domingo, 12 de janeiro de 2014

14 de novembro de 1998. (Cigarros)

Seu cigarro crepitava,
o lápis rodopiava pelos meus dedos.
Pitava-o para fora da janela,
eu mordia sua ponta.


Entediada, soltava a fumaça em direção à rua, aos carros.
Pegava mais um cigarro, colocava na boca e me observava por segundos,
os olhos reviravam para o alto, depois voltavam para o cigarro.
Acendia o isqueiro, o olhar chicoteava para mim, para o isqueiro,
eu não acendia.
Permanecia apagado.


Risquei os dois únicos versos que escrevi,
não prestavam,
não presto,
não prestas.


Arranquei a folha em que escrevi,
levantei.
Me passou um cigarro, acendeu.


Tossi com a fumaça que entrou em meus pulmões,
era nojento.


Ria de mim, o olhar evasivo,
ria de mim, o sorriso se aproximando.


Eu não era criança há tempo, mas me sentia como uma,
um guri que descobre o mundo.
E descobri tua boca, teus lábios.


Quando te beijei depois de tantos cigarros,
senti algo que nunca sentira antes,
como se enfiasse a língua num escapamento de carro.
Nojento,
foi nojento.

Nenhum comentário:

Postar um comentário