quarta-feira, 10 de abril de 2013

Pena

Minha pena movia-se para lá e para cá,
minha pena fazia coisas belas e agradáveis,
mas nada de excepcional, até você aparecer.

Foi graças à minha pena, que me viu de outra maneira,
e foi graças à ti, que minha pena criou
maravilhas, graciosas criações,
versinhos e poemas, saídos de minha pena.

E minha pena passou a trabalhar em função de ti,
para ti, por ti.

E minha pena ficou pequena para tudo que sentia,
para tudo que queria dizer,
na falta da pena, vivi o poema.

Fui praí te ver, fui praí te amar.
O hino eu recitei, e fiz dos meus versos,
pequenas amostras de amor.
E fiz do meu amor,
pequenos versos
em grandes poemas,
saídos de minha pena.

E o teu beijo, que ficou na minha boca,
foi pra minha pena.
E o teu toque, que faz parte de mim,
foi pra minha pena.
E o teu sorriso, símbolo do amor.
foi pra minha pena.
E tu,
meu amor.
Jamais poderia ser replicada,
por pena qualquer.

Me dá dó da minha pena,
que jamais alcançará tamanha beleza
tão natural,
que emana de ti,
de um sorriso aberto,
de uma palavra jogada ao vento.

Me dá dó da minha pena,
que é deixada de lado,
para que eu possa alcançar
o romance puro,
a poesia vivida,
num beijo na chuva,
uma viagem inesperada.

Me dá dó da minha pena,

eu dava tudo ah,
minha pena eu largava,
eu dava tudo,
pra visitar teu coração.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Alcides.

Alcides é um peixinho dourado. Alcides tem um aquário redondo, um aquário moderno, sempre limpo, com uma paisagem artificial, um ótimo aquário. Alcides é alimentado nos horários corretos. Alcides tinha um dono, um dono que cuidava dele, que se preocupava com ele.
"Alcides, faz alguma coisa, cara."
Ele disse, observando o peixe parado no meio do aquário. Se perguntava se o peixe dourado sabia que estava preso, por isso não fazia nada o dia inteiro. Esticava o indicador e dava leves batidas no vidro, o peixe mal reagia, continuava imóvel. A única coisa que delatava que ainda estava vivo eram as bolhas constantes que ele soltava.
*tap* *tap*
Batia com um pouco mais de força, mas Alcides não reagia. Resolveu jogar ração, mas ele não fazia nada, os pedacinhos que passavam perto do seu rosto, ele alcançava e comia, caso contrário, ficariam no fundo do seu lar de vidro até limparem. Ele parou em frente do aquário e se curvou para olhar nos olhos do peixe. Aqueles olhos esbugalhados; mórbidos; vazios, como ele odiava aqueles olhos.
"Alcides, por que você não faz nada!?"
Gritou irritado. Tentava entender de que adiantava viver, se alimentar, soltar bolhas, se era só isso que ele fazia. Não nadava para lá e pra cá, não batia no vidro para tentar fugir, não pulava do copo que servia de casa provisória quando o aquário era limpado, não fazia absolutamente nada. E aquele olhar, aquele olhar perdido, frio, esbugalhado.
*TAP* *TAP*
Bateu no aquário, irado, furioso. O peixe parou por um segundo de soltar bolhas, o garoto segurou a respiração. Sabia que ele ia fazer algo agora, estava incomodado, precisava reagir, fazer algo para que ele parasse. Alcides se virou - tinha certeza de que virou, muito pouco, quase nada, mas virou -, para seu dono, e soltou uma bolha maior que todas as outras e então... continuou com as bolhas normais, nada mais, nada menos. Continuou com aqueles olhos, aquele olhar bobo, cara de mané.
*TAP* *CRACK*
Acabou rachando o aquário. Olhou novamente no fundo dos olhos do peixe, olhos esbugalhados, indiferentes, conformados, frios, sórdidos, vazios, mórbidos. Apontou para o peixe, irritado.
"Alcides!"
Parou, viu que o aquário estava vazando, resolveu ir pegar um band-aid para arrumá-lo.
Enquanto caminhava para o banheiro pensava que não devia perder tempo com um peixe idiota, devia fazer algo mais útil.
Entrou no banheiro e já abriu rapidamente o armário de remédios, pegou o band-aid que estava na prateleira de cima e fechou o armário novamente. Olhou para o espelho do armário, olhou seu rosto, e viu: viu seus olhos, esbugalhados, vazios.
*TAP*  *TAP* *CRACK*