Uma tarde normal de quarta-feira, quente e tediosa, bem no meio da semana. Um dia comum, sem grandes surpresas, sem grandes expectativas. Uma quarta-feira que mal se vive, entra no automático e espera o final da semana.
Uma fila imensa de carros se amontoava, carros barulhentos com motoristas furiosos. Buzinando, xingando. As luzes vermelhas, o sinal de Pare, a sirene, as buzinas. Carro atrás de carro, xingando, buzinando. Uma fila que nos irrita cada vez mais por nos fazer pensar na vida.
(o dia estava calmo demais para tudo dar certo)
Um aglomerado de curiosos, se amontoando neles mesmos, querendo ver o que aconteceu, chocados, surpresos. Dando pitacos, seus "eu-vi-o-que-aconteceu", atrapalhando tudo. Um aglomerado de espectadores da vida, frustrados por não poder mais seguir seus roteiros, tentando preencher o vazio entre uma novela e outra.
Uma ambulância e um carro de bombeiros, desesperados, abismados, incrédulos, fazendo de tudo para o salvar. Não conseguem entender o que veem, com cuidado cortam o que atrapalha, trazem curativos, trazem curas. Uma ambulância e um carro de bombeiros inúteis, que não curam a dor em seu peito.
(tudo estava indo tão errado que só poderia ser certo)
Um carro capotado, amassado, retorcido, seguido por uma marca de pneus no pavimento. Vidro espalhado, sangue esparramado. Um carro capotado, de ponta cabeça as coisas parecem fazer mais sentido.
(só parecem)
Um motorista ensanguentado, com a ferragem do carro perfurando a cavidade onde deveria estar seu coração, com os olhos para o rádio e as mãos no volante, sem prestar atenção em mais nada. Um motorista ensanguentado, sem coração, sem direção.
Uma música de amor, óbvia, utópica, sobre desencontros e enganos. Mas que traz lágrimas aos olhos de alguns, um sentimento melancólico, uma dor incalculável. Uma música de amor, afinal.
(pequei na vontade de ter um amor de verdade)
"Você está bem?" perguntou o paramédico. Esperei nossa música acabar, com o sangue escorrendo de minha testa, com uma lágrima escorrendo no meu rosto, disse-lhe "não... ainda sinto falta dela."
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