quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Brinde.

Um gole de desgosto puro, que queima a garganta.
Coquetel adornado de hipocrisia, vodka batida com ironia.
Me vê mais uma dose de desilusão, não pegue leve no amor sem solução.
Um shot de tristeza, tomado duma só vez.
Brindemos, brindemos ao nosso fim. Brindemos à minha dor.
Um brinde a tudo que não fomos.
Um brinde ao que se tornou.

E não nos esqueçamos da saideira, aproveitando que está a sair de minha vida.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Cacos.

Cacos voavam, estilhaços espalhados, álcool esparramado, sorrisos partidos.
Ela, tão feliz, não se importou com o copo que derrubara.
Eu, tão sozinho, me importei com o amor que destruira.

Cacos espalhados, corações partidos, sorrisos vazios.
Já não sou mais eu, sou fragmentos de mim. A vida agora vem aos pedaços. A alegria se partiu, mas a tristeza está intacta.
Já não sou mais eu, sou cacos, espalhados por aí, ao chão, prestes a serem varridos.

Cacos. Cacos no chão, frágeis e fracos. Vítimas. Mas que podem machucar se pisados.

Sou cacos.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Frio.

Hoje fez frio, muito frio. Eu me encolhi na cadeira e tomei meu chá. As pessoas chegavam e menavam a cabeça em saudação. Eu apenas sorria de leve em resposta. Não disse uma palavra sequer, mas todos entenderam, pois estava frio.
Hoje fez frio, muito frio. Eu não quis sair da cama, resolvi ficar o dia deitado. Meus amigos me ligaram e eu recusei. Eles não reclamara, pois estava frio.
Hoje fez frio, muito frio. E eu não sorri uma vez sequer. Eu fiquei escondido em meio a agasalhos. Esfregando minhas mãos. Mas ninguém se incomodou, pois estava frio.

Aqui dentro faz frio, muito frio. E espero que, pelo menos, respeitem minha falta de palavras, ânimo e sorrisos.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Grama.

Deitado na grama, ele sorriu. Observando o céu, com ela do seu lado. As nuvens caminhavam lentamente, como se o fizessem para que ele aproveitasse ao máximo o momento. O vento batia de leve, o suficiente para que dessem um abraço mais apertado. Aquecidos um pelo outro. Ele olhou nos olhos dela, e sorriu de novo. Nunca se sentira assim antes, tão feliz, tão leve, tão... vivo. Não se preocupava mais com nada, com deveres, provas ou compromissos. Preocupava-se apenas com aquele momento, com aquela tarde quente. Temia que aquele dia logo acabaria. Mas acalmou-se ao perceber que essa tarde ainda duraria muito mais. Sorriu-lhe. Sem desviar os olhos dos dela, cerrou-os.
Minutos, horas se passaram. Podiam ser dias, anos, uma vida. Não veria problema em ter passado uma vida com ela, apenas sendo feliz, sonhando com uma eternidade de calma. E, apesar de toda a paz e tranquilidade, dentro dele tudo estava um caos, um bom caos. Ele estava se redescobrindo, vivendo finalmente, conhecera um outro mundo do qual não pretendia sair tão cedo. Ela ainda cochilava, ela era linda, ainda podia ser visto um pequeno sorriso em seus lábios. Afagou-lhe os cabelos, beijou-lhe a testa suada. Como uma criança que purificara a alma correndo e brincando e agora descansava, ela abriu os olhos. Deu-lhe um longo beijo e perguntou se ele dormiu bem. Menou a cabeça positivamente e lhe sorriu, mais uma vez. O sol estava se pondo e vento ficava mais forte, aproximaram-se ainda mais. Suas respirações eram a mesma, misturaram-se, seus cheiros, seus sabores.
Ela lhe dera um mundo completamente novo, uma vida completamente desconhecida, uma alma completamente jovem. Ele queria lhe retribuir, lhe sorriu sinceramente, lhe beijou com paixão, lhe abraçou com ternura. E, para ela, era o suficiente.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Mudou

De um dia para o outro, tudo mudou, os rostos e os sorrisos.
De um dia para o outro, tudo mudou, as companhias e o trajeto.
De um dia para o outro, tudo mudou, os deveres e as responsabilidades.
De um dia para o outro, tudo mudou, o que o cercava e ele mesmo.
De um dia para o outro, algo ficou igual, a batida do seu coração.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Fumaça

Sob a fumaça que outrora me incomodava trocamos beijos. Seu sabor sobrepõe o tabaco. Eu já nem me importo com esse cheiro, estou contigo e isso é mais importante. Uma última tragada, mais um beijo. Solto a fumaça mas não solto você, solta a fumaça e me beija de novo, com gosto. A tarde toda jogada fora, tempo precioso que desperdicei com o que tenho de mais valioso. Talvez você me faça pior, talvez eu ache assim melhor. Amasso o cigarro contra o cinzeiro e penso que não há um desses em minha casa. Mas que deveria ter um em nossa.
Sob a fumaça, amamo-nos.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Querida.

E, de repente, ele já não mais sofria.
Estava feliz, com o sono matinal, com o trem lotado, o trabalho sobrecarregado.
Estava contente com o dia sem açúcar e o café quente.
Não lhe incomodava mais a dôr nos pés ou o cansaço nas pernas.
Desde que acordava, até se deitar, sempre tinha um sorriso no rosto, fosse ele tímido ou exposto.

Não se habituou com o sofrimento, não se satisfez com o medíocre.
Mas tinha alguém para fazer isso ser detalhe, tinha alguém para chamar de querida.

domingo, 28 de agosto de 2011

Elevador.

Pressionei o botão e aguardei. Um velho grisalho postou-se ao meu lado, a aguardar o mesmo elevador que eu.
- Bons dias, disse.
- Bons dias, polido respondi.
T. Chegou o ascensor. Entramos, apertei o 5º andar, ele o 12º, provavelmente era da presidência, vestia-se bem e tinha classe, enquanto eu me vestia com a primeira coisa que encontrava e andava como se fosse um sacrífico trabalhar aquela hora - e era.
- Dia quente, não? Ele me perguntou.
- Realmente... quente demais para um dia de inverno. Respondi surpreso.
Então notei que ele disse aquilo sem perceber e sequer prestou atenção em minha resposta. Como se estivesse programado para falar algo quando encontrasse com alguém. Obrigado a ser simpático.

Na saída, o elevador estava cheio, entrei e apertei o T, mesmo sabendo que todos também iam para lá.
- Puxa, como o dia foi cansativo, disse um rapaz um pouco mais velho.
- Realmente, que bom que já estamos indo embora, respondeu uma garota quiçá mais nova que eu.
Eu não disse nada, não faria diferença. Todos diziam algo pré-fabricado. Ninguém se importava com aquela conversa no ascensor, só queriam chegar ao térreo, ao seu andar.
- Até.
- Até.
- Até.

Nos dias que se seguiram cada vez mais via a plasticidade de todos os sorriso de elevador. O como vai não se importava com como vinhamos. Como foi seu dia não dava a mínima para uma resposta positiva ou negativa. Bons dias, boas tardes e boas noites apenas para mim, pois eu realmente não ligo para você.
Você precisava responder, uma resposta óbvia e falsa. Uma resposta curta e seca. No elevador ninguém tem tempo para discursos, argumentos, filosofias ou ideias. Mas não é rápido o bastante para que possamos ficar quietos. Você precisa responder.

Hoje eu peguei a escada.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

A mesma rua.

Todo dia, há alguns meses, eu passava por essa rua.
Todo dia, há alguns meses, quando o ônibus virava essa esquina, eu lamentava e fazia de tudo para prolongar os segundos que escapavam pelos meus dedos.
Eu marcava aquele poste, que significava que dentro de 30 segundos eu teria de descer do ônibus e sofrer no meu trabalho.

Hoje eu estou passando pela mesma rua. E eu nunca havia notado essas árvores, a côr do céu se escondendo daquele prédio.
Hoje eu passo pela mesma rua, mas com um destino diferente, e que nome engraçado tem a rua que o ônibus entra na esquina.
Atrás daquele poste há uma sorveteria que parece interessante, do lado um brechó que me chamou atenção.

A mesma rua, outra pessoa.

domingo, 14 de agosto de 2011

[Colchetes

Eu espero não ser tão clichê
embora esteja escrevendo um poema de amor,
mas preciso te dizer, que tudo que eu sinto por você
[não cabe apenas no meu coração.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

eu não disse nada

não disse que era bom
não disse que era ruim
não disse que estava certo
não disse que estava errado
não disse que tinha a razão
não disse que seria legal
não disse que aprenderíamos algo
não disse que valeria a pena
não disse que te daria algo em troco
não disse nada.
[E, acima de tudo,
não disse que seria assim para sempre. Se eu mudei, eu não lembro de dizer que não mudaria.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Você me olhou bem nos olhos e não pôde ver que eu estava prestes a desabar
[será que você me conhece afinal?]

Parados frente-a-frente por alguns segundos e o mundo continuava no seu lugar, eu já não era transportado para o paraíso com você

Você sorri e eu me forço a fazer o mesmo, o sorriso mais falso que já dei, mas você mal repara
[será que você algum dia me conheceu?]

eu te dou um abraço forte e triste, estou me despedindo
[adeus]

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Eu não tenho cheiro...

Você não se recorda de mim ao ver aquele filme. Nem vê minha face ao fechar os olhos ouvindo aquela música.
Não tenho filme. Não tenho música.
Metade não lembra meu nome, outra metade lembra porque é igual ao deles.
você não sonha comigo, com o dia do nosso casamento, com o nome dos nossos filhos, com minhas manias, com meus defeitos, meu sorriso.
Eu não sou o amor da vida de ninguém.
Eu sou apenas o telespectador.
Assisto e opino.

A Tv ainda não tem cheiro.
Nem eu.

sábado, 6 de agosto de 2011

Eu não tenho cheiro.

Eu não tenho cheiro.
Meu cheiro não fica na sua roupa ao me abraçar. Minha voz não fica na sua cabeça ao nos despedirmos. Eu não tenho um estilo autêntico, que faça se lembrar de mim. Eu não tenho um gosto único, que seja intimamente meu.
Eu não tenho cara de quem ama isso, odeia aquilo. Eu sou morno. Minha mão não é fria, meu sorriso não é quente. Você passa por mim e nem percebe. Eu entro e saio da vida das pessoas sem causar nenhum dano, sem acrescentar nenhuma história.
Eu sou apenas um filme que ninguém se interessa.
Eu não tenho cheiro.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

eu só queria poder reviver aqueles momentos. Ainda estão quentes aqui dentro como se fossem ontem. Eu sentia sua respiração - um suspiro, dois suspiros. Eu queria te proteger do medo, do amor. Você se encolhia e cabia no meu peito.

eu não vou te soltar a não ser que você queira, e eu peço que não queira.

você faz algum comentário engraçadinho que eu mal consigo decifrar, mas sorri e eu não posso evitar: sorrio. Quietos, mudos, nós dois, mas ele não - meu coração grita; ruge; faz escândalo; faz cena; faz drama. "Diga que a ama". Tão poético, com uma rima óbvia num lugar oportuno, o ignoro mas nem tanto.

você se aproxima mais ainda - eu gosto do seu cheiro - como se já não estivesse colada ao meu corpo e me aquece, me derrete. Eu fluido de amor tento me recompor e, em tempo, te afago. Apago.

eu queria reviver tudo para que no momento exato eu tenha coragem. Reviver de trás pra frente é reviver e você me fez notar isso. Com um sorriso azul e um all-star brilhante que me deixa desnorteado. Eu vou e volto por você, reviver - reviver.

eu te dou um abraço apaixonado, apertado, quente, eterno por dez segundos. Solto - "gosto do seu cheiro" e por aí fica. Ainda tenho tanto amor. Tantos abraços. E só um beijo, por favor, amor.

gosto do seu cheiro.

domingo, 24 de julho de 2011

errado

Eu nunca entendi por que todos estavam sempre tão errados.
Por que eles não podiam ser certos como eu?
Eu era tão melhor que todos,
tão mais certo.
Mas eles nunca me compreendiam,
nunca compreendem os grandes gênios.
Bem, é meio difícil falar isso.
então me pouparei
e direi apenas que o errado
sempre fui eu.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

sábado, 16 de julho de 2011

O céu.

Dia desses enquanto eu voltava do trabalho eu olhei para o céu. E achei o que vi estranho.
Não devia sê-lo mas era, me era estranho. Era o céu, azul, com suas nuvens fofas e brancas. Ele brilhava intensamente e contrastava com o cinza da cidade.
Eu sei que aqui o céu pode não ser tão lindo ou azul como em outros lugares, mas esse é o céu mais belo que posso alcançar - por enquanto.
Eu o achei estranho e fiquei triste. Se me perguntassem se minha vida estava boa eu responderia no ato que "sim, está tudo certo", crendo nisso. E talvez meu erro fosse esse. Acordar - Ir trabalhar - Voltar - Conversar com as pessoas - Jogar algo - Dormir - Recomeçar. Por mais que não me parecesse, era uma rotina. Do trabalho até em casa e vice-versa eu seguia em frente sem olhar para cima. Meu caminho já estava traçado e só eu não sabia. Eu somente obedecia sem nem notar.
Não, meus amigos, eu não vou colocar fogo nas igrejas e quebrar televisões, não mandarei minha chefe se foder e largarei minha faculdade. Eu não me libertei, não sei se ainda é possível fazê-lo.
Minha rebelião está mais em cima, literalmente. Quem sabe um dia sejamos todos livres, quem sabe um dia ninguém saiba o que ser livre significa. Eu não sei. Mas até lá, podem crer que eu vou erguer minha cabeça, olharei para o céu, cinza, azul ou laranja. Sorrirei para as nuvens, ou para sua ausência.
O céu continuou lá esse tempo todo, mas eu esqueci de observá-lo.

domingo, 10 de julho de 2011

Eu poderia,

Eu poderia ser inteligente se estudasse,
Eu poderia ser bonito se me cuidasse,
Eu poderia ter mais amigos se fosse simpático,
Eu poderia ser divertido se não fosse do contra,
Eu poderia ser bem sucedido se tivesse gana,
Eu poderia ser interessante se tivesse ânimo,
Eu poderia ser legal se fosse falso,
Eu poderia ser tudo se quisesse,

Eu poderia ser alguém se vivesse.
Mas não sou.

sábado, 11 de junho de 2011

03:03

Eu queria que o mundo não girasse mais, e sei que isso é impossível. Aliás, ele gira até demais, porque se você se lembra - eu não me esqueço - há uns 365 giros completos eu ainda falava contigo, e você partiu meu coração, arrancou-mo do peito e deixou à mercê da chuva e da solidão. E, mais que isso, há 730 voltas da Terra sobre o seu eixo, nós já nos falávamos, mas esse sentimento não tinha acordado dentro de mim. Eu disse "ah, oi, você tá bonita", e você estava mesmo, linda, como sempre. Não me recordo se realmente disse o "você tá bonita", mas se eu não lembro, você nem deve supor que pôde ter acontecido.
E antes disso? Antes eu era chato, você era idiota, e brigávamos, muito mesmo. Mas era legal. E a Terra girou e girou, até que hoje você está tão... bem sem mim, que eu pareço uma roupa velha, até posso servir, mas você prefere algo melhor, algo mais novo. Já sou passado, ultrapassado.
Mas bem lá no começo, eu nem me lembro de te ver no colégio, como eu podia não te ver? Não te notar? É engraçado, antes você era paisagem, depois passou a ser personagem principal, hoje é um borrão de um passado, um flashback deprimente.
Eu queria ter parado o tempo, ter me arriscado.
Eu quero esquecer que já fui tão feliz quanto você me ver.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Solidão.

Cercado por tanta gente, no trabalho, na faculdade, eles falam comigo, eu respondo e sorrio. Mas tudo o que eu sinto é a solidão. Falando com uma ou cem pessoas não me faz diferença, se nenhuma delas for você.
Eu fico tão triste e sozinho, me sinto obcecado, viciado, eu preciso falar com você, só por mais um segundo, não diga que tem de ir embora. Vem me fazer feliz, vem me dar um olá. Você se afasta, precisa respirar, e não percebe que sem você o meu coração perde o ritmo, e eu que fico sem ar.

Cercado por tantos pensamentos, no trabalho, na faculdade, eles gritam comigo, eu não respondo e choro. Eu sinto a solidão. Pensando não uma, mas cem vezes em você, sabendo que são apenas desejos, desejo você.
Eu fico feliz mas sozinho, me sinto obcecado, viciado, não me canso de pensar em você, por horas e horas, esperando você chegar. Não me faça triste, não me dê um adeus. Você se afasta, precisa respirar, e não percebe que sem você eu já não vivo mais.

Longe de você só existe você. Com você, eu quero você e eu. Mas eu, e só eu, sou só, só solidão. Mesmo em meio a multidão.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Dor de amor.

Dor. Dói, dói muito.
Meus dedos estão manchados de sangue, mas não é por isso que dói.
A gota de sangue derramada já dói menos que a lágrima que cai lentamente.
E eu me esqueci de você, sim, me esqueci. Me esqueci dessa dor toda. Quando a lâmina me distraía do meu coração.
dor. Dói, dói pouco.
Tão pouco que eu já me lembrei de novo de você.
E dele.
Percebi que eu fui esquecido.
E nunca formarei um nós com você, como vós.
Como dói. Por trás de todo esse sangue, não são cortes, nem batidas. É só um coração partido.
Dói muito, é dor de amor.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

bafo de bebida

Eu estava com um forte bafo de bebida, aquele cheiro que ela não gostava, mas eu não podia viver sem. eu estava com um forte bafo de bebida, mas o gosto de solidão continuava na minha boca, aquele gosto amargo que eu sempre senti até conhecê-la. o sabor estava mais forte que de costume, talvez pra compensar o tempo que estivemos separados.
"felipe, eu te amo, e você merece ser feliz, mas eu sinto que não sou eu quem te fará feliz, mas ainda podemos ser amigos, então, ainda podemos ser amigos?"
claro, claro, podemos ser amigos, eu ia sugerir isso mesmo. mal posso esperar pra você vir me contar do seu novo namoradinho e dos seus problemas de relacionamento que serão resolvidos com qualquer frase fofa que ele disser.


É claro que eu não tive as bolas pra dizer isso antes
"com certeza, antes de tudo nós somos amigos, e eu não quero perder uma pessoa tão importante quanto você" sim, essa é uma boa resposta para um covarde, alguém que não se importa em sofrer
mas agora eu tenho esse bafo de bebida, e parece que a coragem veio junto, agora eu poderia te dizer tudo, eu poderia dizer "não, eu não quero ser seu amiguinho, eu quero que você seja minha e só minha, eu quero te comer - com amor - não quero que você venha me dizer que outro fez isso contigo , entã ov ai se foder com sa amizade ,eu nã oqjuero nada disso ,eu qero você não é perdir muito, msa é impossíve, é impsiosvel pra voce sentir amor por algueom como eu, que tenho tanto amor pra te ofercer, mas sói iss. só amor, não sou lindo, nao sou descolado, nao sour ico, não sou rebeldo, só tenho amor;"
é... agora eu tenho coragem de te dizer tudo isso, ou melhor! te dizer isso, agora

"EU PRECISO TE DIZER UAM COSA"
"felipe, não com esse bafo de bebida"

quarta-feira, 18 de maio de 2011

O pintor.

Uma pincelada suave aqui, outra mais energética acolá. Pintava de forma ritmada, seus traços tinham música. Mas também podia ser mais rígido, mais frívolo. Ele era um exímio pintor.
Pintava sempre numa mesma praça, não diariamente, mas tentava pintar sempre que tivesse tempo. Afinal, ele era estudante - e não de artes - e também trabalhava para ajudar em casa. Mas a pintura era sua paixão verdadeira.
No começo, poucos davam atenção para sua pintura, somente alguns poucos amigos o apoiavam. Verdade seja dita, ele pintava por gosto e nunca tivera nenhuma instrução, mas com o tempo pegou o jeito e agora já tinha uma técnica avançada para alguém tão jovem.
Mais e mais pessoas passaram a admirar sua arte. Sempre que se punha a pintar, dúzias de pessoas paravam para observá-lo, ver sua obra, sorrir, chorar, emocionar, chocar. Ele fazia de tudo, quadros lindos; lúdicos; serenos, que deixavam qualquer um alegre, quadros horrorosos; bizarros; ácidos, que chocavam e criticavam a sociedade, incomodavam todos.
Porém algo sempre o incomodava, mas ele não dizia nada a ninguém. Ele pintava, pintava, pintava. Quadros de amor, quadros de horror, quadros abstractos, críticos, sonhos e pesadelos. Pintava de tudo, tudo o que sentia, tudo o que as pessoas queriam dizer mas não conseguiam expressar. E quando viam algo que dizia o que sentiam, que era realmente belo, ou fazia pensar, reflectir, quando o quadro realmente mexia com pelo menos um de seus espectadores, eles não diziam nada. Nunca o elogiavam, criticavam, apoiavam ou reprovavam. Adoravam seus quadros, certamente, entretanto ele não recebia um comentário sequer, a não ser que ele pedisse suas opiniões.
Cansado disso tudo ele resolveu lhes dizer o que sentia, como ele sabia. Pintou um quadro, um autorretrato, era ele a pintar na mesma praça com os mesmo espectadores, a cena era a que podia ser vista quase que diariamente naquele lugar, com uma pequena diferença: as pessoas que viam seus quadros estavam amordaçados, e com uma metáfora simples finalmente teve uma resposta.
- Desculpe-nos - disse uma moça no meio da multidão.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Corri.

Um sorriso no meu rosto.
O céu estava cinza, as nuvens prestes a chover.
Mas não, não era por isso.
Eu me sentia vivo, livre.
Meu coração palpitava.
Minhas pernas começavam a pesar.
Eu não tinha destino.
Não perseguia ninguém.
Nem era perseguido.
Não tinha ninguém me esperando.
Ou ao meu lado.
O vento batia no meu rosto.
Levantava meu cabelo.
Eu não queria, mas teria de parar.
Mais um pouco, eu conseguia.
Mais um pouco.
Eu continuava sorrindo.
Cansando.
Parando.
Estava feliz.

Corri.

domingo, 8 de maio de 2011

Como se dança?

Como se dança? Eu perguntei.
As respostas eram diretas, objetivas. Eu descobri que era muito fácil dançar. Com um pouco de prática eu estaria dançando bem, quem sabe muito bem, dentro de pouco.
E assim foi, pedi a uma amiga que praticasse comigo.
Ai, pisou no meu pé de novo. Ela dizia. Desculpe-me, mas a gente tava indo bem, admita. Até você pisar no meu pé, né.
Todos os dias, quando nos viamos e tinhamos tempo, dançávamos, valsavamos. Na escola, quando nossos horários batiam. Na casa dela, quando não tinhamos dever. Na estação do metrô, esperando pelo trem.
Você tá bom, hein, também, com uma parceira dessas. Haha, claro, você é a melhor, eu sou um pé de valsa simplesmente por isso mesmo, não porque tenho o sangue latino correndo em minhas veias.
E riamos, riamos, dançávamos e riamos. Mais riamos que dançávamos. Mas eu dançava bem, no fim. Estava preparado. Não faria feio.

Chegou o famigerado dia. Eu estava confiante, estava pronto. Estava de terno, estava terno. Eu era apenas mais um para dançar, mas sentia que aquela era a minha noite, trabalhei duro, merecia brilhar.
O momento da valsa estava chegando. Meu coração já batia no compasso binário composto. Duas vezes para a esquerda, duas vezes para a direita. Eu estava pronto.
Era agora, precisava mostrar a todos porque estava lá. Eu iria dançar com outra garota, não era a minha amiga, mas haviamos praticado, ela não era ruim. Ela fazia tudo certo, não fazia nada de mais, mas não importava.
A música começou, eu coloquei minhas mãos em sua cintura. Sorri para mim mesmo. E parei. Parei!? Eu parei, senti que não conseguiria mais, senti que tudo que pratiquei foi para o ralo. Meu par era frio, era duro. Eu e ela não éramos para ser.
Como se dança!? Eu perguntei a ela.
Ela me disse os passos metodicamente, ela havia estudado. E foi aí que eu percebi.
Dançar é uma arte, não existem passos certos, não há fórmula, não é algo exato. Faltou-nos a paixão, o amor. E como toda arte sem sentimento, nossa dança foi vazia, mecânica.

Como se dança?
Com amor.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

O pássaro.

Ouviu-se uma batida vindo da janela, assustado o rapaz foi verificar o que ocorrera. Ao abrir a janela, viu pequeno passarinho vermelho caído do lado de fora, o pássaro sangrava e estava sem muitas penas. O garoto então rapidamente socorreu a ave e tratou seus ferimentos. Com muito zelo, com muito carinho, ele cuidava do pequeno rubro passarinho.
Dia após dia, o jovem cuidava do pássaro como se fosse seu bebê, brincava com ele, dava-lhe atenção, alimentava-lhe. Pouco a pouco, a ave ficava melhor, fica mais forte, maior. Logo cedo ele começava a cantar de alegria, e ao ouvir a bela canção, o rapaz sorria. Ficava feliz em ver como seu filhote ficava cada vez melhor, tudo graças a ele. Sentia que não só o pássaro, mas também o seu próprio coração crescia cada vez mais, repleto de alegria e de amor.
Mas com o passar do tempo, o pássaro precisava menos de cuidados, menos desse mesmo amor. E o garoto percebia isso, percebia que deixava de ser essencial para a ave, somente não queria admitir isso, não queria acreditar nisso.
Ouviu-se uma cantoria histérica, assustado o rapaz foi verificar o que ocorrera. Ao abrir a gaiola, viu o grande pássaro vermelho inquieto do lado de dentro, o pássaro era belo e suas penas brilhavam. O garoto então lentamente pegou a ave e abriu a janela. Com muita dor, com muita tristeza, ele deixava seu pequeno rubro passarinho.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Um pedido.

Ela me pediu apenas uma coisa. Não foi um anel de brilhantes ou um bouquet de rosas, não, não foi. Também não foi um beijo apaixonado ou um abraço quente, não, também não foi. Ela não me pediu jóias, carícias, serenatas, palavras de amor no pé do ouvido.
O pedido dela foi simples, ela pediu um pouco da minha arte. Minha fria arte. Sem música, sem côr. Minha fria arte. "Escreva sobre mim." Foi isso que ela pediu, sim. "Eu adoro quando faz isso." Completou. E o que eu poderia fazer? Negar-me? Negar-lhe? Não, não, eu não sou de negar, jamais. Dar alguma desculpa? Fingir que esqueci? Eu não posso, sou um escritor, escritores sempre dizem a verdade. E a verdade, meu amor, é: Quando me pedem para escrever sobre cães, escrevo sobre gatos; Se me pedem para escrever sobre o preto, é do branco o meu texto; Não faço isso de mau grado, não sou do contra, mas preciso mostrar o outro lado. Ser previsível nunca foi o meu forte, não surpreendo, só não faço o esperado.
Agora me diga, querida, se é sobre você que preciso escrever, qual seria o outro lado? Eu mesmo? Seria eu o teu oposto? O teu yang? Sou eu quem te completa? Eu não sei. Não sei se é possível saber. Nossos corações não são copos que podem se encher com a água, o seu limite somos nós quem decidimos. Um coração que se completa é um coração restrito. Você não me completa, porque contigo eu não tenho barreiras.
"Escreva sobre mim, adoro quando faz isso.". Um pedido simples, complicadamente simples.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Repetição.

Repetição. Repetição. Repetição.
Repetição, talvez o mundo seja apenas feito de repetições.
Repetição atrás de repetição.
Repetição, o seu maior problema é que será sempre igual. Não importa o que façamos, ou pensemos que estamos fazendo.
Repetição, sempre o mesmo fim.
Repetição, sempre o mesmo começo, por mais que não gostemos e evitemos.
Repetição no início meio e fim.
Repetição que não se repete mas é sempre igual.
Repetição, não adianta querer mudar, não adianta fazer diferente, no final, tudo é repetição.
Repetição.
Repetição.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Salomé.

Salomé, Salomé, dama da tentação.
Nem garota, nem mulher.
Apenas uma criança sem coração.
Salomé, Salomé, continue a dançar.

Filha de Herodíade, não se esqueça
Do pedido que fez para sua felicidade,
De João Batista demandara a cabeça.
E para voltar atrás já é tarde.

Salomé, escrava de sua dôr.
Matara seu amor, um homem de fé.
E agora não tem nada,
além de um troféu manchado de rubro numa bandeja de prata
E as lágrimas que escorrem pelo véu.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Retrato-Falado.

- Bom... como ela é? Ela... ela sempre tem uma resposta pra tudo. Ela sempre me contraria. Faz isso só pra me provocar. Bom, ela também sempre se preocupa comigo, sempre procura me fazer feliz. Tem o melhor abraço do mundo, isso que posso te dizer, ele é quente, confortante. O sorriso também é perfeito, não por como ele é, mas por como ela sorri, primeiro ela esconde o sorriso, mas depois fecha os olhos e ri, é perfeito. Mas ela também gosta de me bater, sem motivos, ela sempre faz isso, não machuca, claro, não faz pra machucar, mas me bate sempre. Ela sorri, ri, me bate e diz "para, besta!" de um jeito que é impossível não amar, ela não está brava, não quer que eu pare, gosta do que faço, mas nunca admite. Isso porque é orgulhosa, como é orgulhosa, nunca pede desculpas quando realmente precisa, sempre espera que eu vá falar com ela, me retratar por erros que eu nem cometi. Mas tudo bem, porque mesmo sendo orgulhosa, ela sempre me desculpa quando eu faço besteira, e eu faço isso bastante. Ela também anda de um jeito engraçado, fala de um jeito engraçado, ela é diferente, toda diferente,  é completamente única. Não há como descrevê-la, ela foge das definições possíveis. Ela é fantástica!
- Certo... mas, como ela é... digo, fisicamente?
- Ah... isso eu não lembro bem, sabe, não é tão importante.
- Ok, ok. O que ela te roubou mesmo, senhor?
- oh, meu coração, policial.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Os meus olhos doem, ardem. Eu os pressiono com as palmas de minhas mãos. Não consigo pensar em nada, talvez sómente nesse texto, talvez. Passo meus dedos pelos meus cabelos, frustrado, olhos fechados e cabeça baixa. Paro. Sentado. De frente para o computador. Sinto o frio na minha pele. Minha cabeça dói. Minha garganta ainda arranha. Respiro fundo. Apoio-me com minhas mãos no rosto. Respiro fundo. Olho longe, olho pela janela. "Eu nunca achei que minha alma fosse pequena.".

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Sonhos.

Existia um garoto muito feliz, que sempre andava sorrindo. Ele não tinha muitos amigos, mas sempre que o viam ele estava com uma cara alegre. Muitos não entendiam o porquê, já que quase não o viam com ninguém.

"Ele fica sonhando acordado... é praticamente uma criança" diziam os que já o conheciam, a fim de explicar a alegria do rapaz. "Falaram-me que até a dormir ele fica com esse sorriso infantil, deve continuar os sonhos que começa acordado." Emendavam.

E os dias passavam, o rapaz cada vez menos precisava dos outros, claro que tinha amigos, grandes e verdadeiros amigos, mas ele sorria sozinho, conseguia ser feliz por si mesmo.

E os dias passavam, e o rapaz passou a ter mais responsabilidades, precisava se preocupar com a faculdade, o trabalho, a família, os amigos. Não tinha tempo a perder, não tinha tempo p'ra sonhar. Já não sorria tanto. A alegria fugira-lhe pouco a pouco. Deixou de ser feliz. Andava cabisbaixo, pensando em tudo que precisava, nem dormir bem conseguia mais, pois precisava ficar acordado até tarde para resolver seus problemas.

E os outros diziam "finalmente deixou de sonhos tolos, finalmente ele cresceu e se tornou alguém normal."

quarta-feira, 6 de abril de 2011

"Eu não presto."

"Eu não presto, não sou uma boa pessoa."
Você é um bom garoto. Tem um sorriso cativante, ele é belo, é delicado. Seus movimentos são calmos. Seus olhos são confortáveis. Sua voz é doce e me faz bem, mesmo quando você me diz "eu não sou tão bom quanto pareço, tenho medo de te machucar". É impossível acreditar numa coisa dessas. É impossível imaginar que você possa me fazer algum mal.
Seu abraço me aquece. Suas mãos me protegem. Seus beijos me derretem. Cada vez mais eu vejo que você é magnífico. Com os dedos entrelaçados eu repouso minha cabeça no seu peito, seu coração palpitava, e eu sabia que nele não podia haver maldade.
"Eu não sou uma boa pessoa." Você me dizia. Mas eu olhava fundo nos seus olhos. Seus olhos castanhos, iguais a quaisquer outro. E via algo que não achava em mais nenhum, um brilho, um brilho quase infantil. Era a inocência. "Não diga besteiras", eu replicava.
O tempo passou, e cada vez mais eu via como você era bom. Nada em você dizia o contrário. Era tenro, era doce. Você não era uma boa pessoa, era uma ótima. Talvez eu não te merecesse, talvez ninguém te merecesse. "Eu não te mereço" foi você quem disse isso, antes que eu pudesse fazê-lo. "Você é incrível" e é verdade, só pude dizer isso, a verdade.

Um dia, por algum motivo, não estávamos mais juntos. Você foi pra lá, eu fui pra cá. Talvez você me odeie, talvez eu não sinta mais nada. Você me disse que ficaria bem, e a serenidade na sua voz me machucou, não porque eu quero te ver mal, pelo contrário. Mas o que me incomodou foi que seu tom foi o mesmo quando me dizia que não era alguém bom... então eu espero que você realmente seja uma pessoa desprezível.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Medo.

Medo.
É isso o que eu tenho.
Medo.
É isso o que eu temo.

Medo.
Medo.
Medo de quê.
De te perder.
Talvez.
Medo.
De quê.
Medo.
De não ter coragem.
Bobagem.
Bobagem.

Se ter medo é ser fraco. Então eu sou um dos mais fracos do mundo. Eu tenho medo de mim mesmo. De você, de perder você. Do meu passado. Da responsabilidade do presente. Da escuridão do futuro. Tenho medo de viver. Mais medo ainda de morrer. Medo de desperdiçar mais chances. Medo de não ter mais chance alguma. Medo do dia que passa e eu não percebo. Medo de acordar de novo nesse mundo que me amedronta. Medo de nunca acordar de um pesadelo repleto de medos.
Medos.
Eu não quero te perder.
Não quero que você se vá.
Não quero ir.
Não quero me perder.
Não quero temer.
Mas tenho medo disso tudo.
Tenho medo... de não ter mais medo.




Medo.

domingo, 3 de abril de 2011

MonoDiálogo.

"- Você já pensou que algumas pessoas podem ter nascido para serem infelizes? Já parou para pensar nisso?
- Você já parou de pensar nisso?
- Eu tô falando sério, eu tava pensando nisso esses dias... sei lá, vai ver algumas pessoas simplesmente não consigam ser felizes.
- Esse é o seu problema.
- Não conseguir ser feliz?
- Não, pensar.
- Mas todo mundo pensa.
- Não tanto quanto você. Você pensa muito, em tudo, sempre. Isso não pode fazer bem a ninguém.
- Não dá pra pensar mais ou menos... a gente tá pensando sempre, não dá pra você ficar, sabe, com a mente vazia.
- Acho que você entendeu, você pensa demais nas coisas, esse é o seu problema. As pessoas só vivem a vida delas, tentam não pensar muito nos problemas, ou pensar em coisas que ninguém pensa, em coisas inúteis, em coisas redundantes, não pensam tanto no "e se", não tanto quanto você, pode acreditar em mim.
- Eu sei, eu já pensei nisso, mas não consigo evitar... se eu tentar parar de pensar, eu vou acabar pensando, porque eu sempre penso, em tudo.
- O tudo é muito inútil. Pense mais no nada. Pense em nada. Não pense nas consequências, viva mais, pense menos.
- Faria sentido isso que você diz... se você não fosse fruto do meu pensamento."

Pensara o rapaz confuso.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Inferno.

Aqui dentro é o inferno. O inferno não tem fogo. Não tem pecadores. Pecados não existem, não fora daqui. O inferno não tem dono. Não tem escravos. Além de mim. O inferno não tem sofrimento. Não tem dor. O inferno não tem lava. Não tem ácido. Os céus não estão em chamas. Não há chuva de meteoros. Não há um abismo sem fundo. Não temos enxofre aqui. Nem demônios. Não há calor. Não há frio. Não há tristeza. Não há felicidade.
Aqui dentro é o inferno. E o inferno sou eu mesmo - e não os outros. Aqui dentro é o inferno, não há nada aqui. Nem paz, nem caos. Nem luz, nem escuridão. Nem anjos, nem demônios. Não há Deus algum. Não há salvação. Não há redenção. Não há julgamento. Não há punição. Não há amor. Ódio. Sonhos. Pesadelos. Realidade. Imaginação. Nada disso faz sentido aqui dentro. E tudo isso faz mais do que sentido. Tudo está, sem precisar ser. Tudo é, sem estar.
Aqui dentro é o inferno. O passado já passou, e continua passando. Repetidas vezes. O presente. Não é um presente. O futuro se mistura com o passado. Nada disso existe. Nada disso é real. O tempo não existe.
Aqui dentro é o inferno. E no inferno, somente eu existo. Se é que existo.

domingo, 27 de março de 2011

sexta-feira, 25 de março de 2011

Chuva.

Eu sou a chuva.
Posso chegar sem aviso, ou fazer todo um ritual para dar uma visita.
Eu sou a chuva.
Eu sou a chuva.
Às vezes, vou embora rapidamente, às vezes, instalo-me aqui e só vou embora quando cansar.
Eu sou a chuva. Eu sou a chuva. Chuva.
Há quem reze para que eu venha, e festeje minha chegada.
Há quem torce para que eu fique longe, e pragueje minha passada.
Chuva. Chuva. Chuva.
Chuva. Chuva.
Chuva.
Alguns precisam de mim. Outros são prejudicados por mim.
Chhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhuva.
Existem aqueles que simplesmente gostam da minha presença, que me acham uma boa companhia.
Existem aqueles que simplesmente não vão com a minha cara, mesmo que mal eu não os faça.
ChChChChChChChChChChChChChChChuva
ChChChChuvaChChChChChChChCh
ChChChChChChChChuvaChChCh
ChChChCh
A verdade é:
Por onde eu passe, deixo marca. Boas, ruins. Saberão que eu estive lá, lembrarão que eu estive lá. E eu sempre passarei.
chhhhhh

segunda-feira, 21 de março de 2011

02:02

Eu não quero mais saber de você, por favor, desapareça. Por favor, saia de minha vida. Por favor, vá embora. Você não merece tudo que eu fiz. Eu não mereço tudo que sofri. Então, por favor, eu não quero mais chorar.

domingo, 20 de março de 2011

Vendo aquele conhecido rosto desconhecido, tudo voltou. Eu lembrei de quando visitara aqui com você, só estava te acompanhando, não era nada importante, eu não fui importante. Mas por menor que o tempo tenha sido, tudo é diferente para mim. Eu procuro sempre aproveitar, procuro me entregar e, no final, eu sempre sofrerei muito.
Vendo o conhecido rosto desconhecido, tudo voltou. Meus olhos fugiram daquela pessoa que certamente não me reconheceria, mas eu o reconheci, reconheci esse lugar, reconheci os meus sentimentos. Não, o rosto dele não mudou; o lugar continua igual; e meus sentimentos intactos.
Vendo aquele rosto que fez tudo voltar, eu conheci o desconhecido. Talvez nem mesmo eu soubesse o que eu sentia, mas pensando agora eu vejo o quanto fui cativado, vejo que poderia até ter amado. E eu não podia mais ficar naquele lugar, eu tinha de sair o quanto antes, fugir de mim, de você, de nós. Sorte a minha que o nós já se foi, você já está bem longe, mas quem poderá me salvar de mim mesmo?

Fugi, fugi sem olhar pra trás, mas olhando pra frente eu podia me ver, me ver refletido nas poças da chuva, nos carros, nas vitrinas. Eu não me dava trégua, até ver através de mim, eu reconheço essa vidraça. É um restaurante que eu já passara várias vezes, mas só entrei uma, com ela. A primeira e última, com ela. Sentei numa cadeira do lado de fora do restaurante. Eu precisava descansar, precisava me recompor. Não posso fazer mais nada. O que posso fazer? Aceitar. Só posso aceitar. Nem entender é uma opção válida mais.
"O senhor deseja algo?"
"Não, perdão, eu só estava um pouco cansado, já vou embora."

Levanto-me e parto de novo. Sigo, por lugares conhecidos, com rumos desconhecidos. Continuo em frente, caminho lentamente, não tenho pressa, ninguém me espera em lugar nenhum. E agora eu ainda caminho, cada vez mais devagar, não tenho mais vontade - ou forças - de continuar. Quando a noite chegar, eu não terei você. Quando a noite chegar, eu não poderei sorrir sabendo que você terá a mim.

Eu não quero mudar as coisas, o passado é imutável - ou será? -, o presente é triste, o futuro é incerto. Eu não quero entender as coisas, algumas coisas são incompreensíveis, outras preferimos não entender, o resto a gente supõe entender. Eu não quero mais nada. Eu só estou um pouco cansado. Já vou embora.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Se você quer sair, saia logo.
Se você hesita, ainda sente algo.
Se odeia, me esqueça.
Se chora, é humano.
Se grita, não tem razão.
Se chora, não temos razão.
Se cala.
Se para.
Se paramos.
Se ama, diga.
Se quer pense em mim.
Se paro.
Se paramos.

Se vive, levante-se e diga.
Se quer viver, sofra.
Se quer sorrir, volte.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

A flôr.

Existia uma flôr. Uma única flôr. Que vivia numa cúpula. Que a protegia do mundo exterior.
A flôr tinha uma delicadeza ímpar. Uma beleza inigualável. Uma pureza inabalável.
Todos que a admiravam ficavam bem. Ela trazia paz para quem passasse. Ela fazia sorrir o mais carrancudo. E com ela o mundo fazia mais sentido.
A flôr era bela e sobrevivia sómente com a luz vital do Sol. Ela vivia sozinha, ela e mais ela. Ela e menos o mundo.
Todos a adoravam. Todos a amavam. Todos a admiravam. Cada vez mais. Cada vez mais esperavam mais dela. E ela só era. Só era ela.
Sob o sol. Sob o luar. Sempre a brilhar.
Ontem ela era ela. Ela ontem.
Hoje ela é ela. Ela hoje.
Amanhã ela será ela. Ela amanhã.
E com o passar do tempo. Nada mudou. Todos a admiravam de fora da cúpula. E ela continuava sendo linda e inalcançável. Uma única flôr. Sozinha. Perfeitamente sozinha.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O barco.

Um marinheiro preparava para entrar no mar com seu pequeno bote quando seus amigos apareceram:
Ainda com esse velho barco? Ele ainda acabará sendo sua ruína. - Disse um deles.
É, cara, não leve a mal, mas... esse bote já era, já deu o tempo deles, o tempo de vocês. Compre um novo, existem tantos melhores por aí. - Acrescentou o outro.
Deixem de bobagem, ele ainda está em perfeitas condições, ele me é suficiente. Já cansei das grandes viagens, agora eu só quero pescar um pouco, navegar pelo calmo mar, nós dois não queremos complicações. - Respondeu o homem do mar.
Claro, claro, você não vai mais ao alto mar porque seu amiguinho não aguenta e você não quer arranjar um novo, mas tudo bem, depois não nos diga que não lhe avisamos. - Falou o primeiro indo embora.
Nós só queremos o seu bem, e esse barco acabará por acabar contigo... - Avisou o segundo enquanto partia com o outro.
Isso, vão embora! Vocês tem inveja porque não tem um barco como o meu! Um barco que aguentou selvagens tempestades, que navegou por muitos mares e ainda está inteiro! Vão embora. - Proferiu o marinheiro entrando no barco.
Amigos patifes. Não me apoiam, não nos apoiam, eu não preciso deles, não enquanto ter você. - Sussurrou para o barco, enquanto desatava o nó que prendia a embarcação ao píer.
E juntos foram ao mar.

O mar estava calmo. As águas refletiam o belo céu azul e os raios dourados do sol. As gaivotas voavam alto e dançavam para todos verem. Os peixes não se acudiam pela presença dos barcos de pesca e pulavam para fora do mar a fim de se exibir e aproveitarem a linda tarde.
O mar estava calmo. As ondas eram macias e embalavam a velha embarcação num ritmo doce e pacífico. As ondas macias se chocavam com as rochas e espalhavam sal e água por cima dos peixes e dos barcos, refrescando-os.
O marinheiro não estava calmo:
Tudo bem, o seu mastro está meio quebrado. A sua vela desgastada. O seu casco teve alguns buracos. E sua quilha parou de funcionar há algumas semanas. Mas ainda sim você está em bom estado. Você é meu parceiro, eles não tinham o direito de dizer isso! Eles deviam se oferecer para me ajudar a te consertar, ao invés de numerar seus defeitos e dizer para eu arranjar um novo barco! Pff, quem precisa de amigos assim? Só preciso de você, de você e do mar. - Praguejava sozinho o gajeiro, prestes a adormecer sobre o calmo mar.

A chuva forte e gelada acordou-o num susto. Ele se levantou e percebeu que adentrara em muito no mar e já não conseguia ver a costa de sua cidade. Tudo que conseguia ver eram as nuvens ferozes prestes a devorá-lo com suas línguas de trovão. Elas rugiam, elas cuspiam e o barco sacolejava. A chuva ia ficando cada vez mais forte, o vento era intenso e balançava o pequeno bote de um lado para o outro. O marujo tentava remar, tentava levantar vela, mas era tudo em vão, o barco não conseguiria sair inteiro dali, e ele também não se continuasse lá. Ele tinha de pular para tentar se salvar.
Um estalido pôde ser ouvido seguido por um forte estrondo. O mastro caíra. O marinheiro não sabia o que fazer. O mar ficava mais e mais enraivecido, as ondas tentavam virar o barco. E o barco já não tinha mais forças para se proteger. Mais um estalido, o casco se rachou, a água invadia a embarcação rapidamente. A água era fria, gélida. Ele não tinha como se proteger da torrente. O barco começava a se afogar. Inutilmente o marinheiro tentava tirar a água de dentro do bote. Os trovões rugiam mais e mais alto, a água vibrava e reverberava com a força dos raios. O pobre náutico não conseguia enxergar nada mais somente água. Mar, chuva, lágrimas.
Pouco a pouco o barco afundava, pouco a pouco, o barco desistia, pouco a pouco, mas ele continuava lá. Em meio a tanta chuva, em meio a tantos trovões, ondas, o marinheiro disse suas últimas palavras, para o barco. E pulou.

O céu voltou a se abrir, o sol a sorrir. As nuvens estavam macias e alegres. O mar estava azul e calmo. E um arco-íris podia ser avistado ao longe. Do barco só restaram alguns pedaços de madeira. Uma quilha sem funcionar, uma parte do mastro, lixo, memórias. Do marinheiro, só restou o resto do barco.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O guardador de nuvens.

Pudera eu ser um guardador de rebanhos.
E ter a vida bucólica que sempre quis.
Em meio a paz e a tranquilidade.
Mas não, não na grande cidade.
Aqui não existe paz, não existe natureza.
Aqui a minha selva é de pedra.
Os animais são os homens.
E a calma é uma ilusão.

Mas eu não posso ser um guardador de homens,
os homens não servem para isso,
não são espertos o suficiente.
E em meio a tantas ilusões,
contento-me a guardar as nuvens,
que são belas, alvas e fofas,
assim como os carneiros,
que um verdadeiro guardador preza e zela.