O portão para a ilha dos coelhos era enorme, gigante, colossal, imane, grande pacas. Devia ter uns 3 metros, o que é alto a beça, já que eu era o maior do trio e media 1,81m, e como eles eram um macaco e um pato, eles eram bem pequenos. Passando por aquele imponente portão dourado com insígnias por toda sua extensão, chegamos a um longo corredor com retratos de generais, comandantes, brigadeiros e outras patentes que não eram nome de doces de festa. Seu piso era gelado, ou pelo menos foi o que disse Toby pois eu não andava descalço por medo de pisar em pregos; a iluminação era precária, com lâmpadas fracas que vacilavam, apagando por instantes. E só. Nada mais havia naquele corredor misterioso, seguimos por sua extensão prestando atenção nos retratos e sempre chamando os outros quando víssemos algum bigode engraçado ou nome esquisito, o que quis dizer que parávamos a todo momento pois aqueles coelhos guerreiros certamente tinham nomes fora do comum e bigodes espetaculares. No final do corredor encontramos uma pequena porta. Mas bem pequena mesma, minúscula, nem mesmo Toby que era o menor de nós três conseguia entrar nela, olhamos um para os outros e não sabíamos o que fazer. Até que a coisa mais estranha aconteceu, um coelho apareceu correndo no início do corredor em nossa direção, e sim, eu sei que não é estranho vermos um coelho na ilha dos coelhos guerreiros, mas ele não tinha nada de guerreiro: usava um paletó vermelho e um colete amarelo, um pequeno par de óculos redondos e ao se aproximar de nós pegou um relógio do seu bolso e nos disse "Ai, ai ai, Vocês vão chegar atrasados demais!" e pulou numa toca que até então não tínhamos visto, talvez por sempre olharmos para frente ou para cima, ou não vimos simplesmente porque essa ilha era mais estranha do que parecia. De uma forma ou de outra, fomos atrás dele pois, de fato, estávamos tremendamente atrasados.
Ao sair do outro lado da toca encontramos um campo de batalha, literalmente, era um campo para batalhar, o lugar era até arrumadinho, não tava uma desordem com um monte de gente brigando, mas havia alguns sacos de areia espalhados, alvos, armas e outras coisas agressivas e violentas. Nas áreas de treinamento, encontramos diversos coelhos, grandes e sarados, todos eles vestiam uniformes de exército e tinham uma cara de que não gostavam de brincadeiras. Nenhum deles era parecido com aquele que seguimos. Exceto por um pequenino, que veio pulando em nossa direção, "Olá, vocês são o grupo mandado para salvar nosso líder?" Ele disse, com uma voz doce e meiga, capaz de derreter o coração mais gelado. "Sim, somos nós mesmo, prazer em te conhecer." Eu respondi, agachando-me para olhar o coelhito nos pequeninos olhos verdes e vívidos. "O prazer é todo meu, podem me chamar de Shorty", ele respondeu enquanto abria um sorriso brilhante e alegre, apesar da desgraça de seu povo. "Pois bem, Shorty, o que aconteceu exatamente?" eu questionei curioso, "Bom, isso tudo começou quando um circo veio para a ilha, ninguém quis ir vê-lo, mas também não pediram para que partisse imediatamente, pois não incomodava. Uma semana depois, e ainda sem visitantes, eu tive vontade de ir vê-lo, e forcei meu avô a me acompanhar, chegando lá tivemos de pagar um valor altíssimo para ver o show, mas não reclamamos. Assistimos ao espetáculo todo mas não me diverti... as pessoas que faziam os números pareciam infelizes e os animais mal-tratados, antes de ir embora meu avô foi conversar com o dono do circo sobre isso e o valo da entrada. O dono era um palhaço esquisito com nariz e cabelos vermelhos e uma roupa côr de sol, que apesar de palhaço tinha um ar muito sério, a princípio vovô estava irritado pelo que presenciáramos, porém, aos poucos, ele foi se acalmando, até que o palhaço tirou um bolo de dinheiro do bolso de seu macacão e deu a meu avô! Ele saiu sorrindo da sala do palhaço feio e me levou embora, desde então ele não quer saber de outra coisa que não dinheiro, e por isso passa o dia fazendo contas em sua sala." Explicou bem o coelho que falava rapidamente. Ficamos quietos por alguns segundos até que eu perguntei "e o que isso tem a ver com o vosso líder?" O coelho olhou para mim e riu. Uma risada infantil e tímida, todos rimos com ele, até que eu parei e disse "sério". O coelho olhou para mim e falou "O marechal é meu avô", então eu, Toby e Johnny soltamos um "ahhhhhhh". "Enfim, vou levar vocês até ele."
O coelho cinzento de rabo felpudo começou a nos guiar e fomos atrás dele, uns 5 metros à frente, vimos que Toby estava pregado no chão. Voltamos para lá e tentamos falar com ele, ele respirava pesado, com o olhar fixo para o horizonte. Cutucamos, batemos, chacoalhamos, e ele não reagia. Até que Shorty se aproximou um pouco mais dele e "TOBY!" Toby gritou seu próprio nome, e todos ficamos confusos, "Toby" ele repetiu. "Shorty" disse Shorty, tentando entendê-lo, "Toby... meu nome" o macaco falou, "Shorty, o meu nome" o coelho respondeu. "Prazer em conhecê-lo, Shorty, resolveremos seu problema com perfeição, não se preocupe." E saiu andando roboticamente.
Depois de aceitarmos a esquisitice de Toby, seguimos Shorty para a sala do Marechal. Passamos por mais campos de treinamento, semi-abandonados, pois na verdade estavam cheios de guerreiros mas eles não faziam nada, apenas olhavam para os equipamentos, com um olhar vazio, vagando pelo nada. Shorty nos disse que eles precisavam do Marechal para dizer o que deviam fazer, o engraçado é que eles faziam a mesma coisa de segunda a sexta, sem mudanças, mas ficavam sem norte na ausência de alguém para mandar neles. Dizer 'façam o que sempre fazemos, homens'. Estavam desamparados, mas não por muito tempo. Subindo uma colina, chegamos a uma casa pequena e simples, com uma escrita NÃO PERTURBE na frente da porta. Fomos perturbá-lo.
Continua.