Uma pincelada suave aqui, outra mais energética acolá. Pintava de forma ritmada, seus traços tinham música. Mas também podia ser mais rígido, mais frívolo. Ele era um exímio pintor.
Pintava sempre numa mesma praça, não diariamente, mas tentava pintar sempre que tivesse tempo. Afinal, ele era estudante - e não de artes - e também trabalhava para ajudar em casa. Mas a pintura era sua paixão verdadeira.
No começo, poucos davam atenção para sua pintura, somente alguns poucos amigos o apoiavam. Verdade seja dita, ele pintava por gosto e nunca tivera nenhuma instrução, mas com o tempo pegou o jeito e agora já tinha uma técnica avançada para alguém tão jovem.
Mais e mais pessoas passaram a admirar sua arte. Sempre que se punha a pintar, dúzias de pessoas paravam para observá-lo, ver sua obra, sorrir, chorar, emocionar, chocar. Ele fazia de tudo, quadros lindos; lúdicos; serenos, que deixavam qualquer um alegre, quadros horrorosos; bizarros; ácidos, que chocavam e criticavam a sociedade, incomodavam todos.
Porém algo sempre o incomodava, mas ele não dizia nada a ninguém. Ele pintava, pintava, pintava. Quadros de amor, quadros de horror, quadros abstractos, críticos, sonhos e pesadelos. Pintava de tudo, tudo o que sentia, tudo o que as pessoas queriam dizer mas não conseguiam expressar. E quando viam algo que dizia o que sentiam, que era realmente belo, ou fazia pensar, reflectir, quando o quadro realmente mexia com pelo menos um de seus espectadores, eles não diziam nada. Nunca o elogiavam, criticavam, apoiavam ou reprovavam. Adoravam seus quadros, certamente, entretanto ele não recebia um comentário sequer, a não ser que ele pedisse suas opiniões.
Cansado disso tudo ele resolveu lhes dizer o que sentia, como ele sabia. Pintou um quadro, um autorretrato, era ele a pintar na mesma praça com os mesmo espectadores, a cena era a que podia ser vista quase que diariamente naquele lugar, com uma pequena diferença: as pessoas que viam seus quadros estavam amordaçados, e com uma metáfora simples finalmente teve uma resposta.
- Desculpe-nos - disse uma moça no meio da multidão.
Desculpe-nos, mesmo eu não sendo uma moça.
ResponderExcluirNão te desculpo por não ser uma moça.
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