sábado, 23 de junho de 2012

Ravena.

Minha vida sempre foi bem pacata, não que eu reclame, sempre fiz o tipo observador, analítico. Observo e apenas observo, não sou fã de ações, não de minha parte. Pois bem, chega de mim, não sou a personagem principal de nenhum conto e nem desejo.
Sem mais rodeios, agora lhes contarei sobre algo que me aconteceu há algum tempo, quando estava num período de observação de aves, e conheci alguém realmente interessante, espero que gostem.

Ravena 

A tarde era irritantemente ensolarada, como um asqueroso dia veranil, uma tarde sorridente e alegre. Para evitar contrair essa felicidade, fugi para o campo onde eu passara as últimas semanas a observar a natureza, simples e complexa. 

Apesar de apreciar tudo que podia lá, desde as pedras, plantas, até animais maiores, como vacas - que passavam de vez em quando para beber água -, admito que tinha uma preferência pelas aves, talvez por aquela velha ideia do homem que sonha em voar, talvez porque algumas coisas não tem explicação nenhuma, e eu apenas gostava delas.

Corrigindo: gostava até perceber um padrão - odiosos padrões, lógicas repulsivas - no comportamento delas, ou pior, perceber que seu comportamento era vazio, que estavam lá porque tinham de estar, sem questionar nada, sem voar para longe, sem bater as asas que tinham. Raramente as via voando, e quando voavam, era apenas de um grupo para outro, o mundo era tão grande, e elas mal sabiam, pois seu mundo era esse campo, que não era pouca coisa - pois tinha tudo que elas precisavam, água, frutas, árvores -, mas comparado ao resto, era nada.

Os flamingos, irritantes flamingos, andando em grupos, quase como se desfilando, com suas pernas longas e bela côr - bela até enjoar, o que leva menos de cinco minutos -, e um rei na barriga, sempre a se exibir para todos os outros, querendo se sentir superiores, embora somente eles achem isso. 

Pavões, entediantes pavões, tentando provar quem é o melhor, o mais belo, com caudas ornamentadas e cores extravagantes, num concurso de beleza sem fim, sempre com novos enfeites, novas combinações, novas maneiras de parecer ridículos.

Águias, tão altivas, tão imponentes, tão irrelevantes. Sempre a sobrevoar o campo, tentando voar mais alto que as outras. Só isso que fazem, voam, sem objetivo, sem necessidade, só querem voar alto, mas não ligam para nenhum tipo de adrenalina, de prazer, querem apenas ser a mais alta. E aqui de baixo, estão tão alto que são todas iguais, não podemos discernir, e de nada adianta, pois, no fim, são as mesmas imbecis águias idênticas.

E o resto não foge disso, algos pelicanos tontos, umas andorinhas chatas, gaivotas dramáticas e toda espécie de pássaros que todos estamos acostumados a ver por aí.

Nessa tarde, entretanto, havia algo diferente. Algo no ar, um leve odor nauseante, pútrido, que invadiu minhas narinas e quase me fez vomitar. Enquanto engolia a bílis que subiu por minha garganta, olhei para onde vinha o fedor e vi uma vaca morta, em estado de decomposição. Já não vinha para cá há algumas semanas, que devia ser o tempo que ela estava lá. Todos os outros animais evitavam de se aproximar dela, fugindo do fedor intragável.

Fiquei alguns momentos a observar a carcaça, os vermes que se deliciavam com as entranhas do animal, os ratos que arrancavam pedaços apodrecidos dos seus ossos, as moscas sobrevoavam os detritos. E aí, fui pego de surpresa, quando um vulto negro se aproximou daquela cena, voando rapidamente, e uma das ratazanas tombou de lado, com as tripas saindo por um corte em suas costas. O vulto passou novamente e um olho de outra ratazana caiu de sua cabeça, envolta numa poça do sangue que começou a jorrar ininterruptamente do animal. 

Ainda surpreso, vendo os animais em seu grito de agonia, sofrendo com a dor, irracionais, sem saber o que fazer, correndo desordenados, zonzos, perdidos. Um terceiro roedor deu um guincho ensurdecedor, sobre ele, atacando-o ferozmente, vi um corvo, sedento por sangue, ávido por carne. O corvo, belo, sujo, fúnebre, com um olhar doentio, e uma calma sepulcral, calculista. Apenas um vulto sombrio, que com bicadas compactas perfurava o animal indefeso, cada vez que lhe acertava, o grito era mais abafado, mais dolorido. O corvo, gélido, sem o menor pudor, sem qualquer empatia, abriu um buraco na cabeça do rato - que a essa altura já parara de reagir, com os olhos revirados e a boca espumando -, e comeu seus miolos lentamente, apreciando a refeição, como se estivesse sozinho em seu ninho. 

As outras aves observavam a tudo estarrecidas, algumas se ouriçavam a cada ataque predatório do agouro negro, outras se enojavam e não aguentavam assistir a mais nenhum segundo daquela cena.

Quando saciou a sede pelo sangue do pequeno animal, o corvo pulou, com a graça de um ceifador, na carcaça putrefata. Revirou as tripas da vaca, e encontrou seu intestino, e rasgou-o abruptamente. A carne se desfazia no seu bico, e os pequenos pedaços caíam sobre os vermes que apreciavam cada segundo da carnificina.

Espremeu, rasgou, perfurou, mutilou. Banhou-se nos restos do animal, saboreou a podridão do morto. Enquanto algumas aves partiram, outras sentiam-se tentadas a fazer como o corvo, essa ave que nós nunca viramos antes, esse vulto negro que passou rapidamente por nós. E o Corvo, que ao contrário dos outros, não buscava exibir-se, voar alto, ou ser o mais belo, simplesmente levantou voo e partiu, solitário como apareceu para nós. Eu pude apenas acompanhar até onde meus olhos alcançaram, porém sei que essa experiência mudou muita coisa para todos nós. As aves que sempre comeram frutas e sementes, passaram a comer alguns peixes ou outros animais, mas nada tão grotesco quanto aquela vaca, ainda.

E quanto a mim, parei de observar pássaros, pois tenho certeza de que encontrei um dos mais belos exemplares de ave.

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