Já aos 18 encarava pressões enormes, que poderiam decidir toda sua carreira. Todos os olhares se voltavam para ele, para seu futuro, para quem ele ainda não era.
"Vai ser um Craque." "Não é tudo isso." "Já é um craque." "Será o melhor do mundo." "Pura enganação."
Todos decidiam o que ele era, o que seria.
"Não leva nada a sério." "Joga com alegria." "Exagerado."
Sabiam o que era melhor para ele, como devia ser e agir.
"É o novo Ciclano." "Melhor que Fulano." "Parecido com Beltrano."
Nunca foi ele mesmo, sempre tinha de se igualar a alguém, superar alguém, até conseguir ser comparável a ninguém.
Aos 20, passava a deixar de ser uma promessa e passou a ser uma realidade, cada vez mais confiavam nele, seu potencial virou valor, estava quase preparado para deixar sua marca, gravar seu nome, ser alguém.
"Craque." "Ingênuo." "Ídolo." "Gênio." "Enganação."
Rotulavam-no como se vendessem um produto, rotulavam-no como se isso fosse fazê-lo mudar.
"Autêntico." "Fica se preocupando com coisas fúteis." "Gosta de aparecer."
Queriam estereotipá-lo; queriam diminui-lo; controlá-lo.
"Esperança nacional." "Quero ver contra os melhores." "Agora precisa mostrar a que veio."
Jogavam tudo nas suas costas: os sonhos; a esperança; a responsabilidade. Tudo, todos, para um.
22. A hora da verdade, finalmente provaria ou seria reprovado; o que construiu nos últimos anos seria concretizado ou ruiria, mas não sairia como entrou.
A partida já estava nos acréscimos, a equipe de camisa amarela precisava de um tento para levá-la à prorrogação, para não perder toda a esperança, para não deixar a taça escapar, para não sofrer seu maior vexame na história.
Ele recebeu a bola na entrada da área, à frente, dois defensores com camisas azuis e brancas, bateram nele no jogo todo, jogo truncado, jogo feio, jogo emocionante. Partiu para cima do primeiro, com velocidade, gingou, jogou o corpo para um lado, a bola para o outro, saltou pela rasteira que o zagueiro aplicou e pegou a bola do outro lado. Um no chão, um a ser driblado. Invadiu a caixa de 16 metros, que pareciam quilômetros até a meta. Ergueu a cabeça, seguiu. Passou o pé por cima da pelota, de um lado para o outro, como um pêndulo que hipnotiza o voluntário da plateia, mas esse aqui não foi voluntário, estava nervoso, mais nervoso que seu adversário, afobado, deu o bote, e tão rápido quanto sua reação involuntária, viu apenas dois toques, um para a direita, outro, com a bola ainda no ar, direto entre suas pernas, antes de cair, ainda conseguiu tocar o pé do jogador que passava por ele, como um raio. Tropeçou, perdeu o equilíbrio e... levantou novamente, ao invés de cair, como normalmente faria, decidiu seguir, ir até o fim, apenas ele e o arqueiro, que crescia a cada passo que dava, inversamente proporcional às traves, que diminuíam. Com um toque sutil, apenas um, fez a bola subir, subir, ao ponto de passar pelo gigante guarda-redes e descer, descer, ele parou, o goleiro parou, o estádio parou, o Brasil parou, o mundo parou. Segurou a respiração, gravou aquele momento perfeito, de glória, de redenção, ela descia, suavemente feito pluma, descia, pouco mais de 82 238 pares de olhos não piscavam dentro do Maraca. Mais de 400 milhões de olhos, seguindo a bola, 200 milhões de corações apertados. Ela foi, foi, no travessão!
"Decepção." "Desilusão." "Vexame." "Tragédia."
Tentavam explicar o que acontecia, mas não era possível, simplesmente não era possível aquela bola não entrar.
"Não tão bom quanto o outro." "Segundo melhor." "Primeiro dos últimos."
Julgavam; comparavam; rebaixavam; nunca seria o suficiente, nunca seria indiscutivelmente o melhor.
Com 24, não rendia tanto quanto antes, desde o incidente há dois anos, não foi o mesmo. Faltava brilho, faltava gana, faltava algo mais. Os holofotes se apagaram, os olhares se cerraram, mãos amigas tornaram-se punhais. O chão desapareceu, não tinha onde se apoiar, a pressão foi maior, teve de ceder, foi esmagado.
"Fim de carreira." "Nunca mais o mesmo." "A chama queimou muito rápido."
Decretavam seu óbito; davam-lhe a data de vencimento, já passada.
Chegou trôpego aos 26, longe do ideal, de pessoa, de atleta. Perdido em vícios, perdido em más companhias, perdido.
"Podia estar no auge, se não fosse tão desleixado." "Já foi bom, hoje é peso morto." "Lamentável."
Julgavam seus próprios erros, criticavam o que criaram, deixaram-lhe para o esquecimento, lembrariam apenas ao recordar más lembranças.
Com 28 voltou a ser um anônimo, sensação que mal viveu, desde pequeno era cobrado, desde menino sofria pressão, tinha de ser alguém, tinha de ser o melhor. Mas não agora, agora tinha de ser apenas ele mesmo, apenas feliz.
"Quem mesmo?" "Já perdemos a esperança." "..."
Estava livre, estava sozinho, estava pronto para dar o troco. Dessa vez sabia como fazer, não cairia nos mesmos truques, sabia que só teria uma chance.
30. Chegava à reta final, batalhou bastante e tinha recuperado a confiança que tinha, ou parte dela. As pessoas voltaram, mas ele soube lidar, tinha mais uma chance, provavelmente a última, de ser o melhor, pelo menos por 90 minutos. O tempo estava a seu favor, em diversos aspectos.
Aos 30 minutos, passou entre dois marcadores e deu um chute certeiro, no ângulo, a torcida foi ao delírio, ele explodiu de emoção, tirou sua camisa alvinegra, rodou-a, pulou, vibrou, recebeu uma punição.
A 1 minuto do final da primeira etapa, seu rival, que marcara há 8 anos, recebeu a bola, tirou do primeiro com um movimento plástico, de quebrar a espinha, pra lá e pra cá, o segundo veio e foi como o vento, passou pela bola sem nada encontrar, pois o cabeludo com a camisa grená e azul já estava arrematando, cruzado, sem chance para ninguém, a rede estufada, a alegria extravasada, e os dedos apontados para os céus, sabia que aos 35 esse podia ser um dos últimos que fazia.
Foi e voltou dos vestiários mudo, sem responder perguntas, sem responder provocações.
O embate foi ficando mais truncado, violento, cartões para ambos os lados, os protagonistas ficaram de lado, até que aos 85 minutos de partida o time do brasileiro recebeu uma penalidade, numa jogada confusa, empurrões para os dois lados um jogador no chão, o apito e o centro da grande área.
Ele pegou a bola no mesmo instante, pôs a bola sob o braço e seguiu para a marca da cobrança. Olhou para o goleiro, olhou para o alto. Ouviu a permissão. Inspirou, expirou. Sorriu, sorriu verdadeiramente, não era alegria, era felicidade, abriu um sorriso nada ousado. Deu dois passos, chutou, escorregou, foi para o chão, a bola para o alto, por cima da meta. Ficou lá, parado, sem saber o que fazer, relembrou o que viveu, perguntou-se se valeu a pena, se atingiu sua meta, não sabia como agir, continuou lá, deitado, com as mãos tapando o rosto. Ouvia um apito incessante, sua cabeça girava, levantou-se e percebeu que o apito não era da sua cabeça, o árbitro assinalou uma infração no momento da cobrança, o argentino invadira a área, teria outra chance.
Inspirou. Expirou. Sorriu. Correu. Chutou.
Pra fora, de novo.
Foi substituído, viu seus companheiros vencerem nas cobranças alternadas, comemorou com eles. Estava feliz, estava leve. Quando indagado por um das dezenas de repórteres presentes lá do outro lado do mundo, respondeu. "Esse sem dúvidas foi meu melhor e mais importante jogo. E o último também."
(Desceu, desceu, lentamente, e é gol! Goooooooooooooool! Do craque, do camisa 11! Do Brasil! Que golaço, por cima do goleiro, como ele sabe, vai Brasil, vamo vira!
Só pra não ficar entalado na garganta)
Fin
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