sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Gol. (Nascimento, Queda e Redenção.)


Já aos 18 encarava pressões enormes, que poderiam decidir toda sua carreira. Todos os olhares se voltavam para ele, para seu futuro, para quem ele ainda não era.

"Vai ser um Craque." "Não é tudo isso."  "Já é um craque." "Será o melhor do mundo." "Pura enganação."
Todos decidiam o que ele era, o que seria.
"Não leva nada a sério." "Joga com alegria." "Exagerado."
Sabiam o que era melhor para ele, como devia ser e agir.
"É o novo Ciclano." "Melhor que Fulano." "Parecido com Beltrano."
Nunca foi ele mesmo, sempre tinha de se igualar a alguém, superar alguém, até conseguir ser comparável a ninguém.


Aos 20, passava a deixar de ser uma promessa e passou a ser uma realidade, cada vez mais confiavam nele, seu potencial virou valor, estava quase preparado para deixar sua marca, gravar seu nome, ser alguém.

"Craque." "Ingênuo." "Ídolo." "Gênio." "Enganação."
Rotulavam-no como se vendessem um produto, rotulavam-no como se isso fosse fazê-lo mudar.
"Autêntico." "Fica se preocupando com coisas fúteis." "Gosta de aparecer."
Queriam estereotipá-lo; queriam diminui-lo; controlá-lo.
"Esperança nacional." "Quero ver contra os melhores." "Agora precisa mostrar a que veio."
Jogavam tudo nas suas costas: os sonhos; a esperança; a responsabilidade. Tudo, todos, para um.


22. A hora da verdade, finalmente provaria ou seria reprovado; o que construiu nos últimos anos seria concretizado ou ruiria, mas não sairia como entrou.

A partida já estava nos acréscimos, a equipe de camisa amarela precisava de um tento para levá-la à prorrogação, para não perder toda a esperança, para não deixar a taça escapar, para não sofrer seu maior vexame na história.
Ele recebeu a bola na entrada da área, à frente, dois defensores com camisas azuis e brancas, bateram nele no jogo todo, jogo truncado, jogo feio, jogo emocionante. Partiu para cima do primeiro, com velocidade, gingou, jogou o corpo para um lado, a bola para o outro, saltou pela rasteira que o zagueiro aplicou e pegou a bola do outro lado. Um no chão, um a ser driblado. Invadiu a caixa de 16 metros, que pareciam quilômetros até a meta. Ergueu a cabeça, seguiu. Passou o pé por cima da pelota, de um lado para o outro, como um pêndulo que hipnotiza o voluntário da plateia, mas esse aqui não foi voluntário, estava nervoso, mais nervoso que seu adversário, afobado, deu o bote, e tão rápido quanto sua reação involuntária, viu apenas dois toques, um para a direita, outro, com a bola ainda no ar, direto entre suas pernas, antes de cair, ainda conseguiu tocar o pé do jogador que passava por ele, como um raio. Tropeçou, perdeu o equilíbrio e... levantou novamente, ao invés de cair, como normalmente faria, decidiu seguir, ir até o fim, apenas ele e o arqueiro, que crescia a cada passo que dava, inversamente proporcional às traves, que diminuíam.  Com um toque sutil, apenas um, fez a bola subir, subir, ao ponto de passar pelo gigante guarda-redes e descer, descer, ele parou, o goleiro parou, o estádio parou, o Brasil parou, o mundo parou. Segurou a respiração, gravou aquele momento perfeito, de glória, de redenção, ela descia, suavemente feito pluma, descia, pouco mais de 82 238 pares de olhos não piscavam dentro do Maraca. Mais de 400 milhões de olhos, seguindo a bola, 200 milhões de corações apertados. Ela foi, foi, no travessão!

"Decepção." "Desilusão." "Vexame." "Tragédia."
Tentavam explicar o que acontecia, mas não era possível, simplesmente não era possível aquela bola não entrar.
"Não tão bom quanto o outro." "Segundo melhor." "Primeiro dos últimos."
Julgavam; comparavam; rebaixavam; nunca seria o suficiente, nunca seria indiscutivelmente o melhor.


Com 24, não rendia tanto quanto antes, desde o incidente há dois anos, não foi o mesmo. Faltava brilho, faltava gana, faltava algo mais. Os holofotes se apagaram, os olhares se cerraram, mãos amigas tornaram-se punhais. O chão desapareceu, não tinha onde se apoiar, a pressão foi maior, teve de ceder, foi esmagado.

"Fim de carreira." "Nunca mais o mesmo." "A chama queimou muito rápido."
Decretavam seu óbito; davam-lhe a data de vencimento, já passada.


Chegou trôpego aos 26, longe do ideal, de pessoa, de atleta. Perdido em vícios, perdido em más companhias, perdido.

"Podia estar no auge, se não fosse tão desleixado." "Já foi bom, hoje é peso morto." "Lamentável."
Julgavam seus próprios erros, criticavam o que criaram, deixaram-lhe para o esquecimento, lembrariam apenas ao recordar más lembranças.


Com 28 voltou a ser um anônimo, sensação que mal viveu, desde pequeno era cobrado, desde menino sofria pressão, tinha de ser alguém, tinha de ser o melhor. Mas não agora, agora tinha de ser apenas ele mesmo, apenas feliz.

"Quem mesmo?" "Já perdemos a esperança." "..."
Estava livre, estava sozinho, estava pronto para dar o troco. Dessa vez sabia como fazer, não cairia nos mesmos truques, sabia que só teria uma chance.


30. Chegava à reta final, batalhou bastante e tinha recuperado a confiança que tinha, ou parte dela. As pessoas voltaram, mas ele soube lidar, tinha mais uma chance, provavelmente a última, de ser o melhor, pelo menos por 90 minutos. O tempo estava a seu favor, em diversos aspectos.

Aos 30 minutos, passou entre dois marcadores e deu um chute certeiro, no ângulo, a torcida foi ao delírio, ele explodiu de emoção, tirou sua camisa alvinegra, rodou-a, pulou, vibrou, recebeu uma punição.
A 1 minuto do final da primeira etapa, seu rival, que marcara há 8 anos, recebeu a bola, tirou do primeiro com um movimento plástico, de quebrar a espinha, pra lá e pra cá, o segundo veio e foi como o vento, passou pela bola sem nada encontrar, pois o cabeludo com a camisa grená e azul já estava arrematando, cruzado, sem chance para ninguém, a rede estufada, a alegria extravasada, e os dedos apontados para os céus, sabia que aos 35 esse podia ser um dos últimos que fazia.
Foi e voltou dos vestiários mudo, sem responder perguntas, sem responder provocações.
O embate foi ficando mais truncado, violento, cartões para ambos os lados, os protagonistas ficaram de lado, até que aos 85 minutos de partida o time do brasileiro recebeu uma penalidade, numa jogada confusa, empurrões para os dois lados um jogador no chão, o apito e o centro da grande área.
Ele pegou a bola no mesmo instante, pôs a bola sob o braço e seguiu para a marca da cobrança. Olhou para o goleiro, olhou para o alto. Ouviu a permissão. Inspirou, expirou. Sorriu, sorriu verdadeiramente, não era alegria, era felicidade, abriu um sorriso nada ousado. Deu dois passos, chutou, escorregou, foi para o chão, a bola para o alto, por cima da meta. Ficou lá, parado, sem saber o que fazer, relembrou o que viveu, perguntou-se se valeu a pena, se atingiu sua meta, não sabia como agir, continuou lá, deitado, com as mãos tapando o rosto. Ouvia um apito incessante, sua cabeça girava, levantou-se e percebeu que o apito não era da sua cabeça, o árbitro assinalou uma infração no momento da cobrança, o argentino invadira a área, teria outra chance.
Inspirou. Expirou. Sorriu. Correu. Chutou.
Pra fora, de novo.

Foi substituído, viu seus companheiros vencerem nas cobranças alternadas, comemorou com eles. Estava feliz, estava leve. Quando indagado por um das dezenas de repórteres presentes lá do outro lado do mundo, respondeu. "Esse sem dúvidas foi meu melhor e mais importante jogo. E o último também."




(Desceu, desceu, lentamente, e é gol! Goooooooooooooool! Do craque, do camisa 11! Do Brasil! Que golaço, por cima do goleiro, como ele sabe, vai Brasil, vamo vira!


Só pra não ficar entalado na garganta)

Fin

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A nossa música.

Uma tarde normal de quarta-feira, quente e tediosa, bem no meio da semana. Um dia comum, sem grandes surpresas, sem grandes expectativas. Uma quarta-feira que mal se vive, entra no automático e espera o final da semana.

Uma fila imensa de carros se amontoava, carros barulhentos com motoristas furiosos. Buzinando, xingando. As luzes vermelhas, o sinal de Pare, a sirene, as buzinas. Carro atrás de carro, xingando, buzinando.  Uma fila que nos irrita cada vez mais por nos fazer pensar na vida.

(o dia estava calmo demais para tudo dar certo)

Um aglomerado de curiosos, se amontoando neles mesmos, querendo ver o que aconteceu, chocados, surpresos. Dando pitacos, seus "eu-vi-o-que-aconteceu", atrapalhando tudo. Um aglomerado de espectadores da vida, frustrados por não poder mais seguir seus roteiros, tentando preencher o vazio entre uma novela e outra.

Uma ambulância e um carro de bombeiros, desesperados, abismados, incrédulos, fazendo de tudo para o salvar. Não conseguem entender o que veem, com cuidado cortam o que atrapalha, trazem curativos, trazem curas. Uma ambulância e um carro de bombeiros inúteis, que não curam a dor em seu peito.

(tudo estava indo tão errado que só poderia ser certo)

Um carro capotado, amassado, retorcido, seguido por uma marca de pneus no pavimento. Vidro espalhado, sangue esparramado. Um carro capotado, de ponta cabeça as coisas parecem fazer mais sentido.

(só parecem)

Um motorista ensanguentado, com a ferragem do carro perfurando a cavidade onde deveria estar seu coração, com os olhos para o rádio e as mãos no volante, sem prestar atenção em mais nada. Um motorista ensanguentado, sem coração, sem direção.

Uma música de amor, óbvia, utópica, sobre desencontros e enganos. Mas que traz lágrimas aos olhos de alguns, um sentimento melancólico, uma dor incalculável. Uma música de amor, afinal.

(pequei na vontade de ter um amor de verdade)

"Você está bem?" perguntou o paramédico. Esperei nossa música acabar, com o sangue escorrendo de minha testa, com uma lágrima escorrendo no meu rosto, disse-lhe "não... ainda sinto falta dela."

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

O significado da vida.

É muito arriscado esperar a vida acabar pra ver se realmente há algo maior, o maior que deve haver em nossas vidas é a própria vida.
Sem carpe diem ou essas coisas já batidas, só precisamos nos dedicar ao que nos faz querer viver, algo pelo que morreríamos.
Não importa qual seja seu sonho, apenas siga-o, não importa se para os outros não seja nada de mais, quem sabe de mim sou eu. Siga em frente, olho aberto.

Quem sabe se a vida tem significado, não é uma ciência exata, só quero acreditar que perdurar é o caminho certo.


(Só quero me convencer de que escrever sobre amor não é desperdício de tinta.)

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

De tantos "estou ficando louca", fiquei louco.

"Estou ficando louca" quantas vezes você me disse isso?
5?
30?
todos os dias da nossa vida?
26280?
azul?

De tanto falar isso, acabei perdendo a sanidade. Dizia que pensava loucuras, que não sabia o que sentir, que não sabia como sentir.

Eu agora sei o que sinto e como sinto - mas isso não é bom. Sou louco por você! Meu juízo se foi quando você partiu.

Passo horas olhando para a parede, imaginando um mundo nosso, feliz, amável. Nosso.

Apenas eu e você. Criações de uma mente débil, que já não aceita a realidade, não aceita estar sem você.
Disse-me que estava louca, mas felizmente tomou razão, pensou direito, e partiu.
Levou meu coração e minha razão.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

No fundo do poço.

- Socorro! Socorro! - Gritava o garoto de dentro do poço.
Quem passava por lá simplesmente o ignorava. Ignoravam seus pedidos de ajuda, como se não ouvissem nada, por mais alto que gritasse, por mais que implorasse por auxílio, não davam a menor atenção, não queriam se responsabilizar, não queriam fazer parte do problema.
Gritou e gritou e gritou, até que um conhecido o ouviu, e foi ajudá-lo.
- Felipe, é você? - Perguntou para o rapaz preso no fundo do poço.
- Sim, sou eu, por favor, eu estava sentado na beirada do poço e acabei caindo, a garota que estava comigo mal percebeu minha queda, e foi embora achando que eu não queria ter mais com ela.
- Bom, tente sair daí, não consegue?
- Não, não consigo, já tentei de todas as formas, preciso que me ajudem, sozinho não saio daqui. - Explicou  o jovem no poço.
- Tudo bem, tudo bem, espere um pouco que vou conseguir ajuda. - Disse o outro antes de ir.

O garoto esperou, esperou, ainda tentou mais um pouco sair sozinho, mas sabia que era em vão, não havia como sair daquele poço.

- Felipe? Disseram-me que estava preso aqui, e realmente é verdade, por que não se esforça para sair daí? - Perguntou sua amiga.
- Mas eu tentei! Apenas não consigo, preciso que me ajudem. - De prontidão respondeu.
- Bom, acho é que você não quer sair daí sozinho, quer que todos se esforcem para te tirarem daí.
- Que besteira, se eu pudesse eu sairia, que ganho preso aqui? Atenção? A atenção que receberia aqui não seria boa, por favor, só quero que me ajude, não preciso de conselhos agora. - Explicou-se.
- Deixe de drama, já vi muita gente cair em poços e sair sozinho, não menospreze meus conselhos, porque quero que entenda que só você pode se ajudar. - Ela disse.

E assim foi, muitos foram lá e falaram que ele devia sair, que deveria querer, aconselharam, deram dicas, oraram e tentaram dar forças para que ele saísse, mas de nada adiantou.
Até que alguém lhe jogou uma corda e o ajudou a sair, tirou-lhe do fundo do poço, no qual pereceria se não tomassem uma atitude.

domingo, 12 de agosto de 2012

A ponta do iceberg.

O que se vê do iceberg é apenas uma pequena parcela de sua totalidade, sob o mar, escondida, está a maior parte.

(Muitos só veem o que está explícito e acham que viram tudo, estão enganados.)

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

"Eu te avisei" - A viúva negra e o zumbi.

"Eu te avisei" dizia todo o ar que a cercava, sua calma, sua paz. "Eu te avisei" ressoava, por mais barulhento que estivesse em volta deles, era isso que ele ouvia.
Realmente, ela tinha  avisado, mas ele não levava muita fé, encarou mais como um teste, uma provação, não como um alerta, e agora estava lá, com sua vida nas mãos dela.
Participando de seu jogo, como sempre o fez, apenas um peão num plano maior, por mais que achasse que sabia o próximo movimento ou tinha controle da situação, ela provava que estava completamente enganado.
Tinha medo, a coisa que mais temia estava para acontecer e ele não sabia como fugir disso, ela não falava nada, mas ele já sabia o que estava por vir, esse silêncio só podia significar uma coisa "Eu te avisei."
Como último recurso ele a olhou nos olhos, bem fundo, tentando encontrar um abrigo, ela o encarou de volta, mas seu olhar era doce, apaixonado, pedia pelo seu beijo, ele que estava com tanto medo, tanto medo, que não pode agir, reagir. Desviou o olhar.
Ela se aproximou, ele podia sentir sua respiração quente, aos pedaços, afobada. O olhou novamente, era como se o amor estivesse se esvaindo de seus olhos, de sua vida. Mas foi tão breve que ele não pôde notar, aproximou-se também.
Esquivou do beijo dele e sorriu.

"Eu te amo"

Disse finalmente, com seus lábios delicados.

"Eu tamb-" Foi interrompido com um beijo no pescoço. Percebeu que seu medo era injustificável, todos os avisos não passaram de mentiras, finalmente podia ficar em paz. Abraçou-a.

Com um golpe seco e rápido ela arrancou seu coração: "Nunca mais podemos nos ver, quero ficar sozinha."

Sem reação, ele não pôde fazer nada além de sangrar. Parado. Enquanto a vida se esvaia dele.


Se virou e foi embora, o rastro de sangue que ela deixava lhe dizia "Ela te avisou."

Com um rombo no peito, sem mais nada para sentir, racionalizou e concordou "Ela me avisou."
E caminhou no sentido contrário, um zumbi sem vida, rondando por aí até que acabem com esse limbo, esse sofrimento eterno. Evitando encontrar a viúva negra que levou seu coração. Que o amou e lamenta muito sua morte.


Até lamentar a do próximo.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Se meu maior medo era te perder, o que eu temo agora?

Pensemos na coisa que mais tenho medo, um verdadeiro pavor, de me dar aperto no coração e gelar a espinha. Que se eu pudesse, não precisaria encarar nunca, pois apenas a ideia de confrontar esse medo já me traz lágrimas aos olhos.
Pois então digamos que esse medo é algo inevitável e que chega sem aviso, não me dá tempo para preparo, não me dá chance de contra-atacar. Cai no meu colo como uma bomba nuclear, e me deixa os destroços.

Se meu maior medo era te perder, já não tenho mais medo de nada.
Se eu precisava de toda a coragem que podia encontrar para correr o risco por você, não me restou coragem alguma.

Sem temor e sem bravura eu sigo em frente, mas não de cabeça erguida.
É preferível olhar pro chão a ver que você não está lá na frente me esperando.
Dói menos olhar para meus passos trôpegos, do que te ver lá atrás longe de mim, tão longe que já não vejo se sorri ou se chora, se está com alguém ou se ainda está vago o espaço que eu ocupei ao seu lado.

Olho para meus pés e vejo que meu cadarço está desamarrado. Mas não tenho medo de cair, só não sei se terei coragem de levantar.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

As duas piores horas do dia.

Quando coloco a cabeça no travesseiro e espero o sono chegar, sono que não tarda, mas a espera me mata. Pensar que não vou acordar para te ver, que não demorarei a dormir pois estarei planejando o amanhã, com você. A cabeça no travesseiro pesa cada vez mais, cheia de preocupações, cheia de medo. E o coração aperta, aperto, longe. De você, de nós, o sono me leva pra qualquer lugar que você não esteja, que eu me esqueça.

E no dia seguinte eu acordo, minha cabeça dói, eu realmente não queria ter acordado, não porque trabalharei, não porque dormi 5 horas, mas porque eu abro meus olhos lentamente e não vejo os seus olhando para mim, sorrindo, vejo o despertador, ouço aquele som irritante, sei que nunca mais ouvirei seu bom dia, tão doce como você.

Não me leve a mal, não é que eu não pense em você no resto do dia, mas nessas horas é inevitável, portanto religiosamente esses dois momentos eu ficarei aqui, deitado, arrasado.
Entre as duas piores horas do dia, tenho alguns momentos alegres, que tentam fazer com que a dor que eu sinto antes e depois de dormir sejam esquecidas, mas dói, dói só de lembrar.

Boa noite, meu amor. Sonhe comigo.

sábado, 4 de agosto de 2012

Mesmo após trinta e cinco anos eu continuo perdidamente apaixonado por você.

O tempo é relativo. O tempo não existe.

Lembro que quando estava para te encontrar, o tempo passava tão lentamente, de forma sádica, como se quisesse nos afastar.

Lembro que quando estava contigo, ele voava de tal forma, que o dia se esvaia em minutos, como se quisesse que eu sentisse sua falta.

O tempo não existe. Há quanto tempo não te vejo? Há quanto tempo não digo que te amo...

O tempo passa mas você não, nós não. Se cada segundo sem você é uma vida, quanto tempo dura uma vida sozinho? Se uma vida contigo não seria suficiente, o para sempre duraria uma semana.

Mesmo após trinta e cinco anos eu continuo perdidamente apaixonado por você.
E tenho de admitir, esses anos foram difíceis de aguentar desde que você terminou tudo ontem.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Eu te odeio.

Afinal, é isso que você quer ouvir, não é? E o que eu não faço por ti?
Pois bem, eu te odeio. Odeio como seu abraço afasta todos os meus medos, odeio como meu coração bate rápido quando penso em nós. Pois bem, eu te odeio.
É muito mais fácil falar isso, sempre ouvi que falar de amor é uma coisa complexa, há quem diga que nunca amou, mas cada um de vocês, de nós, odeia. E eu, nesse caso, odeio você. Já ouvi os motivos mais idiotas e rasos para odiar. Então eu te odeio por te amar. É muito mais fácil falar isso.
Fique feliz, eu te odeio. E agora não temos nenhum motivo para sofrer com a distância, não há porque essa separação ser dolorosa, afinal, eu te odeio. Fique feliz.
Odeio sim, odeio seu sorriso, que me acalenta. Odeio seu beijo, que me esquenta. Odeio sim.
Quantas vezes preciso repetir que te odeio para que acredite? Quantas vezes?
Eu te odeio eu te odeio eu te odeio eu te odeio eu te odeio eu te odeio eu te odeio eu te odeio eu te odeio eu te odeio eu te odeio eu te odeio eu te odeio eu te odeio eu te odeio eu te odeio eu te odeio eu te odeio eu te amo. Opa.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Vômito.

Eu estava chegando ao encontro e senti um pouco de fome, então parei numa padaria qualquer e pedi um salgado, sabia que era melhor comer algo agora, a noite seria longa e eu sentia que não seria das melhores.
Enquanto comia aquela coxinha, senti que havia mandioca na massa, o que parece irrelevante, mas ultimamente eu vinha sentindo coisas demais para meu gosto, o que é um problema. Senti que estava atrasado e ao checar o relógio de parede tive certeza. Engoli o que restava do salgado e apressei o passo.
Todos estavam lá, senti uma faísca de alegria, mas não me preocupei pois sabia que logo passaria.
Senti que todos me esperavam, como se realmente me quisessem por perto, mas a primeira coisa que disseram ao me ver foi "vamos beber!", e assim foi, fomos a um mercadinho qualquer e compramos vodka barata, afinal, só queríamos ficar bêbados, e não um jantar gourmet. Senti que seria deveras fácil.
O primeiro gole queimou-me a garganta e senti aquele gosto ruim que já me traz más lembranças. Ia virando os copos e sentia cada vez menos, menos frio, menos medo, menos dor. Já não sentia nada, nem minha língua, nem meus dentes. Peguei um cigarro e não pude sentir seu odioso sabor, como já não sentia muito bem o chão em que pisava, tropecei e acabei queimando minha mão, sorte que nada senti. Enquanto andávamos derrubei o copo de meu amigo umas 3 vezes, mas só soube quando ele me disse, não senti que trombamos.
Cada vez sentia menos, menos e menos. Quando me passaram o beque, traguei com vontade mas nada senti, nem a menor brisa. Quando aquela garota beijou-me inteiro, não senti sua língua, quando pegou no meu pau, não senti o menor tesão.
Não, não sentia nada.
Bebi mais um pouco, fumei, nem sei mais o que fiz, só sei que não sentia.
Já na sarjeta, com o joelho sangrando depois de um tombo em que não senti merda nenhuma. Eu me virei, me inclinei, e me preparei para vomitar tudo. Vomitei, a vodka, o energético, alguma coisa laranja - provavelmente fanta -, a fumaça. E só, aé, a coxinha também, mas achei estranho não ter mais nada lá dentro, eu não estava de estômago vazio antes de chegar.
Mas a verdade é que eu estava vazio sim.
E fiz isso tudo porque sentia, sentia sua falta.