quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O escravo maia.

VIII

Ele. A lua. O sol. No topo da lúdica montanha.
O garoto lembrava que um dia seu pai explicara o significado da lua e do sol que estavam sempre presentes nos trajes e armas do exército do vilarejo. Por serem símbolos antagónicos representavam o equilíbrio que todo guerreiro devia ter. "A força do sol e a sabedoria da lua", dizia ele. Pois nem sempre a força é a solução correta, e nem sempre podemos resolver nossos problemas sem violência. Afinal o sol sempre se deita e a lua uma hora se apaga. É assim a nossa vida toda, sempre em ciclos. "Ninguém é sempre sol ou lua.". Era o que recordava.
Nada mais se via no topo da sonífera montanha. Somente o menino e a lua-sol entrelaçada como os brasões dos bravos soldados. Porém, de repente, o emblema começou a se desfazer, a lua e o sol se afastaram, repeliram-se. O jovem assistia ao espetáculo como um ávido espectador, não se movia e mal respirava, suas pálpebras estavam abertas como um botão de rosa que nasce no luar. Enquanto o sol e a lua lentamente caminhavam para um canto distinto do céu, levavam consigo a luz e a escuridão, respectivamente. O rapaz entendia que sua vida não seria mais a mesma, que ele já não fazia mais parte do seu povo, e que ele teria de fazer uma escolha: optar por um astro e um caminho; a noite ou o dia; a luz ou as trevas.
O garoto acordou do sonho como se caísse n'uma nuvem, com uma macia sacudida. Levantou-se da grande e confortável cama, esfregou os olhos delicadamente e abriu as violáceas cortinas que escondiam a janela que parecia um fantástico quadro das verdes planícies maias. O sol começava a se levantar no horizonte e tinha uma coroa alaranjada que fazia os pássaros cantarem alegremente. Contudo ele vinha só, pois a lua ficara dormindo para aparecer horas mais tarde. Tudo estava em seu devido lugar, exceto seu coração.
A porta se abriu atrás dele, o príncipe entrou com um sorriso malicioso e afável. O jovem sentou-se na cama desarrumada e observou o forte rapaz que permanecia observando a paisagem.
- Dormistes bem? - Perguntou com um tom interessado.
- Foi como dormir no amor. - Disse o escravo perdido na tela azul que encarava.
- Dormir no amor? Que poético! - Exclamou a rir. - Vejo que tua nova residência já está a te alterar. - Falou levantando-se e pondo-se lado-a-lado com o jovem-homem.
- O amor é quente e macio. Assim como essa cama. - Jogou ao príncipe.
- Muitas coisas são quentes e macias.
- Mas o amor também é confuso.
- Confuso, que queres dizer? - Indagou o príncipe observando atentamente o rapaz.
- Nada, deixa estar... - Disfarçou enquanto saia da frente da janela e ia se arrumar.
- Tudo bem, apronte-te, tenho uma surpresa para ti, lembra-te? Não, não. Não precisa usar essas vestes, podes ir com o que estás acostumado, ficarás mais à vontade. - Disse enquanto saia do quarto. - Encontre-me dentro de um quarto de hora em meu aposento.

- Por favor, não deixes ninguém me interromper. Estarei muito ocupado, não quero ser atrapalhado, entendestes? - Ordenou o príncipe seriamente.
- Tudo bem... tudo bem... fiques tranquilo, ninguém interromper-te-á - Afirmou a velha senhora que sempre trabalhara para a família real.
- Obrigado. - Disse curvando-se e beijando a enrugada mão da dama.

Na hora marcada o jovem maia foi ao aposento do princípe, a senhora que prometera que não deixaria ninguém entrar estava guardando o quarto. O jovem ainda não a conhecia, ela tinha uma aparência rude e frágil. Sua pele parecia feita de papel amassado e seus cabelos eram d'um prateado reluzente. Tinha uma estatura baixa e ficava curvada como se estivesse prestes a cair. Seus olhos eram frios e opacos, aparentavam já terem sido de forte azul, mas hoje tinham a côr e a vida de uma pedra.
- Olá... eu vim... eu, o princípe disse pra eu vir aqui. - Disse vacilante o rapaz.
- Sim, podes entrar, ele te espera. - Respondeu sem olhar o rapaz nos olhos.
- Ah, sim, obrigado... - E entrou no quarto.
Ao entrar no quarto, o jovem se deparou com uma cena inesperada.
- Surpresa! - Disse o príncipe. - E bem-vindo à tua nova vida. Espero que tu gostes. Podes aproveitar, retirar-me-ei, depois retorno. - E retirou-se pelos fundos.
- Eu... mas... o quê?! - O garoto não sabia o que fazer.
No quarto do princípe encontravam-se diversas garotas seminuas, de todos os tipos, com muitos formatos, altas, baixas, magras, cheias, com a pele bronzeada, com a pele de cera, cabelos rubros, negros, louros, com forma de ampulheta, de triângulo. Para cada gosto. Elas eram lindas, ele nunca vira tantas garotas lindas, parando para pensar, ele só conhecera uma cristã, a menina com quem se apaixonou e nunca quis outra. Porém, vendo essas outras mulheres, viu como ela não era tão bela, seu cabelo não brilhava como o delas, seu corpo não tinha essas curvas, seu sorriso não era tão reluzente. Elas se aproximaram, ele hesitou.
O rapaz as queria, mas tinha medo, tinha receio. O desejo foi mais forte, ele cedeu. Elas tiraram suas vestes cuidadosamente, e cobriram seu corpo de quentes beijos. Ele retribuiu, ele as beijava, as agarrava, elas brincavam com ele e entre elas. O prazer tomava conta dele, ele não conseguia se controlar, elas o mordiam. Seu corpo pedia mais, elas pediam mais. Porém, ele parou, ele sentia o prazer, sentia a emoção, mas não sentia algo, faltava alguma coisa. Dentro dele tinha uma parte vazia, que ele nunca sentira tão oca antes. O que ele sentia era a presença da ausência dela. Ele precisava dela, ele finalmente notou o quanto a amava, ironicamente enquanto a traía. As garotas não davam trégua, mesmo quando ele tinha parado, já estava desinteressado, eles a afogavam de paixão, de lascívia.

- Olá... - disse a garota. - Eu estou procurando o... o... o "muso" do príncipe. - Falou sem jeito, olhando para o chão. - Tu saberias onde ele está?
- Não sei. Não está por aqui. - Respondeu a velha, sem olhar para a garota.
- Tem certeza? Disseram-me que o viram vindo para cá... não o vistes? - Insistiu a menina.
- Eu já disse que - A senhora olhou para a garota e ficou ainda mais pálida, nada disse, mas escancarou sua boca, quase caiu, parou, olhou-a novamente. - Você... você está com o rapaz que o princípe trouxe? - Indagou ainda espantada a madura mulher.
- Sim... por quê? - Respondeu sem entender.
- Bom... se esse é o caso... - A senhora tinha retomado sua postura. - Ele está no quarto do príncipe, acho que podes entrar. - Finalizou com um sorriso misterioso e perigoso.
- Ah, tudo bem, obrigada. - Agradeceu e abriu a porta do aposento.
Ao abrir a porta, não pôde acreditar no que viu. Foi embora como uma flecha, deixou um rastro de delicada água salgada. O jovem foi atrás dela, sabia que errara, mas também notou que a amava e sempre amou, queria fazer o certo dessa vez.

O garoto não precisou procurá-la muito, no topo da arrependida e decepcionada montanha a encontrou.
- Eu escolhi você. - Disse enquanto a abraçava e deixava-a chorar em seus braços.

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