IV
Dois anos mais tarde, encontramos, como de costume, o garoto - agora quase um homem - no topo da segura e isolada montanha. Entretanto, ao contrário do que estamos habituados, ele raramente é encontrado lá. Somente dirige-se ao seu forte quando necessita de paz, de si mesmo. Lá embaixo, no vilarejo, ocorria uma festa que se estendia pelos últimos seis dias. A população celebrava a morte do opressor rei. E tinha esperança de que, com a tomada do primogênito do falecido monarca, conhecido pela natureza dócil e amistosa, a vida dos pagãos melhorasse.
Já o rapaz-homem não estava certo do que sentia. Uma parte dele estava feliz com a morte do responsável pelo assasínio de seu pai. Outra decepcionada por não ter sido ele o vingador da honra de sua família. E uma terceira parte triste pelo fim daquele que deu uma oportunidade de uma nova vida ao seu pai, que tolamente recusou e acabou sem vida nova ou velha. Mas esperança de mudança não estava presente no seu coração. "O mundo não muda, só os rostos." ele costumava dizer e, por isso, julgava que se ele quisesse uma oportunidade, teria de caçá-la com suas próprias mãos.
O semi-adulto retornou à sua casa somente na manhã do dia seguinte, quando o sol ainda aparecia vagarosamente, com sono. Era uma casa simples, apesar de ser uma das melhores da cidade, tinha estruturas de madeira, as paredes eram feitas de adobe e a cobertura de palha. Era amplamente ornada com orquídeas e margaridas, que davam um ar primaveral à residência. Aqui e ali eram encontrados troféus das batalhas que o general travara. Na sala principal, encontrava-se um jarro que recebera como gratificação por ter salvo o filho do líder da tribo, nela eram encontradas vivas rosas vermelhas, as únicas do humilde mas aconchegante lar. Na parede frontal do cômodo, estavam penduradas a lança e escudo prediletos do honroso soldado: a lança era uma pique com cerca de três metros de comprimento, com a base de pinho, ocupando duas partes da arma, e uma ponta rígida e afiada de mogno. O escudo tinha o formato da lua cheia, com um metro de raio, feito de carvalho e com um símbolo da junção do Sol com a Lua entalhado no centro dele. No quarto de sua mãe encontrava-se uma pilha de tecidos que servia de cama e, no encontro das paredes, um vaso de barro com a silhueta torta, acabamento precário e com pinturas quase que infantis. Vaso esse que seu pai fizera sozinho, ainda jovem, para impressionar uma garota que ele imaginava que gostaria dessas coisas rebuscadas, entretanto, apaixonou-se por ele simplesmente pelo ato genuíno, e hoje essa garota sempre dorme observando o vaso feito há anos. No cômodo onde o jovem casal dormia, o mesmo cenário era desenhado: uma pilha de tecidos, uma pontiaguda rocha tingida com o sangue da testa do rapaz e algumas flôres que o jovem costumava trazer para a garota.
- Bom dia. - Ele disse com um ar cansado para as duas mulheres que conversavam na sala principal.
A menina levantou-se agitada e com preocupação na voz disse:
- Onde esteves? Estavas a celebrar até essa hora? Por que não voltastes? - Sua face estava rósea e seus olhos de lagoa estavam principiando a se tornarem cachoeiras.
- Eu estava... na montanha, pensando nisso tudo. Desculpem-me por não avisar. - Disse o jovem sem olhar para a amante.
- Tudo bem, filho. É sempre bom ter um tempo para nós mesmos, damos tanto aos outros que o que nos resta são só as migalhas. - Disse a mãe do garoto com calma e serenidade.
- Estás feliz com a morte do rei? Achas que as coisas mudarão? - A garota indagou acalmando-se.
- Mudarão, mas não por isso, e sim porque eu as mudarei. - Disse o rapaz com um tom sério e grave.
- Ontem a noite, vieram aqueles dois simpáticos rapazes do batalhão perguntar de você... eles estavam excitados, é melhor procurá-los. - Disse a dona da casa.
- Eu os vi ontem a noite, enquanto pensava nisso tudo. Eles... eles disseram que eu fui convidado a ser general. - O jovem homem disse devagar, observando a reação de suas palavras.
- General?! - A garota que conseguira aquietar-se levantou-se n'um pulo e com um abraço apertado na cintura do jovem completou - Você será general!! Como seu pai, você será general, eu sabia que seu esforço seria recompensado.
A dama mais madura nada respondeu, enquanto tomava seu chá verde somente parou, olhou para o chão, olhou para o filho e deixou seus olhos marejarem. O fim de seus lábios curvou-se n'um tímido sorriso e continuou sentada.
- Na verdade... eu recusei. - O homem-menino disse baixo, enquanto sentava-se ao lado da mãe.
- Tudo bem... tudo bem... sua hora ainda vai chegar. - Ela disse e foi para seu quarto.
- Por quê? Por quê?! Deixes de egoísmo, tu sabes que será bom se aceitares!! - A garota exclamou.
- Você não entende... eles só me pediram isso pois meu pai foi o grande general do vilarejo. Eu sou forte, mas não sou moderado e inteligente como ele. Estava implícito que eu deveria recusar. - O garoto respondeu acomodando-se n'um monte de palha.
- Eu não entendo?! Você que não entende como isso nos ajudaria! - E saiu pela porta com uma fúria em seus pés ruidosamente batiam no chão.
O jovem aguardou três quartos de hora e, ao notar que ela não voltaria tão cedo, foi buscá-la. Procurou na casa de algumas amigas e perto da saída da vila, porém sabia que encontra-la-ia no topo da chorosa e amarga montanha.
Lá em cima, o jovem sentou-se ao lado da garota, que fingiu não notar sua presença. No topo da montanha irritadiça e sensível montanha os dois estavam sentados lado-a-lado como no primeiro dia que se conheceram, até que ouviram alguém se aproximando n'um cavalo.
- Se não é o famoso filho do general. - Disse uma voz aveludada e venenosa que ecoava no topo da tumultuada montanha.
Já o rapaz-homem não estava certo do que sentia. Uma parte dele estava feliz com a morte do responsável pelo assasínio de seu pai. Outra decepcionada por não ter sido ele o vingador da honra de sua família. E uma terceira parte triste pelo fim daquele que deu uma oportunidade de uma nova vida ao seu pai, que tolamente recusou e acabou sem vida nova ou velha. Mas esperança de mudança não estava presente no seu coração. "O mundo não muda, só os rostos." ele costumava dizer e, por isso, julgava que se ele quisesse uma oportunidade, teria de caçá-la com suas próprias mãos.
O semi-adulto retornou à sua casa somente na manhã do dia seguinte, quando o sol ainda aparecia vagarosamente, com sono. Era uma casa simples, apesar de ser uma das melhores da cidade, tinha estruturas de madeira, as paredes eram feitas de adobe e a cobertura de palha. Era amplamente ornada com orquídeas e margaridas, que davam um ar primaveral à residência. Aqui e ali eram encontrados troféus das batalhas que o general travara. Na sala principal, encontrava-se um jarro que recebera como gratificação por ter salvo o filho do líder da tribo, nela eram encontradas vivas rosas vermelhas, as únicas do humilde mas aconchegante lar. Na parede frontal do cômodo, estavam penduradas a lança e escudo prediletos do honroso soldado: a lança era uma pique com cerca de três metros de comprimento, com a base de pinho, ocupando duas partes da arma, e uma ponta rígida e afiada de mogno. O escudo tinha o formato da lua cheia, com um metro de raio, feito de carvalho e com um símbolo da junção do Sol com a Lua entalhado no centro dele. No quarto de sua mãe encontrava-se uma pilha de tecidos que servia de cama e, no encontro das paredes, um vaso de barro com a silhueta torta, acabamento precário e com pinturas quase que infantis. Vaso esse que seu pai fizera sozinho, ainda jovem, para impressionar uma garota que ele imaginava que gostaria dessas coisas rebuscadas, entretanto, apaixonou-se por ele simplesmente pelo ato genuíno, e hoje essa garota sempre dorme observando o vaso feito há anos. No cômodo onde o jovem casal dormia, o mesmo cenário era desenhado: uma pilha de tecidos, uma pontiaguda rocha tingida com o sangue da testa do rapaz e algumas flôres que o jovem costumava trazer para a garota.
- Bom dia. - Ele disse com um ar cansado para as duas mulheres que conversavam na sala principal.
A menina levantou-se agitada e com preocupação na voz disse:
- Onde esteves? Estavas a celebrar até essa hora? Por que não voltastes? - Sua face estava rósea e seus olhos de lagoa estavam principiando a se tornarem cachoeiras.
- Eu estava... na montanha, pensando nisso tudo. Desculpem-me por não avisar. - Disse o jovem sem olhar para a amante.
- Tudo bem, filho. É sempre bom ter um tempo para nós mesmos, damos tanto aos outros que o que nos resta são só as migalhas. - Disse a mãe do garoto com calma e serenidade.
- Estás feliz com a morte do rei? Achas que as coisas mudarão? - A garota indagou acalmando-se.
- Mudarão, mas não por isso, e sim porque eu as mudarei. - Disse o rapaz com um tom sério e grave.
- Ontem a noite, vieram aqueles dois simpáticos rapazes do batalhão perguntar de você... eles estavam excitados, é melhor procurá-los. - Disse a dona da casa.
- Eu os vi ontem a noite, enquanto pensava nisso tudo. Eles... eles disseram que eu fui convidado a ser general. - O jovem homem disse devagar, observando a reação de suas palavras.
- General?! - A garota que conseguira aquietar-se levantou-se n'um pulo e com um abraço apertado na cintura do jovem completou - Você será general!! Como seu pai, você será general, eu sabia que seu esforço seria recompensado.
A dama mais madura nada respondeu, enquanto tomava seu chá verde somente parou, olhou para o chão, olhou para o filho e deixou seus olhos marejarem. O fim de seus lábios curvou-se n'um tímido sorriso e continuou sentada.
- Na verdade... eu recusei. - O homem-menino disse baixo, enquanto sentava-se ao lado da mãe.
- Tudo bem... tudo bem... sua hora ainda vai chegar. - Ela disse e foi para seu quarto.
- Por quê? Por quê?! Deixes de egoísmo, tu sabes que será bom se aceitares!! - A garota exclamou.
- Você não entende... eles só me pediram isso pois meu pai foi o grande general do vilarejo. Eu sou forte, mas não sou moderado e inteligente como ele. Estava implícito que eu deveria recusar. - O garoto respondeu acomodando-se n'um monte de palha.
- Eu não entendo?! Você que não entende como isso nos ajudaria! - E saiu pela porta com uma fúria em seus pés ruidosamente batiam no chão.
O jovem aguardou três quartos de hora e, ao notar que ela não voltaria tão cedo, foi buscá-la. Procurou na casa de algumas amigas e perto da saída da vila, porém sabia que encontra-la-ia no topo da chorosa e amarga montanha.
Lá em cima, o jovem sentou-se ao lado da garota, que fingiu não notar sua presença. No topo da montanha irritadiça e sensível montanha os dois estavam sentados lado-a-lado como no primeiro dia que se conheceram, até que ouviram alguém se aproximando n'um cavalo.
- Se não é o famoso filho do general. - Disse uma voz aveludada e venenosa que ecoava no topo da tumultuada montanha.
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