Alcides é um peixinho dourado. Alcides tem um aquário redondo, um aquário moderno, sempre limpo, com uma paisagem artificial, um ótimo aquário. Alcides é alimentado nos horários corretos. Alcides tinha um dono, um dono que cuidava dele, que se preocupava com ele.
"Alcides, faz alguma coisa, cara."
Ele disse, observando o peixe parado no meio do aquário. Se perguntava se o peixe dourado sabia que estava preso, por isso não fazia nada o dia inteiro. Esticava o indicador e dava leves batidas no vidro, o peixe mal reagia, continuava imóvel. A única coisa que delatava que ainda estava vivo eram as bolhas constantes que ele soltava.
*tap* *tap*
Batia com um pouco mais de força, mas Alcides não reagia. Resolveu jogar ração, mas ele não fazia nada, os pedacinhos que passavam perto do seu rosto, ele alcançava e comia, caso contrário, ficariam no fundo do seu lar de vidro até limparem. Ele parou em frente do aquário e se curvou para olhar nos olhos do peixe. Aqueles olhos esbugalhados; mórbidos; vazios, como ele odiava aqueles olhos.
"Alcides, por que você não faz nada!?"
Gritou irritado. Tentava entender de que adiantava viver, se alimentar, soltar bolhas, se era só isso que ele fazia. Não nadava para lá e pra cá, não batia no vidro para tentar fugir, não pulava do copo que servia de casa provisória quando o aquário era limpado, não fazia absolutamente nada. E aquele olhar, aquele olhar perdido, frio, esbugalhado.
*TAP* *TAP*
Bateu no aquário, irado, furioso. O peixe parou por um segundo de soltar bolhas, o garoto segurou a respiração. Sabia que ele ia fazer algo agora, estava incomodado, precisava reagir, fazer algo para que ele parasse. Alcides se virou - tinha certeza de que virou, muito pouco, quase nada, mas virou -, para seu dono, e soltou uma bolha maior que todas as outras e então... continuou com as bolhas normais, nada mais, nada menos. Continuou com aqueles olhos, aquele olhar bobo, cara de mané.
*TAP* *CRACK*
Acabou rachando o aquário. Olhou novamente no fundo dos olhos do peixe, olhos esbugalhados, indiferentes, conformados, frios, sórdidos, vazios, mórbidos. Apontou para o peixe, irritado.
"Alcides!"
Parou, viu que o aquário estava vazando, resolveu ir pegar um band-aid para arrumá-lo.
Enquanto caminhava para o banheiro pensava que não devia perder tempo com um peixe idiota, devia fazer algo mais útil.
Entrou no banheiro e já abriu rapidamente o armário de remédios, pegou o band-aid que estava na prateleira de cima e fechou o armário novamente. Olhou para o espelho do armário, olhou seu rosto, e viu: viu seus olhos, esbugalhados, vazios.
*TAP* *TAP* *CRACK*
Nenhum comentário:
Postar um comentário