós somos... bom, ainda não bolamos um nome pra nossa trupe, mas quando bolarmos será um nome tão maneiro que você vai querer fazer parte e nós te recusaremos só de maldade!" Eu respondi demonstrando imponência. Tirei meu chapéu côco e procurei algo bem lá no fundo, aha!, olhei para o Coelho Líder enquanto puxava algo de lá de dentro "e mais uma coisa, acho que você que tá precisando encarar a realidade!" e tirei um animal quadrúpede; com chifres em fase de crescimento; uma barbinha e pêlos amarronzados, de lá de dentro. "Uma cabra?" Perguntou o coelho, sem entender nada. "Pense de novo, mané! Um cabrito!".

O cabrito então abriu seus olhos.

Todos prenderam a respiração, atentos, ansiosos. Mas ele ficou imóvel. Ninguém ousava se mexer, sequer questionar o cabrito. Quando um deles foi dizer algo, o cabrito começou a crescer, inflar, aumentava de tamanho gradativamente, era como uma bola amarronzada e com chifres. Começou a lacrimejar devagar. As lágrimas se tornaram mais densas, até que uma corrente de água saia de seus olhos. Olhos que ele fechou novamente. "béééé!" Soltou um balido e !KABUM! explodiu.
Um riacho saiu de dentro dele, cheio de peixes, tartarugas e aranhas. Pedaços de troncos com duendes pendurados neles boiavam na água. A corrente foi de encontro com as paredes do casebre, que ruíram. Mas o teto não caiu, continuou lá em cima, protegendo a todos. A água logo encheu a colina à nossa volta e fez com que a casa se tornasse uma ilha, um helicóptero se aproximou da ilha e soltou uma escada na direção do teto, seres esponjosos desceram pela escada e pularam na água, absorvendo-a toda. Os peixes que estavam no mar, sem ter para onde ir, criaram pernas e braços, e pegaram o primeiro táxi que os levasse a um lugar bem húmido e calmo. As esponjas, vendo que seu serviço tinha sido concluído, pegaram latas de gasolina, embeberam-se do combustível e atearam fogo em si mesmas. Um incêndio incontrolável tomou conta da região, destruindo tudo em seu caminho - inclusive os pobres duendes e as tartarugas, que não tiveram nem tempo, nem vontade de fugir - com línguas de chamas e labaredas violentas. Até que encontraram um tronco de árvore, que cansado de tanto descaso e um histórico de florestas inteiras serem dizimadas por conta desses incêndios estúpidos que não olham por onde andam, resolveu tomar uma atitude.
O tronco colocou suas raízes no chão e começou a crescer, pediu ajuda ao Sol que brilhava lá no céu azul daquele dia (ou noite, já não sei mais e não tem importância) e começou a fazer seja lá o que as plantas fazem para crescer, cresceu, cresceu, cresceu, multiplicou-se, eram dois, quatro, oito, uma vastidão de árvores, de todos os tamanhos e cores, uma floresta inteira que batalhava com aquele incêndio bestial. A força de vida que emanava daquele embate foi tanta, que fez com que os duendes renascessem, num estado de semi-morte. A floresta crescia mais e mais, com copas que podiam tapar o sol completamente e troncos que poderiam atravessar o planeta inteiro, uma delas, cresceu tanto que acabou batendo em outro planeta. O incêndio estava se esvaindo cada vez mais, pois, apesar das árvores produzirem oxigênio, elas estavam segurando a respiração, e o fogo não podia se propagar sem o ar delas. As chamas foram se reduzindo, diminuindo, até que restou apenas um pequeno fogo. As árvores então diminuíram, descansaram, restando apenas algumas para cobrir o último fogo. Mas antes que elas chegassem à chama que dava seus suspiros finais, foram atacadas. Pararam e viraram-se para reagir, mas não viram nada. Mais um chute, alguns socos, estavam sendo agredidas por seres invisíveis, parando para observar, podiam perceber algo se movimentando, mas não sabiam o que era. E um direito, um cruzado, as árvores estavam perdendo e nada podiam fazer, até que uma cabeça apareceu. Uma cabeça comprida e escura, sem igual nesse planeta, o duende a segurava e, logo depois, a devorou. Era um duende zumbi, afinal, os outros duendes atacaram o que restou dos aliens invisíveis que haviam invadido o planeta num descuido da árvore que cresceu demais. Quando não restava mais nenhum alien à vista(?). Deixaram as árvores terminar o que faziam.

Esse era o funeral do fogo que estava pegando árvore (uma sutil e honrada ironia pelas árvores que pegam  fogo), enquanto os duendes zumbis assistiam a tudo, com o que restava dos aliens invisíveis no chão. Até que apareceram mais alguns cabritos, todos olharam para eles "béééé".

Eles baliram.

Tudo voltou ao normal, as paredes reconstruídas, os cabritos sumiram, o funeral acabou. "O que foi isso?", disse uma voz grossa, quase que rugindo, assustados viramos e vimos um gorila de mais de 2 metros, com um tapa olho e um chapéu de pirata. "Q-quem, é você?!" Johnny perguntou, apavorado. Ele colocou as mãos pra frente e as observou, uma das mãos era um gancho de ferro, que ele usou para ver seu reflexo. Com um tom de incerteza, nos disse "Sou eu... poxa, sou o Toby, o que aconteceu comigo!" "Ah, cara... pelo que parece, você é um piratão, tá ligado?" Explicou Johnny "cê acabou de ver várias bizarrices, mermão, isso né nada" completou. "Verdade... mas por quê?" Insistiu Toby "ah, sei lá, bróder, olha do seu lado, também apareceu uma coelha de repente, também é esquisito" Finalizou Johnny, e de fato havia uma coelha ao lado de Toby, ficamos tão surpresos com o gorila que mal vimos a coelha, "E o Johnny tá com uma prancha de skate ao invés de surf, não me julguem" a coelha disse. "uou, cara! como assim" ele falou, "Bom, na verdade, é tudo culpa do Cabrito", eu comecei, "ele fez com que nossos sonhos se realizassem, sabe." "Ahhh, faz sentido, então eu sou um destemido e famoso pirata do mar!" Disse Toby alegre, "M-mas, eu não quero andar de skate, eu sou um surfista! caras! um surfista..." exclamou Johnny, até que caiu sobre os joelhos e começou a chorar "tá bom, eu sempre quis andar de skate, mas sou uma águia do mar, não tinha como, o surf é ótimo, mas não é como o skate, foi mal, caras, não devia ter mentido para vocês..." Então nós três o abraçamos. "Vai lá andar de skate, carinha" Eu disse, e ele pegou o skate, pulou na janela mais próxima e disse "não me esquecerei de vocês, mas o mundo é minha casa, adeus", quando foi saltar, virou para nós "E afinal, quem é essa coelha aí? e cadê o Shorty? e por que o marechal tá vestido de astronauta? falô",  fez um sinal de hangloose e foi embora.
"Eu sou a Shorty" disse a coelha, depois de amargurarmos a partida de Johnny, "A Shorty? Shorty era uma menina?" Perguntou Toby, atônito, "Claro que eu era uma menina, bobo, e ainda sou, mas meu sonho sempre foi ser uma grande mulher, sabe, pois eu sempre fui tão pequenina... ninguém nunca gostou de mim assim." Ela disse, com ar de tristeza. "Eu gostei" disse Toby, tímido "pequenina... e agora também está linda", Shorty, que agora era uma coelha grande e bela, com cabelos compridos e brilhantes, corou como uma garotinha, "mesmo?" perguntou, com a voz trêmula, "você também chamou minha atenção" Toby não tinha um sorriso bobo no rosto como das outras vezes, pelo contrário, estava sério, com um olhar decidido, olhou para Shorty, pegou-a nos braços e pulou na janela que Johnny deixara aberta. Virou-se para mim e disse "não queria ter de ir, mas preciso seguir meu coração, sabe..." "Vá, Toby, sejam felizes, tchau Shorty".   Shorty acenou e Toby estava com um sorriso bobo no rosto, "e por que o almirante tá com uma roupa de astronauta?" Ele perguntou, antes de ir.
"Meu sonho... sempre foi ser um astronauta. Papai e mamãe achavam bobeira, mas eu não, queria ir à lua, em um foguete. E agora eu sou um astronauta de verdade, e admito que estou feliz. É bem melhor que ficar no escritório o dia inteiro me preocupando com o dinheiro. Acho que finalmente entendi, meu jovem, obrigado por tudo." Quando estendeu a mão para me cumprimentar, a casa começou a tremer abruptamente. "O que é isso?" Ele perguntou, apavorado. "Óbvio, não seria tão fácil assim", eu disse, resiliente. O teto então foi retirado de nossas cabeças, lá fora estava o palhaço que Shorty nos contara, mas ele era gigante, acho que ela esqueceu dessa parte. Gigante ou não, teríamos de derrotar o palhaço para finalmente acabar com essa história toda. Apontei para ele e gritei "Palhaço!". Ele então bateu os braços nos peitos como se fosse um gorila gigante, e começou a jogar batatas nas nossas cabeças, e depois tomates, por mais que nos machucasse ou sujasse, não seria o bastante para nos matar, porém também não sabíamos o que fazer para derrotá-lo, foi aí que o coelho astronauta teve uma ideia. Em meio a uma chuva de batatas, tomates, alfaces e picles, dirigiu-se à sua mesa e pegou uma maleta e a abriu. Notas e mais notas de dinheiros recheavam a mala. "É isso que importa pra você, não é?! Dinheiro!" Ele disse, raivoso, "então toma." Pegou uma nota, fez uma bolinha, e arremessou no palhaço, que rugia de ira. Batatas, tomates, alfaces, picles, queijo. Ele jogava tudo que via pela frente. O marechal pegou mais uma nota, fez um aviãozinho e o jogou em mim, finalmente entendi o seu plano. Mais rápido que o último capítulo dessa história - o que não precisa ser tão veloz, pois ele é longo - cheguei do lado do almirante e comecei a pegar algumas notas também. Fiz um origami, aviões, bolinhas de papel, comi alguns dos picles, comi e usei o dinheiro como guardanapo, sob a chuva de batata, tomate, alface, picles, queijo, cebola e molho especial, o dinheiro era apenas papel, e não tinha valor nenhum. Apenas papel.
O palhaço então, desesperançoso, viu que nada mais conseguiria e foi embora com seu circo, sabe-se lá para onde. Saímos da casa, e vimos que todos os coelhos guerreiros estavam nos aguardando, o almirante tirou seu capacete e acenou para todos. Todos aplaudiram, gritaram seu nome, jogavam flores. Ele pediu para que fizessem silêncio e disse "façam o que sempre fazemos, homens!". Mais e mais palmas, ovações. O almirante me cumprimentou e disse. "Fico feliz deles terem ligado para você, André, sem você não teríamos conseguido." "mas" Eu parei de sorrir e disse "Meu nome é felipo e não André." Surpreso, o astronauta voltou correndo para o escritório, pegou o telefone e teclou redial, pegou uma lista de contatos e disse-me "hahaha acho que foi engano!". Rimos mais um pouco, pensando na ironia disso tudo, até que ele me perguntou "mas, por que você não mudou, afinal? você não tem nenhum sonho?" Eu olhei para o alto e disse "eu já estou vivendo o sonho."'

Disse o rapaz, para o casal para à sua frente.
- Entenderam? - ele perguntou.
- Não, cara, não entendemos, a gente só queria saber como chegar na Avenida Marc C. e você não ajudou em nada.  - Respondeu o rapaz, furioso.
- Ah, desculpa, achei que você tinha perguntado como eu faço pra ser tão maneiro... essa avenida eu não conheço, foi mal. - Então ele deu meia volta e foi embora, cantarolando, sorrindo e sonhando.

Fim.