quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Numa noite de verão.

Era uma noite de Agosto com cara de Dezembro. A lua observava o mundo com uma juba de prata, e banhava de mercúrio as ruas. Uma brisa fresca aliviava o calor que se impregnava. Nas calçadas, jovens se aglomeravam, trazendo consigo música alta e sorrisos sem motivo. O calor aumentava, mas não um calor incômodo, e sim um calor humano, calor da música, da dança, da alegria, da sensualidade. Todos sorriam, todos flertavam, todos bebiam. A bebida em excesso, o combustível da já inflamada juventude, o néctar que fazia todos sorrirem mais, rirem mais, quererem mais.
Em meio a belos jovens - pois, a juventude em si já é bela - um par se destacava. Ela, com sua pele de porcelana, com seu cabelo cor-de-sol e uma graça de andorinha. Cercada por suas amigas, rodeada por admiradores. Sorria e disfarçava. Ria e dissimulava. Tinha ciência de que era desejada, por todos, homens e mulheres. Tinha ciência de que se destacava. Porém, fazia como ninguém o papel de inocente, de mera menina. Embora apenas seu sorriso fosse de menina. Suas curvas eram fartas e lânguidas. Despertando a libido dos homens. Mas também eram moderadas e belas. Criando a inveja nas mulheres. Seus olhos de diamantes penetravam a quem apontassem. Criava um ar de calma e de curiosidade. De paz e paixão. Mas ela não era a única na festa que colecionava olhares. O complemento do par, ele, também reunia desejos e suspiros. Era grande como um leão, belo como um pavão, e perigoso como um coiote. Todas o queriam, e ele, por sua vez, também queria todas. Seus olhos de falcão observavam toda e qualquer garota que passasse, e, quando uma o interessava, um sorriso traiçoeiro brotava em seus lábios, e ele só satisfazia-se ao tê-la em seus braços - ou em sua cama -. Todos os homens queriam ser ele. Todas as garotas queriam ser dele. Mas, essa noite, uma em especial chamaria a atenção dele, e a temporada de caça começaria.
Eles ainda não se notaram, eles ainda não se viram, estão simplesmente se curtindo, curtindo a festa. Porém isso está prestes a mudar. Pois ele começou a se mover, como se procurasse algo que não sabe o que é. Até que seus olhos se cruzam. Diamante e rubi, frente a frente. Ele gosta do que vê, ele a quer. Ela, do mesmo modo, interessa-se, mas finge corar e esconde-se entre suas amigas. Ele precisa fazer algo, precisa fazer sua jogada. Bebe um copo de desinibição, e o álcool corre por ele, como a energia correndo nos fios elétricos, dando a ele o impulso necessário para se aproximar. Ele mede seus passos, caminha como se fosse sobre o gelo. Sem pisar forte demais, para não acabar escaldado. Cada vez mais ele chega mais perto, mais perto. Até seus rostos estarem a um palmo de distância. Ele sorri para Ela como se tivesse encontrado um tesouro, Ela disfarça o seu sorriso por trás de suas mãos de pêssego. Alguns segundos suspensos pelo clima passam como se durassem o triplo do que duraram, olho a olho eles permanecem intactos, até que Ele corta todo o barulho do silêncio e diz "E aí, gata". É o que todos dizem "E aí, gata". Ela estava ciente do cronograma, até agora, Ele não tinha feito nada demais, nem nada de menos. Porém, Ele não precisava. Porque essa noite já era dos dois antes deles terem se cruzado. Ele diz mais alguma coisa sem importância, o que importa que Ele está se aproximando mais. Ela se afasta um pouco, como se tivesse medo. Embora também quisesse se aproximar e tocá-lo. Contudo, se o mundo é um palco, devemos desempenhar nossos papéis bem, e o dela é o da donzela. Ele continua a falar, mas diminui o ritmo, Ele encosta no braço dela. Ela encosta no braço dele. Eles se aproximam mais. Os lábios dela se dobram num sorriso de volúpia. O olhar dele penetra e faz o diamante rachar, Ela desvia os olhos e o observa de soslaio. Seus corpos atraem-se como imãs de pólos opostos. É pura física, é inevitável. Ele a agarra com a força necessária para fazer suas pernas tremerem, para despertar sua libido, mas com a delicadeza de quem colhe uma rosa. Ela se rende, ela fecha seus olhos. Ele também cerra os seus. Seus corpos se unem. Seus lábios se tocam. Ele sorri. Ela, por dentro. só ri. Ambos conseguiram o que queriam. Ninguém os invejava, pois eles formavam um casal magnífico, e a cena era esplêndida. Eles se perdiam entre suspiros e beijos. Entre toques e calafrios. A noite passava mais lentamente, a vida caminhava apressada. Seus corações corriam. Passado um quarto de hora repleto de toques, beijos e risos. Ele a leva para seu carro. Ela entra e o puxa pelo colarinho, os dois estão lá, ninguém mais os vê.
Ninguém os vê, ninguém, nem eu. Que observava tudo de longe. Que não fui convidado para a festa. Que vou-me embora, agora que os donos da festa já deram seu show. E os espectadores estão se distanciam.

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